Há algo irônico no título "Proud". A série polonesa, criada por Karol Klementewicz, começa mergulhada em excessos, sexo, drogas, música eletrônica, corpos em movimento,, mas rapidamente revela que seu verdadeiro tema não é o orgulho como afirmação identitária, e sim o longo caminho até merecê-lo. O protagonista Filip Raczyński (Ignacy Liss) surge como um jovem modelo gay hedonista, egoísta e emocionalmente imaturo, alguém que parece viver apenas para a próxima festa. Quando uma tragédia familiar o obriga a assumir responsabilidades inesperadas, a série abandona a superfície brilhante da noite de Varsóvia e se transforma em um drama sobre luto, cuidado e amadurecimento.
Ignacy Liss evita qualquer caricatura do “garoto perdido” e constrói um personagem simultaneamente irritante, sedutor, frágil e humano. Filip frequentemente toma decisões ruins, mente, foge e se sabota, mas a série nunca o julga. Há momentos em que seu narcisismo provoca rejeição; em outros, sua vulnerabilidade desmonta completamente a imagem de autossuficiência que tenta sustentar. Liss recebeu o prêmio de Melhor Ator no Series Mania: ele carrega a narrativa com uma mistura de carisma e desamparo.
“Proud” mostra sexo, desejo, aplicativos, boates e amizades queer com naturalidade. Ao mesmo tempo, a produção não ignora o contexto polonês. A dificuldade de um homem gay ocupar o lugar de cuidador, as barreiras legais e sociais, e a sensação constante de precisar provar sua legitimidade atravessam a narrativa. O mérito de Klementewicz está em evitar tanto o panfleto quanto a neutralidade confortável: a homofobia existe, mas o foco permanece nas relações humanas, especialmente na ideia de família escolhida como espaço de afeto e sobrevivência.
A fotografia de Weronika Bilska alterna o neon intoxicante das noites de Varsóvia com uma luz fria e silenciosa nos momentos domésticos, criando um contraste constante entre fuga e responsabilidade. A série compreende que o excesso pode ser tão solitário quanto o isolamento, e traduz isso com uma linguagem audiovisual elegante, contemporânea e extremamente sensorial.
O formato de oito episódios de cerca de 35 minutos favorece a intensidade, mas também cria a sensação de que determinadas relações evoluem rápido demais. Ainda assim, a série compensa essas irregularidades com diálogos afiados, humor bem dosado e uma capacidade de encontrar ternura em situações de caos absoluto. Mesmo a presença da pequena Tosia evita o sentimentalismo, a relação entre ela e Filip é construída com hesitação, estranhamento e descobertas graduais, não como milagre emocional instantâneo.
“Proud” trata da parentalidade queer não como exceção exótica, mas como experiência humana. A série entende que crescer muitas vezes significa abandonar a fantasia de liberdade absoluta e aceitar que o amor também é responsabilidade, rotina e medo. Sem spoilers, basta dizer que o desfecho preserva a honestidade emocional que sustenta toda a temporada. A atração encontra sua singularidade ao unir comentário social, erotismo, humor sombrio e uma sensibilidade genuína para personagens falhos.
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