Antes de ser cultuado por uma geração criada entre VHS, shoegaze e Tumblr, Gregg Araki já havia transformado o cinema queer em um território de ruído, desejo e fim do mundo. Um dos nomes centrais do New Queer Cinema, o diretor fez da juventude LGBTQIA+ uma força caótica, sexual, melancólica e política. Sua obra mistura cores saturadas, trilhas sonoras indie, humor ácido, ficção científica, James Duvall, violência pop e personagens que parecem sempre à beira do colapso emocional. Depois de mais de uma década dedicado principalmente à televisão, com sua própria série cancelada "Now Apocalypse" e dirigindo episódios de atrações como “13 Reasons Why” e “Dahmer” , Araki retorna ao cinema com "I Want Your Sex" (2026), encerrando um hiato de 12 anos e reacendendo o interesse por uma filmografia que continua estranhamente contemporânea. Vamos ao ranking:
10. Smiley Face (2007) - Chapada, caótica e arakiana
À primeira vista, parece um desvio de rota: uma comédia maconheira estrelada por Anna Faris. Mas Araki transforma a paranoia canábica em um pequeno experimento pop, mantendo sua câmera nervosa, suas cores artificiais e sua fascinação por personagens completamente deslocados do mundo ao redor.
09. Splendor (1999) - O triângulo amoroso como utopia queer
Entre os excessos da Trilogia Teen e a devastação de “Mistérios da Carne", Araki entrega uma comédia romântica luminosa sobre uma mulher que decide amar dois homens ao mesmo tempo. O filme brinca com modelos afetivos não convencionais sem transformar a experiência, mantendo, mas rompendo o molde da comédia romântica.
08. Pássaro Branco na Nevasca (2014) - O desaparecimento como fantasma da adolescência
Último longa antes do hiato cinematográfico, este drama adapta Laura Kasischke com uma elegância incomum na carreira do diretor. Menos explosivo e mais contido, o filme troca o caos juvenil por uma atmosfera de sonho ruim suburbano, onde desejo, memória e ausência se confundem.
07. Kaboom (2010) - Bissexualidade, conspiração e fim do mundo
Talvez o filme que melhor resuma o Araki pós-2000: universitários lindos, sexo fluido, humor absurdo, cultos secretos e paranoia cósmica. Kaboom funciona como uma colagem de gêneros, slasher, sci‑fi, comédia e erotismo, filtrada por uma sensibilidade queer assumidamente camp.
06. I Want Your Sex (2026) - O Retorno Selvagem
Ainda cercado de expectativa, o novo longa marca o retorno oficial de Araki ao circuito cinematográfico. Com Cooper Hoffman e Olive Wilde, o longa revista, com muito BDSM, suas obsessões clássicas: sexo, poder, performance, perversão pop e a colisão entre prazer e destruição.
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| Gregg Araki dirige I Want Your Sex |
05. Totally Fucked Up (1993) - Diário íntimo da juventude queer abandonada
Filmado com energia quase documental, acompanha seis adolescentes gays em uma Los Angeles sem futuro. Aqui nasce a Trilogia do Apocalipse Teen. Mais do que um filme sobre homofobia, é um retrato da solidão, da depressão e da sensação de que o mundo não foi feito para aqueles corpos.
04. The Doom Generation (1995) - Sexo, sangue e América em combustão
Araki transforma a road movie em um carnaval bissexual ultraviolento. James Duval, Rose McGowan e Johnathon Schaech atravessam uma paisagem de neon, fast food e mutilações, como se a cultura pop americana estivesse literalmente apodrecendo diante da câmera.
03. Nowhere (1997) - O apocalipse queer em forma de videoclipe
O encerramento da trilogia é também o filme mais excessivo de Araki. Alienígenas, overdoses, sexo sem rótulos, ansiedade adolescente e humor surreal convivem em um único dia caótico. Parece um episódio de Barrados no Baile dirigido por alguém que ouviu shoegaze por 72 horas seguidas.
02. Mistérios da Carne (2004) - A ferida mais profunda do cinema queer
Aqui Araki alcança um equilíbrio entre poesia e devastação. Ao acompanhar dois jovens marcados por abuso na infância, o diretor abandona parte do cinismo pop e encontra uma delicadeza brutal. Joseph Gordon‑Levitt e Brady Corbet entregam performances extraordinárias em um dos filmes queer mais dolorosos e humanistas de sua geração.
Dois homens soropositivos fogem pelas estradas americanas em uma jornada de sexo, raiva e niilismo. Filmado durante o auge da crise da AIDS, The Living End explode qualquer expectativa de respeitabilidade: seus personagens são violentos, egoístas, engraçados e desesperadamente vivos. Este é o filme que colocou Araki na linha de frente do New Queer Cinema e continua sendo sua obra mais radical, política e influente.
O legado de Gregg Araki
A filmografia de Araki parece um álbum de shoegaze filmado em neon. Seus personagens amam demais, desejam demais, usam drogas demais e frequentemente acreditam que o mundo vai acabar antes do amanhecer. Mas por trás do excesso existe algo extremamente reconhecível: o medo de ser invisível. Entre o niilismo, a fúria pop e a ternura devastada, Gregg Araki construiu uma das obras mais autorais do cinema queer, uma obra que continua falando, com estranha precisão, para toda geração que cresceu sentindo que estava fora de lugar.
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