quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma, EUA/Canadá/Reino Unido, 2026)

Jane Schoenbrun transforma o slasher em um espelho quebrado da memória LGBTQIA+ em "Acampamento Miasma". O filme acompanha Kris (Hannah Einbinder), uma cineasta queer contratada para revitalizar a decadente franquia de terror Camp Miasma. Na tentativa de escapar do ciclo de continuações vazias, ela decide procurar Billy Presley (Gillian Anderson), a lendária “final girl” do filme original, hoje reclusa e vivendo nas ruínas do próprio acampamento onde tudo começou. O encontro entre as duas desencadeia uma espiral de obsessão, desejo, delírio e violência, em uma narrativa que mistura horror, comédia sombria e metalinguagem.

Há uma sensação de reparação histórica atravessando o filme inteiro. Schoenbrun parte explicitamente da tradição dos slashers hipersexualizados e frequentemente transfóbicos, das décadas de 1980 e 1990, para reescrevê-la a partir de um olhar queer. Em vez de punir corpos, "Acampamento Miasma" os coloca no centro do desejo, da criação artística e da sobrevivência. O assassino da franquia fictícia, Little Death, funciona menos como monstro convencional e mais como manifestação dos traumas produzidos por um gênero que historicamente excluiu ou ridicularizou identidades trans e queer. 

O terceiro ato do filme é praticamente uma aula de metalinguagem. Kris não está apenas dirigindo um remake; ela está tentando compreender por que certos filmes marcaram sua formação afetiva mesmo quando carregavam violência simbólica contra pessoas como ela. O “filme dentro do filme” permite que Schoenbrun questione a própria indústria dos reboots, a nostalgia tóxica dos fãs e a transformação do trauma em propriedade intelectual. A relação entre Kris e Billy ganha então uma dimensão fascinante: cineasta e musa, fã e ídolo, filha e fantasma. Gillian Anderson interpreta Billy como uma figura à la Norma Desmond, simultaneamente monstruosa, sedutora e melancólica.

Visualmente, "Acampamento Miasma" é um banquete de referências. A fotografia, de Eric Yue, mergulha o acampamento em néons azuis e rosas, fumaça, reflexos aquáticos e texturas de VHS deteriorado, enquanto a trilha de Alex G alterna nostalgia e estranhamento. Schoenbrun assume influências que vão de "Sexta-Feira 13 II" e "Evil Dead II" a "Peeping Tom", passando pelo horror queer de Yann Gonzalez. O resultado é uma estética febril em que sexo, morte e performance cinematográfica se contaminam mutuamente. Há sangue, latex, humor absurdo e momentos genuinamente perturbadores, sempre filmados com uma consciência aguda do prazer visual do gênero.

O paralelo com "I Saw the TV Glow" é inevitável, e o próprio Festival de Cannes apresentou o novo longa como a conclusão da chamada “Trilogia da Tela” de Schoenbrun. Nos dois filmes, realidade e ficção se dissolvem, personagens são engolidos por imagens e a cultura pop funciona como linguagem para experiências de dissociação e identidade. Mas "Acampamento Miasma" é menos contemplativo e mais lúdico. O desespero continua presente, mas agora ele dança ao redor da fogueira com uma faca na mão.

Decifrar a alegoria do filme é perceber que o verdadeiro miasma não é o lago amaldiçoado nem o serial killer, mas a herança cultural de um cinema que ensinou gerações queer a se reconhecerem em monstros, vítimas e fantasmas. Kris tenta “consertar” uma franquia, mas acaba confrontando a impossibilidade de separar desejo, trauma e criação artística. Jane Schoenbrun entrega talvez seu filme mais divertido e mais acessível até agora, sem abandonar a profundidade simbólica que marcou sua obra anterior. "Acampamento Miasma" não é apenas um slasher queer; é uma carta de amor venenosa ao horror, um acerto de contas com a nostalgia e uma celebração da capacidade do cinema de transformar feridas em espetáculo, memória e sobrevivência.


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