Em “La Carga”, Miguel Eek converte uma casa de campo na Catalunha em uma espécie de laboratório masculino. Doze homens afastam-se por alguns dias para participar de uma experiência conduzida por Rai, facilitador dedicado às chamadas novas masculinidades. O objetivo parece simples: falar sobre feridas, medos, bloqueios e sobre a relação com os próprios pais. Mas Eek percebe que, por trás da linguagem terapêutica, existe algo mais difícil de desmontar: a aprendizagem masculina de esconder aquilo que dói.
O filme encontra sua força justamente quando abandona a ideia de que masculinidade precisa ser uma identidade estável. As dinâmicas físicas e emocionais propostas por Rai obrigam os participantes a tocar, olhar, abraçar, chorar e falar sobre aquilo que normalmente permaneceria protegido pelo silêncio. Há algo quase ritualístico nesse processo. A casa deixa de funcionar como simples cenário e passa a ser um espaço de suspensão das regras cotidianas: durante aqueles dias, esses homens podem experimentar outras formas de relacionamento entre si.
É nesse ponto que “La Carga” interessa particularmente a um olhar queer. O documentário não precisa transformar seus personagens em sujeitos LGBTQIA+ para questionar a masculinidade normativa. Seu gesto mais interessante está em observar o que acontece quando homens heterossexuais, ou simplesmente homens socializados dentro de códigos tradicionais de virilidade, são autorizados a estabelecer intimidade física e emocional uns com os outros. O toque, o choro, a vulnerabilidade e a confiança deixam de ser ameaças à masculinidade e passam a constituí-la de outra maneira. Não é exatamente um cinema sobre desejo homoerótico, mas sobre a possibilidade de uma intimidade masculina que não precise ser imediatamente defendida, sexualizada ou ridicularizada.
A relação com os pais funciona como o centro subterrâneo da experiência. Rai conduz os participantes para aquilo que não conseguiram elaborar com seus próprios pais, e a figura paterna aparece menos como indivíduo do que como origem de uma série de códigos transmitidos entre gerações.
Transformar vulnerabilidade em experiência coletiva não significa necessariamente romper com estruturas que levaram uma vida inteira para se formar. Mesmo assim, o filme encontra uma imagem poderosa para aquilo que propõe: homens aprendendo que podem existir uns diante dos outros sem a necessidade permanente de parecer invulneráveis. Em vez de tratar a masculinidade como algo a ser simplesmente abandonado, Eek pergunta o que poderia existir depois dela, abrindo espaço para que outras formas de estar entre homens possam finalmente ser imaginadas.
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