quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Madfabulous (Reino Unido/Irlanda, 2026)

“Madfabulous” chega como uma fantasia biográfica sobre Henry Cyril Paget, o 5º Marquês de Anglesey, e encontra em Callum Scott Howells, de “It’s a Sin”, um intérprete capaz de transformar extravagância em linguagem corporal. Dirigido por Celyn Jones e escrito por Lisa Baker, o filme acompanha a chegada de Henry ao País de Gales, no fim do século XIX, quando sua herança aristocrática o coloca no centro de uma sociedade que espera dele sobriedade, masculinidade e comportamento protocolar. Em vez disso, ele oferece teatro, joias, figurinos, dança e uma disposição quase insolente para transformar a própria vida em espetáculo.

Paget herdou uma fortuna extraordinária, em 1898, e rapidamente a converteu em roupas, joias, festas e shows. Em Plas Newydd, rebatizado por ele de “Anglesey Castle”, transformou a capela da família no Gaiety Theatre, onde encenava peças e aparecia em performances tanto caracterizado quanto em drag. 

É nessa contradição que “Madfabulous” encontra sua identidade queer. O filme não precisa transformar Paget em uma identidade histórica que jamais poderemos comprovar: seus documentos pessoais foram destruídos pelos herdeiros e sua orientação sexual permanece impossível de determinar com segurança. O que existe, porém, é uma vida marcada pela não conformidade de gênero, pela teatralidade e pela rejeição das convenções masculinas de sua classe. O filme assume essa ambiguidade e transforma Paget em um ícone queer possível, mais interessado em celebrar a liberdade de sua expressão do que em inventar uma sexualidade documentalmente comprovada. 

Howells é o grande destaque da produção porque entende que Henry não pode ser interpretado simplesmente como “o aristocrata excêntrico”. Há nele narcisismo, irresponsabilidade e uma necessidade quase infantil de ser visto, mas também uma enorme vulnerabilidade. O desejo de reconhecimento paterno atravessa a extravagância como uma ferida escondida sob camadas de seda e diamantes. Ruby Stokes, como Lily, estabelece uma cumplicidade importante ao lado do protagonista, enquanto Rupert Everett dá ao mordomo Gelert uma afetividade que impede o filme de se tornar apenas uma caricatura da aristocracia. 

O problema é que a própria exuberância de Paget parece maior do que o filme consegue acompanhar. “Madfabulous” possui figurinos, cenários e situações deliciosamente camp, mas frequentemente suaviza aquilo que poderia ser mais radical: há momentos de humor e de verdadeira provocação, mas a narrativa acaba retornando a uma estrutura bastante convencional de ascensão, excesso e queda.

Há algo irresistível em ver o cinema contemporâneo recuperar uma figura que a história oficial transformou em nota de rodapé. Paget morreu aos 29 anos, em 1905, depois de levar seu patrimônio à falência, mas deixou imagens que continuam desconcertantes: vestido, coberto de joias, dançando, encenando e recusando a ideia de que um homem aristocrata deveria ocupar o espaço de maneira discreta. “Madfabulous” talvez seja menos ousado do que seu personagem, mas entende o essencial: antes de existir uma linguagem moderna para falar de gênero, performance e dissidência, já havia quem transformasse a própria existência em palco.


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