quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Misere (Argentina, 2019)

Francisco Ríos Flores transforma um dia de verão na Plaza Miserere e na estação de Once, em Buenos Aires, em um retrato íntimo de seis homens que trabalham como taxiboys. Rodrigo Balsano, Fabián Maldonado, Rubén Elías Lavín, Mariano Toledo, Carlos García e Matías Riccardi atravessam a cidade entre esperas, encontros, deslocamentos e pensamentos sobre dinheiro, desejo, trabalho e futuro. “Miserere” não quer simplesmente revelar um universo invisível, mas observar como esses homens ocupam um espaço urbano onde estão ao mesmo tempo completamente expostos e praticamente invisíveis.

Os protagonistas são homens que negociam seus corpos e sua masculinidade em uma cidade que os observa sem necessariamente enxergá-los. Ríos Flores encontra nesse trabalho sexual uma zona em que desejo e sobrevivência deixam de ser categorias facilmente separáveis.  Existe precarização, violência e vulnerabilidade, mas também existe prazer, desejo, vaidade, humor, amizade e a possibilidade de escolher. Essa complexidade impede que o filme caia no miserabilismo tão comum quando o cinema decide filmar corpos pobres e sexualizados. O trabalho sexual aparece como trabalho, mas também como território de relações humanas.


. “Miserere” passa boa parte de sua duração acompanhando homens que caminham, observam, conversam e aguardam. O sexo, afinal, não é necessariamente o acontecimento mais importante, mas rola. Antes dele existe todo um ritual de olhares, aproximações, deslocamentos e negociações. A cidade se torna uma espécie de organismo sexual. Buenos Aires é uma cafetina onde corpos se reconhecem rapidamente em meio à multidão. 


Há ainda uma camada histórica que torna “Miserere” especialmente interessante para o cinema queer latino-americano. Ríos Flores encontrou em Néstor Perlongher, poeta, sociólogo e militante da diversidade sexual, uma referência fundamental para compreender o universo da prostituição masculina. E a influência de Perlongher não aparece apenas como citação intelectual: ela está na tentativa de enxergar o desejo masculino fora das categorias confortáveis, na atenção às masculinidades periféricas e na recusa de separar sexualidade, classe e cidade.

O filme funciona melhor quando abandona qualquer vontade de explicar seus personagens e simplesmente permanece com eles. O documentário não resolve o debate sobre prostituição, não oferece uma resposta única para o motivo que leva alguém a vender sexo e tampouco transforma o desejo em uma experiência necessariamente libertadora ou necessariamente trágica. O que ele encontra é algo mais incômodo: homens tentando sobreviver, ganhar dinheiro, ser desejados e construir algum tipo de futuro dentro de uma sociedade que ainda tem dificuldade de reconhecer determinadas formas de desejo masculino. O que falta não é visibilidade. É olhar.

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