terça-feira, 18 de agosto de 2026

"Camp" não era sobre acampamento? - por Luiz Silva

Por Luiz Silva

 No meu último texto eu escrevi uma palavra que nunca tinha ouvido falar, só cheguei a ela juntando um prefixo com sufixo e confirmando online, ANDROCÊNTRICO. A palavra estava certa e era exatamente o que eu queria expressar ali. Pedir perdão no meu texto em que falo sobre a comunidade LGBT+ e focar somente na ótica masculina. Pensei então em falar sobre um filme queer muito importante para a cultura e comunidade que eu já havia assistido e que fala da experiência feminina. NUNCA FUI SANTA (But I'm a Cheerleader - 1999).

 Óbvio que não quero tirar o protagonismo feminino do filme, até porque não conseguiria pegar todas as nuances numa comédia romântica sáfica. Porém, como um fã da cultura e comunidade lésbica, venho aqui como um aliado e compartilhar minha predileção pelo filme. 

Uma personagem tão perfeita que vive uma realidade tão comum que o óbvio passa despercebido para ela. De família cristã classe média com um namorado bonito e popular, a jovem Megan vive sua rotina se dedicando ao que ela mais gosta, ser uma das figuras mais femininas da cultura estadunidense, animadora de torcida (cheerleader). Ela gosta tanto de ser animadora de torcida que nem ela mesma percebe como tem fotos de mulheres pelos cantos e quando beija seu namorado sua mente devaneia e só fica pensando nas garotas pulando de minissaia em câmera lenta e balançando pompons. O elefante está na sala. Após uma intervenção feita pela família, amigas, namorado e um personagem feito pela Drag Queen RuPaul, Megan é enviada para um acampamento de conversão com a promessa que homossexuais se tornariam héteros após alguns meses.

Todo contexto de um acampamento para gays se tornarem ex-gays estava presente na época da produção do filme com uma abundância de narrativas multimídias de que era possível se tornar heterossexual. O filme que tinha uma proposta de ser um filme como As Patricinhas de Beverly Hills em um acampamento para conversão, segundo a diretora Jamie Babbit, foi muito polarizado na época. Entre as pessoas que viam a comédia e referências no filme até quem via, mas ficava desgostoso com a abordagem do tema. O filme se passa nos anos 90, mas com uma estética que mistura anos 50 (que segundo a autora seria a época mais "higienizada" dos EUA) que se mescla com cores. Mas muitas cores mesmo. A direção de arte recebeu como referência John Waters, casas de plástico da Barbie com pornôs gays artísticos. Daí vem o termo tão popular na internet atualmente para descrever o filme, CAMP.


Camp foi utilizado pela primeira vez pela autora Susan Sontag para descrever algo exagerado, hiper estilizado até um grau de artificialidade no seu livro Notes on "Camp, de 1964. Muitas vezes esse estilo é proposital e em outras não. Aqui no filme definitivamente é proposital, pois o longa tem noção dos seus exageros. A estética é utilizada para reforçar identidades de gênero e seus (supostos) respectivos papéis, associação de sexualidade a maneirismos, uso do discurso religioso para limitar funções. Isso tudo através de cores e símbolos nada sutis. Isso traz a graça do filme e faz dele tão reconfortante de assistir até pelo seu visual. Até os diálogos surreais estereotipados e performances claramente exageradas contribuem para essa loucura. Entretanto, essa loucura consegue dar a volta quando entendemos que promessas para uma suposta "cura" vieram antes através dos métodos mais estapafúrdios para "cura" da homossexualidade. Óbvio que tortura é utilizada até hoje nesses supostos tratamentos, e vemos até no próprio filme choques e isolamento como meios, mas quando você ouve que existiram métodos envolvendo beber sémen e vigiar tendências artísticas em meninos (além de outras que tenho medo de traumatizar meu teclado escrevendo) o surrealismo gráfico e dialético do filme parece menor.

Mas o que faz o filme ser diferente de outros que comentei aqui é que ele mesmo focando num romance lésbico, ele é abrangente. Personagem que provoca conversas atualmente sobre uma não-binariedade e uma conversa sobre papéis masculinos como esportes, carros e a cor azul. A briga pelo direito a própria identidade é muito mais plural no acampamento True Directions. Nós entendemos o que se passa ali e a forma como manipulação emocional é utilizada para nos sentirmos errados por sermos LGBT+ Sobre não atender expectativas. Maioria dos personagens tem um final não apresentado e até os vilões deixam dúvidas se eles lidarão com consequências no futuro, mas uma pequena parcela resiste ao final do filme como soldados numa guerra. Analogias com guerra são usadas de maneira nada sutil no filme como quando literalmente vestem roupas camufladas. 

Esse filme tem tudo para ser uma comédia romântica de Sessão da Tarde como a diretora desejava no início. Obviamente não veremos ele em horário vespertino na TV aberta tão cedo. O filme precisou ser editado para receber uma classificação indicativa menor porque mulheres falarem certas piadas. Mesmo na época, o filme American Pie fazendo o mesmo tipo de coisa, só que com homens. Vale muito a pena assistir por todos os méritos estabelecidos e a história de amor que floresce no decorrer do filme com um final feliz esperançoso que abrange todos LGBT+ em um romance lésbico.

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