domingo, 16 de agosto de 2026

Our Hero, Balthazar (EUA, 2025)

Em sua estreia na direção de longas, Oscar Boyson transforma a ansiedade digital, a cultura das armas e a solidão masculina em uma comédia dramática de humor corrosivo. “Our Hero, Balthazar” acompanha Balthazar (Jaeden Martell), adolescente rico de Manhattan que grava vídeos falsos de choro diante de tragédias envolvendo tiroteios, convertendo empatia em performance para as redes sociais. Quando decide impressionar Eleanor (Pippa Knowles), uma colega engajada na discussão sobre violência armada, ele parte para o Texas atrás de Solomon (Asa Butterfield, de Sex Education), um jovem que conheceu na internet e que acredita estar planejando um ataque.

A grande provocação de “Our Hero, Balthazar” está justamente na dificuldade de separar sentimento verdadeiro de sentimento performado. Balthazar não parece exatamente interessado nas vítimas dos massacres: interessa-lhe a imagem de alguém que se importa. Seu choro diante da câmera é quase uma coreografia, cuidadosamente produzido para obter atenção. Boyson encontra aí uma metáfora poderosa para uma geração acostumada a transformar indignação, sofrimento e posicionamento político em conteúdo.

O encontro com Solomon desloca a sátira para um território ainda mais desconfortável. De um lado, o garoto privilegiado, protegido pelo dinheiro e pela arquitetura de uma elite urbana; do outro, um jovem solitário do Texas, economicamente vulnerável e mergulhado em comunidades virtuais masculinas tóxicas. Ambos são produtos diferentes de uma mesma falência afetiva. A diferença de classe, porém, é fundamental: Balthazar pode brincar de radicalismo porque dispõe de uma rede de proteção que Solomon não tem.

É nessa relação que o filme encontra sua dimensão queer, ainda que nunca se assuma como um romance. A aproximação entre Balthazar e Solomon é carregada de uma tensão homoerótica que atravessa sobretudo, a intimidade física. A sequência em que Solomon ensina Balthazar a manejar um rifle transforma uma situação potencialmente banal em uma cena de estranha sensualidade, enquanto a obsessão mútua sugere algo que os personagens não conseguem nomear. Solomon também guarda uma bandeira LGBTQIA+ no quarto, porque já passou por ‘todas as fases’.

Há em "Our Hero, Balthazar" uma linhagem muito clara do cinema americano de juventude que passa por Larry Clark e Gus Van Sant. Não é apenas uma questão de mostrar adolescentes em crise, mas de observar corpos jovens atravessados por violência, desejo, solidão e uma incapacidade quase estrutural de estabelecer vínculos. A sombra de Clark aparece na maneira como o filme encara a adolescência sem idealização, enquanto Van Sant surge tanto na atenção aos personagens marginalizados quanto na combinação entre inquietação juvenil e delicadeza. O próprio Boyson reconhece "Elephant"(2003), "My Own Private Idaho" (1991) e "To Die For" (1995) como referências diretas, especialmente este último pela sátira da cultura midiática.

E isso fortalece bastante a leitura queer do filme. A relação entre Balthazar e Solomon pode ser vista justamente nessa tradição de duplas masculinas emocionalmente dependentes; O filme  conversa simultaneamente com a tradição de Clark, Van Sant e do cinema independente americano sobre juventude, mas a atualiza para uma geração em que até o sofrimento pode ser performado para uma câmera.

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