Em seu primeiro como diretora, a cinematografista Marine Atlan transforma uma viagem escolar a Nápoles e Pompeia em uma espécie de vertigem adolescente. “La Gradiva”, vencedor do Grande Prêmio da Semana da Crítica no Festival de Cannes de 2026, acompanha Toni (Colas Quignard), James (Mitia Capellier-Audat), Suzanne (Suzanne Gerin) e os demais alunos enquanto a paisagem histórica do Vesúvio funciona como catalisador para desejos, rivalidades, inseguranças e fantasias. A professora Mercier (Antonia Buresi), igualmente atravessada pelo cansaço e pela solidão, tenta conduzir o grupo por um território que rapidamente deixa de ser apenas uma excursão pedagógica. Atlan, que também assina a fotografia ao lado de Pierre Mazoyer, faz da passagem da adolescência para a vida adulta uma experiência quase física.
Pompeia não é apenas cenário: seus corpos petrificados pelo Vesúvio tornam-se uma imagem recorrente para aqueles jovens que ainda estão tentando descobrir quem são antes que o tempo os transforme em outra coisa. O título remete ao romance “Gradiva”, de Wilhelm Jensen, de 1903, sobre um arqueólogo obcecado por uma figura feminina esculpida em pedra, obra posteriormente analisada por Freud em seu estudo sobre sonho e delírio.
É nesse terreno que a dimensão queer do filme ganha particular relevância. Toni é um garoto gay e sua paixão por James, seu melhor amigo, estrutura boa parte da tensão emocional. O conflito está no desejo não correspondido, na distância entre observar e ser observado, entre querer alguém e não saber exatamente o que aquele alguém sente. Há na relação dos dois uma dinâmica de desejo e distância.
A mise-en-scène encontra uma imagem perfeita para isso logo no início, quando Toni observa, através do vidro de um compartimento de trem, James em uma situação íntima com uma colega. O vidro transforma-se em fronteira entre aquele que deseja e aquilo que deseja. Mais tarde, os próprios moldes dos corpos encontrados em Pompeia parecem ecoar essa imagem: corpos congelados no instante de uma intimidade que jamais poderá continuar. É uma associação visual particularmente poderosa.
A fotografia é, naturalmente, um dos grandes trunfos de uma cineasta que chega à direção depois de uma carreira consolidada como diretora de fotografia. A luz mediterrânea, os corredores, os quartos, os vagões e as ruínas são filmados com uma sensualidade que nunca transforma os personagens em objetos. Atlan utiliza corpos, rostos e movimentos como elementos dramáticos, enquanto o trabalho com os jovens intérpretes produz uma sensação de espontaneidade bastante convincente.
Há ainda uma delicadeza especial na maneira como o filme permite que o queer atravesse a experiência de Toni sem dominá-la completamente. Seu desejo por James é importante, mas sua história também passa por classe social, família, origem e pela necessidade de construir uma identidade que não se resume à orientação sexual. Em “La Gradiva”, crescer significa perceber que todo desejo contém a possibilidade da perda, assim como toda ruína já foi um lugar de vida. E, ao colocar um garoto gay no centro desse turbilhão, encontra a história de alguém não somente tentando tornar-se quem é, mas a história de alguém que já é, e ainda precisa descobrir o que fazer com isso.
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