“Estuaries”, de Lior Shamriz, é um filme sobre o que acontece quando a morte não encerra uma relação, mas desmonta tudo aquilo que havia sido construído em torno dela. Em 2017, Eli (Lior Shamriz), músico queer e judeu mizrahi, perde Bdalak, seu parceiro e artista não binário, morto quando um carro invade o espaço onde realizavam uma performance. O casamento que pretendia garantir a permanência de Eli nos Estados Unidos também desaparece com ele. O que resta é o luto atravessado pela burocracia migratória.
Shamriz transforma essa situação em uma espécie de deriva pela cena artística de Los Angeles. Eli procura os amigos de Bdalak atrás de uma solução para seu visto, mas encontra um circuito onde solidariedade, oportunismo, gentrificação e autopromoção se confundem. A personagem mais emblemática desse universo é Myrna (Chelsea Rector), artista que pretende transformar o legado de Bdalak em material para sua própria obra.
Shamriz, que também escreve, produz e protagoniza, dá ao longa uma textura particularmente íntima. Sua direção permanece na desconfortável suspensão de alguém que perdeu simultaneamente o amor, a estabilidade e um possível futuro. A estrutura episódica das conversas, performances e encontros produz uma comédia de constrangimento que frequentemente beira o absurdo.
Essa frontalidade pode ser tanto uma qualidade quanto uma limitação. “Estuaries” não esconde suas intenções e, em alguns momentos, parece explicar demais aquilo que pretende denunciar. Há também uma lentidão coerente com o estado emocional de Eli, mas que pode testar a paciência de quem espera uma narrativa mais convencional.
O título funciona como uma boa chave para o filme: um estuário é uma zona de encontro, mistura e transição, onde diferentes águas deixam de ser completamente separadas. É justamente nesse território que Shamriz coloca Eli, entre países, comunidades, identidades, arte e luto. “Estuaries” é menos um filme sobre encontrar um lugar para pertencer do que sobre perceber que o pertencimento também pode ser uma forma de controle.
Nenhum comentário:
Postar um comentário