quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte (Teenage Sex and Death at Camp Miasma, EUA/Canadá/Reino Unido, 2026)

 

Por Bruno Weber. A mídia que consumimos nos molda. As músicas que ouvimos, os filmes e séries que assistimos, os livros que lemos e até os memes que compartilhamos possuem um efeito profundo não apenas sobre quem somos, mas sobre quem escolhemos ser. Uma percepção mais limitada e reacionária desse fenômeno leva a opiniões equivocadas, como colocar a culpa da violência entre jovens nos videogames. Felizmente, essa é uma verdade que a diretora e roteirista Jane Schoenbrun parece compreender bem melhor. Seus últimos três filmes - já apelidados de "Screen Trilogy" (Trilogia das Telas) - se aprofundam nessa estranha relação entre consumo de mídia e autodescoberta. Em 2021, "We’re All Going to the World’s Fair" discutia o apelo sensorial das mídias sociais como uma maldição compartilhada e de como se tornou fácil se perder entre fato e ficção. "Eu Vi o Brilho da TV", de 2024, revela uma conexão entre a cultura de fandom e a ideia de pertencimento e escapatória, em que a obsessão compartilhada por uma série de TV oferece aos protagonistas a chance de reconhecer a própria identidade. E agora, com "Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte", Schoenbrun se baseia no conceito de "cena primordial" - de ser exposto na juventude a algo que certamente não era indicado pra sua idade. E que, por isso mesmo, aconteceu na hora certa pra você.

A trama acompanha Kris (Hannah Einbinder), uma jovem cineasta contratada por um grande estúdio para revitalizar uma série de filmes de terror slasher. Durante a sequência de créditos iniciais, uma montagem feita de recortes de jornais, coleções de fitas VHS e brinquedos licenciados revela a história de ascensão e queda da franquia Acampamento Miasma e de como seu personagem principal, o assassino mascarado chamado de Pequena Morte, passou de ícone de terror para entretenimento barato e cafona. Sendo uma fã de carteirinha dos filmes desde que viu o original na infância, Kris está empolgada em criar sua própria versão do personagem, mesmo sabendo que o estúdio está mais interessado em usar o nome de uma diretora queer para limpar o passado problemático da franquia. Tentando entender melhor esse passado, Kris vai atrás de Billy Presley, a atriz que fez o papel da final girl do primeiro Acampamento Miasma nos anos 80 e nunca mais trabalhou depois disso. Interpretada por Gillian Anderson como uma ermitã excêntrica, Billy escolheu viver sozinha no acampamento abandonado que serviu de cenário para o filme original. As conversas entre as duas são reveladoras, pois demonstram que apesar das diferenças óbvias - de idade, de aparência e de humor - elas são bem parecidas: duas nerds cinéfilas, amantes de junk food e conectadas por uma obra específica. Porém, Kris começa a perceber que a ligação de Billy com o filme e com o Pequena Morte pode ser mais peculiar e significativa do que ela esperava.


Essa relação secreta entra em contraste direto com o cinismo que Schoenbrun enxerga no ambiente cinematográfico atual. A diretora faz de Acampamento Miasma uma sátira sagaz sobre uma Hollywood em crise de identidade e de criatividade, que prefere reciclar obras antigas para atender a nostalgia compulsiva da cultura pop. E ainda aproveita para rechear o filme de referências diretas a grandes clássicos do terror, como Sexta-Feira 13 e Acampamento Sinistro - que também se passavam em acampamentos de verão povoados por adolescentes excitados prestes a serem vítimas de assassinos ocultos. Esse último, inclusive, está em conversa direta com Acampamento Miasma, já que os filmes dessa franquia contém alguns retratos transfóbicos ofensivos. Jack Haven, que interpreta Pequena Morte no filme dentro do filme, até mesmo repete a icônica expressão facial que Felissa Rose fazia no Acampamento Sinistro original. Como uma pessoa trans não-binária, Schoenbrun se vê atraída por revisitar esse legado, da mesma forma que Kris se sente com os filmes do Acampamento Miasma.


Isso poderia ser porque ambas entendem que o terror, mesmo com seu histórico de temas agressivos e estereótipos problemáticos, ainda consegue ser o mais progressista e inclusivo dos gêneros cinematográficos. Ainda que não em formato ou mensagens diretas, mas ao menos nas leituras que possibilita com sua estética estilizada, mundos ocultos, ameaças psicológicas e criaturas marginalizadas. Mas não é só isso. Há algo mais visceral nessa atração. Como Billy explica para Kris durante suas conversas, Acampamento Miasma não é sobre morte. "É sobre carne... e fluídos". Quando as duas decidem rever juntas o filme original, algo desperta em Kris. Algo que estava lá desde que ela era criança e assistiu pela primeira vez a cena em que Pequena Morte vai na direção da personagem de Billy com sua lança afiada. Um desejo de se ver perseguida e de se enxergar no olhar de seu perseguidor, que passa a unir as duas mulheres numa relação mais do que carnal. Não é a toa que Pequena Morte seja o nome romantizado que os franceses dão ao orgasmo.


Em comparação com os dois filmes anteriores da Trilogia das Telas, Acampamento Miasma é um retrato mais positivo da relação entre espectador e mídia. E também, partindo da perspectiva pessoal de Schoenbrun, remete a experiência de uma pessoa trans pós-transição, encontrando a si própria com calma e alegria naquilo que outros poderiam considerar mera ficção. Um filme pode nos afetar dessa forma, oferecendo não só uma janela para o mundo, mas uma linguagem sensorial e emocional sobre quem somos. Ainda que seja apenas um faz-de-conta. Uma brincadeira que sempre estará disponível quando precisarmos dela. Na verdade, sexo e filmes possuem tudo isso em comum.

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