Poucos fenômenos da internet deixaram uma marca tão estranha e duradoura quanto Aziz “Zyzz” Shavershian. Morto aos 22 anos, em 2011, ele atravessou a cultura digital como meme, fisiculturista, motivador, personagem performático e, para muitos jovens, uma espécie de profeta da autoestima masculina. Em "Poster Boy: Becoming Zyzz", a diretora australiana Selina Miles evita tanto a hagiografia quanto o deboche fácil e investiga como um garoto fazendo vídeos no quarto se tornou o rosto do chamado Aesthetics Movement, movimento que antecipou muito do que hoje conhecemos como cultura de influenciadores fitness.
Zyzz não foi apenas um fisiculturista popular, mas um personagem criado para sobreviver à insegurança. Selina Miles articula vídeos caseiros, postagens antigas, imagens de treino e depoimentos de familiares e amigos para revelar a distância entre o jovem ansioso e o avatar hiperconfiante que conquistou milhões de seguidores. A série de vídeos motivacionais, os bordões e a estética exagerada deixam de parecer simples exibicionismo e passam a funcionar como uma armadura emocional. O documentário sugere que a masculinidade performada por Zyzz era, ao mesmo tempo, um produto da internet e uma tentativa desesperada de pertencimento.
É impossível assistir ao filme sem perceber como ele dialoga diretamente com o presente. Muito antes de TikTok, OnlyFans, reels e algoritmos de engajamento, Zyzz já entendia intuitivamente a lógica da atenção digital: transformar o próprio corpo em narrativa, em marca e em comunidade. O documentário é particularmente perspicaz ao mostrar que o movimento “aesthetic” oferecia mais do que músculos; oferecia identidade para jovens homens que se sentiam invisíveis.
O aspecto queer da obra aparece mais como camada visual e cultural. A estética de Zyzz, bronzeado artificial, poses escultóricas, culto ao corpo grego, erotização constante da musculatura masculina, sempre carregou um forte componente homoerótico, ainda que inserido em um ambiente predominantemente heterossexual. O documentário toca nessa ambiguidade de maneira inteligente, observando como a cultura fitness masculina frequentemente oscila entre virilidade extrema e contemplação estética do corpo masculino. Sem transformar Zyzz em ícone LGBTQIA+, o filme reconhece que sua imagem circulou também em espaços queer e que sua performance de masculinidade nunca foi tão simples quanto seus memes sugeriam.
Quando o documentário aborda o uso de esteroides e o estilo de vida autodestrutivo associado àquela cultura, evita o tom moralista e prefere a tragédia silenciosa de alguém aprisionado pela própria criação.
"Poster Boy: Becoming Zyzz" é um documentário sobre a invenção de si mesmo na era digital. Selina Miles entende que Aziz Shavershian se tornou um mito porque encarnou uma promessa sedutora: a de que o corpo perfeito poderia curar insegurança, solidão e medo. O filme desmonta essa promessa sem destruir completamente o fascínio do personagem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário