quarta-feira, 19 de agosto de 2026

A Ilha Vermelha (L'île Rouge, França, 2023)

Em “A Ilha Vermelha”, Robin Campillo recorda as memórias de uma infância passada em uma base militar francesa em Madagascar  como uma espécie de fantasmagoria colonial. Thomas (Charlie Vauselle), de dez anos, vive entre as brincadeiras, as descobertas sobre os adultos e a imaginação alimentada pela heroína dos quadrinhos Fantômette, enquanto ao redor daquela aparente comunidade paradisíaca começam a surgir as fissuras de um sistema colonial em decadência. Embora o filme seja construído a partir de experiências pessoais, Campillo viveu em Madagascar entre 1969 e 1971, não se trata de uma autobiografia convencional, mas de uma ficção que transforma lembrança, fantasia e consciência política em poesia.

Campillo não reconstrói o colonialismo a partir de uma perspectiva adulta, didática ou retrospectivamente confortável. Ele prefere olhar para aquele mundo através dos olhos de uma criança que ainda não possui as ferramentas para compreender completamente o que vê. A base militar funciona como um enorme palco: soldados, esposas e crianças representam uma felicidade cuidadosamente produzida, enquanto armas, uniformes, hierarquias e preconceitos permanecem nos bastidores.

Thomas não se reconhece na masculinidade militar que organiza aquele universo. Sua identificação com Fantômette, personagem feminina que ele veste e encarna secretamente, além de proporcionar os melhor momentos de fantasia, não é apenas uma brincadeira infantil: é uma forma de experimentar outro corpo, outra identidade e outra possibilidade de existir. Campillo já afirmou que, quando criança, sabia que era gay e sentia a masculinidade da base militar como uma ameaça.

Fantômette representa justamente o oposto daquele universo masculino. Ela é independente, solitária, aventureira e capaz de circular pelas sombras. Quando Thomas veste seu figurino e atravessa a base à noite, o filme encontra uma imagem extraordinariamente delicada para aquilo que significa uma infância queer: o desejo de existir sem ser percebido, a descoberta de que determinados gestos precisam acontecer longe dos olhos da autoridade e a possibilidade de encontrar liberdade justamente naquilo que o ambiente considera inadequado.

“A Ilha Vermelha” é um coming-of-age que acontece em duas frentes. Thomas cresce ao perceber que os adultos não são aquilo que fingem ser; Madagascar cresce, ao mesmo tempo, na direção da ruptura com uma ordem que insiste em tratá-la como cenário de uma fantasia francesa. A experiência queer do protagonista não é apresentada como uma alegoria simplista da revolução, mas existe uma afinidade profunda entre os dois movimentos: ambos começam quando alguém percebe que o papel que lhe foi atribuído não corresponde àquilo que deseja ser. Campillo transforma sua própria memória em  confronto, entre desejo e norma, fantasia e realidade, infância e consciência, nostalgia e culpa. Para recuperar a criança que foi, o diretor precisa primeiro desmontar o mundo que aquela criança acreditava ser um paraíso.


Nenhum comentário:

Postar um comentário