“A Family”, segundo longa de Mees Peijnenburg, segue dois irmãos atravessando o divórcio dos pais. A diferença está no ponto de vista. Nina (Celeste Holsheimer), de 16 anos, e Eli (Finn Vogels), de 14, não funcionam como coadjuvantes do conflito conjugal; são justamente aqueles que precisam viver dentro das consequências de uma guerra que não escolheram. Selecionado para a seção Generation 14plus da Berlinale 2026, o filme recebeu Menção Especial do júri jovem.
Peijnenburg estrutura o longa em duas partes espelhadas, revisitando aproximadamente as mesmas semanas primeiro através de Nina e depois de Eli. A estratégia poderia facilmente se transformar num exercício repetitivo, mas encontra sua razão de existir na diferença entre aquilo que cada um percebe, omite e interpreta. Uma discussão dos pais, um silêncio ou um gesto ganham outro peso quando vistos pelo outro irmão. O filme compreende que não existe uma experiência única do divórcio: enquanto Nina tenta escapar daquela casa e daquela configuração familiar, Eli permanece agarrado à possibilidade de recuperar o que existia antes.
É nesse deslocamento que “A Family” encontra sua dimensão mais dolorosa. Os adultos estão tão consumidos pelo próprio ressentimento que os filhos acabam ocupando espaços emocionais que não deveriam ser deles. A disputa pela guarda, a necessidade de escolher com quem morar e a obrigação de verbalizar sentimentos diante de um juiz transformam a adolescência numa espécie de tribunal permanente. O filme não precisa transformar os pais em monstros para mostrar o estrago: basta observar como Nina e Eli começam a construir mundos particulares para suportar uma realidade que não conseguem controlar.
Finn Vogels é especialmente preciso como Eli. Seu personagem fala pouco, mas registra tudo: os conflitos, os afastamentos, as mudanças de comportamento da irmã. Há uma espécie de adultização silenciosa naquele olhar, como se ele tivesse compreendido cedo demais que sua família não voltará simplesmente ao que era. Celeste Holsheimer acompanha esse movimento por outro caminho, construindo uma Nina menos disposta a permanecer prisioneira do passado.
A presença queer de Nina é tratada com uma naturalidade importante. Sua relação com Steffie (Livia Lamers) integra a vida da adolescente sem ser convertida em problema narrativo. Isso importa porque “A Family” está interessado em tudo aquilo que compõe uma adolescência, desejo, amizades, família, medo, independência, e não em transformar a personagem queer numa extensão da crise dos pais. O relacionamento permanece como parte de quem Nina é enquanto ela enfrenta uma situação que poderia facilmente consumir toda a sua identidade.
“A Family” se destaca justamente na recusa de escolher um filho como vítima e o outro como responsável pelo afastamento. Ao repetir os acontecimentos, Peijnenburg não oferece uma verdade definitiva, mas duas subjetividades incompletas que finalmente começam a se enxergar. O filme entende família menos como uma estrutura intacta do que como aquilo que permanece possível depois que essa estrutura desmorona, uma conclusão delicada para um drama que prefere observar as feridas a transformá-las em simulacro.
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