sábado, 29 de agosto de 2026

Anything That Moves (EUA, 2025)

"Anything That Moves”, de Alex Phillips, exibido em première mundial no Fantasia International Film Festival em 2025, segue Liam (Hal Baum) é entregador de bicicleta em Chicago e também trabalhador sexual, levando aos clientes comida e prazer por meio de um aplicativo que transforma a lógica do delivery em uma espécie de mercado afetivo-sexual sob demanda. Quando uma série de assassinatos começa a atingir pessoas de sua clientela, o filme converte essa fantasia urbana em thriller psicosexual, comédia obscena e homenagem ao giallo.

Filmado em película Super 16 mm, “Anything That Moves” encontra na estética seu maior atrativo. A Chicago, de Phillips, não é uma cidade reconhecível pelo realismo, mas um organismo viscoso, colorido e artificial, fotografado como se o cinema de exploração dos anos 1970 tivesse sobrevivido dentro de um pesadelo contemporâneo. A câmera inquieta, os enquadramentos fechados, a iluminação agressiva e a presença de investigadores que parecem deslocados diretamente de um policial italiano ajudam a construir uma estética em que Dario Argento encontra o underground de Bruce LaBruce.


Liam não organiza seu desejo a partir de uma identidade rígida nem estabelece uma hierarquia entre corpos masculinos e femininos. Seu trabalho sexual atravessa diferentes gêneros com uma casualidade bissexual. “Anything That Moves” começa como uma provocação heterossexual aparentemente convencional e vai, aos poucos, deixando seu universo cada vez mais estranho e queer.


Essa liberdade sexual aproxima Alex Phillips de um cinema queer que entende o excesso como linguagem. Há ecos de Gregg Araki na combinação entre juventude urbana, sexo, violência e uma atmosfera de fim de festa; e também algo do espírito anárquico de John Waters na disposição para transformar o mau gosto em método. Mas Phillips não está simplesmente citando seus antecessores: ele quer recuperar uma ideia de cinema underground em que o desejo possa ser simultaneamente engraçado, grotesco, comercializado e perigoso.

“Anything That Moves” não é perfeitamente equilibrado. Pelo contrário: sua investigação criminal parece menos interessante do que suas texturas, seus corpos e suas ideias. O mistério do serial killer perde força justamente porque Phillips parece muito mais apaixonado pela experiência de circular por esse universo do que pela obrigação de solucioná-lo. Algumas críticas apontaram essa fragilidade narrativa e a dificuldade de conciliar

Alex Phillips realiza um pesadelo pop queer sobre corpos que circulam, trabalham, desejam e sobrevivem em uma cidade onde tudo pode ser entregue , inclusive a própria intimidade. “Anything That Moves” não é apenas um giallo contemporâneo com nudez e sangue: é um filme sobre a circulação do desejo num mundo transformado em aplicativo, serviço e mercadoria. Entre a homenagem ao cinema de exploração e a liberdade sexual que atravessa sua narrativa, o longa encontra uma personalidade própria. Pode tropeçar na própria bagunça, mas raramente deixa de ser fascinante enquanto se move.


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