Há um caminho interessante que o thriller queer vem percorrendo nos últimos anos. Durante décadas, o suspense e o terror de Hollywood olharam para personagens LGBTQIA+ com desconfiança: o desejo dissidente era frequentemente codificado como ameaça, perversão ou patologia. Basta lembrar de “Cruising”, de William Friedkin, filme que transformava o universo do cruising em território de fascínio e horror para um olhar essencialmente externo. “You Can’t Stay Here”, de Todd Verow, parte desse mesmo imaginário para inverter a perspectiva. Agora, quem olha é um homem gay. Quem deseja é um homem gay. Quem investiga também.
Ambientado em Nova York, em 1993, durante os anos mais brutais da crise da AIDS, o filme acompanha Rick (Guillermo Díaz), fotógrafo que frequenta o Ramble, histórica área de cruising do Central Park. Ele não está necessariamente ali para encontrar alguém. Há uma dimensão mais complexa no seu desejo: Rick observa, fotografa, circula, permanece num estado permanente de expectativa. Quando Rick registra indícios de um assassinato e passa a ser perseguido por uma figura misteriosa, o prazer do voyeurismo se converte em paranoia.
Então “You Can’t Stay Here” encontra sua melhor ideia: a câmera não serve apenas para registrar o desejo, mas para transformá-lo em risco. Rick é simultaneamente voyeur, artista, testemunha e possível vítima. Verow aproxima o filme de referências como “Blow-Up”, “Peeping Tom” e “Cruising”, usando o thriller para explorar a relação entre olhar e obsessão. O filme absorve códigos do giallo, do slasher e do thriller erótico para reorganizá-los dentro de uma experiência explicitamente queer.
“You Can’t Stay Here” é um legítimo descendente do New Queer Cinema: não existe a preocupação de transformar o protagonista em símbolo de respeitabilidade. Rick carrega traumas familiares, culpa, medo da intimidade e uma relação ambígua com sua própria sexualidade. Mas o filme não sugere que ele precise se purificar para merecer uma vida. Ele pode ser frágil e desagradável, curioso e covarde, desejante e assustado. Pode inclusive ser atraído pelo perigo.
O assassino, por sua vez, amplia essa recusa à higienização. A figura de Adam (Justin Ivan Brown) mistura serial killer, presença sobrenatural e uma espécie de vampiro sexual armado com poppers, imagem que pode soar absurda, mas que carrega a memória fantasmática da AIDS e do medo que atravessava o desejo gay naquele período. Verow não moraliza o sexo para falar de perigo. O sexo continua sendo filmado como excitante, belo e cotidiano, mesmo quando a ameaça circula ao seu redor.
É impossível ignorar, contudo, as marcas do orçamento reduzido. O filme é assumidamente DIY, e nem sempre essa precariedade se transforma em estilo. Há problemas de som, uma fotografia digital excessivamente limpa para uma história situada nos anos 1990 e interpretações de intensidade irregular. Mas há algo no próprio aspecto improvisado da produção que também conversa com a tradição de Verow: um cinema feito sem a assepsia das grandes estruturas, disposto a correr riscos mesmo quando tropeça. O filme compensa suas fragilidades na atmosfera e, principalmente, na coragem. É um thriller sobre sexo, medo e obsessão que entende algo essencial: depois de tanto tempo sendo transformados em monstros pelos outros, talvez uma das formas mais libertadoras de cinema queer seja finalmente poder escolher ser o monstro por conta própria.
Nenhum comentário:
Postar um comentário