David Moragas faz de uma crise amorosa uma investigação sobre aquilo que acontece quando a vida que construímos parece correta demais. Marc (Lluís Marquès) e Eudald (Quim Àvila) estão juntos há seis anos, dividem um apartamento em Barcelona e carregam a estabilidade de um casal que já encontrou seu lugar no mundo. Até que um novo vizinho surge do outro lado da rua e desperta em Marc uma obsessão que vai muito além da atração. O que começa como curiosidade se transforma em uma espécie de espelho: aquele homem parece representar tudo o que Marc imagina não ter. Moragas, então, desloca o romance do terreno da traição para algo mais incômodo, o desejo por uma vida diferente.
O filme não mostra apenas homens gays vivendo uma relação, mas questiona o que significa conquistar aquilo que durante tanto tempo foi apresentado como o grande objetivo da existência queer: um relacionamento estável, uma casa, uma profissão, uma rotina, uma vida perfeitamente integrada à normalidade. Marc e Eudald conseguiram tudo isso, mas a conquista não eliminou o desejo, o tédio ou a dúvida. Moragas não transforma a monogamia em vilã nem apresenta a liberdade sexual como solução. Ele prefere permanecer nesse território desconfortável em que nenhuma das possibilidades parece suficiente.
Essa crise também tem classe. Os personagens circulam por uma Barcelona confortável, entre apartamentos bem cuidados, trabalhos criativos, restaurantes, encontros e aplicativos, compondo uma bolha social que está longe da precariedade frequentemente associada à juventude. É uma escolha consciente de Moragas, que já explicou seu interesse em imaginar uma geração queer vivendo com algum conforto, sem que isso precise ser apresentado como exceção. Mas existe uma ironia importante nessa fantasia de estabilidade: quanto mais Marc olha para outras formas de viver a homossexualidade, mais percebe que também existem códigos, clichês e expectativas dentro da própria comunidade.
Moragas trabalha com uma delicadeza que acompanha essa existência repetitiva. Há banalidades, deslocamentos, conversas e situações que retornam como se a própria rotina estivesse começando a sufocar os personagens. Marc está preso justamente à repetição. O vizinho, portanto, não precisa ser extraordinário. Basta que ele interrompa a paisagem. Basta que exista como possibilidade. O desejo nasce quando alguma coisa quebra a coreografia de uma vida que parecia já estar decidida.
“Un altre home” lança a pergunta: quanto da nossa insatisfação pertence à pessoa que amamos e quanto pertence à vida que imaginamos que deveríamos estar vivendo? Moragas faz um cinema queer que não precisa transformar seus personagens em vítimas da sociedade para encontrar conflito. Aqui, a liberdade também pode produzir dúvidas, a estabilidade pode produzir angústia e a possibilidade de escolher pode ser tão assustadora quanto a ausência de escolha. No fundo, o outro homem talvez seja apenas o nome que Marc encontrou para uma vontade muito maior: a vontade de descobrir quem poderia ser se sua vida não estivesse tão cuidadosamente organizada.
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