Em "Drunken Noodles", Lucio Castro acompanha Adnan (Laith Khalifeh), um jovem estudante de arte que passa o verão em Nova York cuidando do apartamento de um familiar e trabalhando em uma galeria. A rotina aparentemente banal se transforma em uma sucessão de encontros, sexuais e afetivos, com homens que atravessam sua vida como possibilidades de intimidade, fantasia e descoberta. O filme parte de uma estrutura fragmentada para aproximar passado, presente, imaginação e memória, fazendo do próprio tempo uma experiência instável.
Castro já havia demonstrado em "Fim de Século" interesse por narrativas em que o desejo reorganiza a percepção do tempo, mas aqui ele encontra uma forma ainda mais livre de trabalhar essa ideia. Os diferentes capítulos da vida de Adnan não são apresentados como etapas perfeitamente organizadas, mas como lembranças que se contaminam. Cada encontro parece existir simultaneamente como experiência e recordação. A escolha combina com um personagem que vive em estado permanente de abertura: Adnan observa, experimenta, se aproxima e recua sem necessariamente transformar cada relação em uma definição sobre quem ele é.
Essa liberdade também permite que o filme olhe para corpos masculinos de maneira pouco convencional. As obras de Sal Salandra artista real cuja produção de bordados homoeróticos inspirou o projeto, funcionam como uma espécie de espelho fantástico para aquilo que Adnan deseja. Castro transforma os bordados em passagem entre arte e erotismo, realidade e fantasia, chegando a momentos em que os corpos parecem reproduzir as posições representadas nos trabalhos de Sal. A sexualidade deixa de ser apenas algo vivido pelos personagens e passa a contaminar a própria linguagem do filme.
Visualmente, Castro encontra na noite, nos parques, nos apartamentos e nas paisagens naturais uma espécie de geografia secreta do desejo. A fotografia em 35 mm contribui para essa sensação de verão suspenso, enquanto a natureza ganha uma função quase mitológica. O que começa como uma história urbana de encontros ocasionais progressivamente se transforma em algo mais próximo de uma fantasia sensorial. Não por acaso, o diretor associa sua inspiração a Alice no País das Maravilhas e O Mágico de Oz, imaginando uma versão queer dessas jornadas de descoberta.
O título também funciona como síntese dessa proposta. “Drunken noodles” é o nome de um prato associado à comida depois de uma noite de bebedeira, mas Castro o relaciona ainda à poesia e à ideia de embriaguez como estado de percepção. É exatamente onde o filme parece querer permanecer: entre o prazer e a ressaca, entre aquilo que aconteceu e aquilo que gostaríamos de ter vivido. Em vez de transformar o desejo em destino, o filme o trata como experiência passageira. É uma obra sobre homens que se tocam, se desejam, se frustram e seguem adiante, deixando uns nos outros pequenas marcas que talvez só apareçam muito depois.
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