segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Rose (Áustria/Alemanha, 2026)

Em “Rose”, a liberdade cabe dentro de uma calça. Markus Schleinzer transforma uma história de disfarce em uma investigação desconcertante sobre gênero, poder e liberdade. Ambientado no século XVII, no rescaldo da Guerra dos Trinta Anos, o filme acompanha Rose (Sandra Hüller), uma mulher que passou anos vivendo como soldado e que chega a um vilarejo protestante reivindicando uma propriedade. Para a comunidade, ela é um homem, e é justamente essa identidade masculina que lhe permite circular, trabalhar, possuir terra e negociar sua própria existência. Hüller recebeu o Urso de Prata de Melhor Atuação na Berlinale 2026. O diretor pesquisou centenas de casos históricos de mulheres que viveram como homens por razões que iam do acesso ao trabalho e à fuga de casamentos forçados ao desejo lésbico e àquilo que hoje poderíamos reconhecer como experiências trans. Rose, porém, não é a biografia de uma delas, mas uma personagem composta a partir dessas histórias.

A grande sacada do filme está em não transformar essa passagem de mulher para homem em uma elaborada operação de caracterização. Rose não precisa engrossar a voz, construir músculos ou se transformar numa caricatura de masculinidade. Basta a calça. “Na calça havia mais liberdade”, diz a personagem, e a frase concentra praticamente todo o pensamento do filme. Schleinzer está interessado menos na ideia de uma mulher tentando convencer os outros de que é homem do que na constatação de que a sociedade já decidiu quais roupas, comportamentos e funções pertencem a cada gênero. A performatividade acontece diante dos olhos da comunidade. O filme desmonta, assim, a suposta naturalidade do gênero através de uma coisa banal, quase ridícula, um pedaço de tecido.


Essa é também a razão pela qual “Rose” pode ser lido tão claramente como  queer, embora não seja um filme interessado em oferecer uma identidade fechada à protagonista. O próprio Schleinzer chama a obra de “uma história queer” e explica que deliberadamente não quis determinar se Rose é lésbica, trans, assexual ou qualquer outra coisa. Para ele, a questão está justamente na liberdade de não precisar explicar o desejo para ter direito à existência. O diretor também evita uma convenção recorrente dos filmes de mulheres que vivem como homens: a revelação do corpo nu como prova definitiva de que “por baixo” da roupa existia uma mulher. Nunca precisamos ver o corpo de Rose para compreender o mecanismo da violência. 


A comparação com “Elisa y Marcela”, de Isabel Coixet, é inevitável e reveladora. Nos dois filmes, uma mulher assume uma identidade masculina dentro de uma sociedade que restringe radicalmente a autonomia feminina, e o casamento com outra mulher passa a fazer parte dessa estratégia. Mas enquanto “Elisa y Marcela” parte de uma história real de amor entre duas mulheres, com Elisa assumindo a identidade de Mario para conseguir se casar com Marcela em 1901, “Rose” prefere deixar o desejo em suspenso. Suzanna (Caro Braun) não é simplesmente a mulher por quem Rose se apaixona, nem o casamento funciona como recompensa romântica. A união é também uma operação social e econômica.


 Schleinzer constrói essa discussão com uma austeridade que poderia parecer distante, mas que combina perfeitamente com o mundo de “Rose”. O preto e branco granulado de Gerald Kerkletz transforma a Alemanha rural do século XVII em um espaço quase fantasmagórico, onde a paisagem, as roupas e os rostos parecem igualmente castigados pela guerra. Há uma influência evidente de “A Fita Branca”, de Michael Haneke, filme no qual Schleinzer trabalhou como diretor de elenco, especialmente na rigidez dos enquadramentos e na recusa em explicar completamente o que acontece.

“Rose” poderia facilmente ter se tornado um manifesto contemporâneo sobre identidade de gênero, mas sua inteligência está em resistir a essa facilidade. Schleinzer não quer transformar Rose em símbolo, heroína revolucionária ou explicação ambulante sobre o que significa ser trans ou lésbica. Quer observar uma pessoa descobrindo que aquilo que para alguns é simplesmente vestir uma calça, trabalhar, possuir uma casa e viver em paz, para outros pode exigir uma vida inteira de disfarce. É aí que o filme encontra sua dimensão política mais poderosa. Rose não precisa dizer quem é para que a comunidade decida quem ela deveria ser.


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