Era difícil não criar expectativas altas para "Estilhaços". A combinação de Ryan Murphy com Bret Easton Ellis, revisitando a Los Angeles de 1981 através de um thriller sobre jovens ricos e um serial killer conhecido como “The Trawler”, parecia prometer algo próximo de uma fusão entre "Psicopata Americana" e o lado mais sangrento de "American Horror Story". Os dois primeiros episódios, porém, deixam uma sensação curiosa: a de uma série visualmente impecável, mas ainda procurando identidade dramática.
Murphy dirige o episódio de estreia e, nesse terreno da ambientação, ele continua sendo um dos grandes artesãos da televisão. A reconstituição dos anos 1980 é deslumbrante, com carros, roupas, cabelos e interiores cuidadosamente coreografados. A recriação da Los Angeles da elite adolescente, especialmente espaços como o Sherman Oaks Galleria, funciona como um verdadeiro deleite visual. Quem acompanhou trabalhos como "Pose", "The Normal Heart", "AHS: 1984" e "AHS: NYC" reconhece imediatamente o domínio que Murphy tem sobre a década de 80 e sobre o poder narrativo da estética.
A trilha sonora é outro ponto alto evidente. Joan Jett, Duran Duran, The Human League, Pretenders, The Stranglers e Ultravox ajudam a construir uma atmosfera de desejo, paranoia e vazio emocional. Há momentos em que a música entrega mais tensão do que o próprio roteiro. A abertura envolvendo Bret indo ao cinema assistir a "O Iluminado" sintetiza bem isso: é uma sequência elegante, imersiva e carregada de melancolia, talvez a mais forte desses episódios iniciais.
O problema surge quando a série precisa ir além da embalagem. O elenco jovem, composto em grande parte por nomes associados à geração dos nepobabies, ainda não encontra o carisma necessário para sustentar o peso emocional da história. Igby Rigney funciona melhor na narração em off do que em cena, e Homer Gere, apesar do mistério evidente de Robert Mallory, parece depender mais da aura construída pela direção do que de uma presença realmente magnética. Falta aquele “punch” que fazia os personagens de Bret Easton Ellis parecerem simultaneamente sedutores e assustadores.
Também chama atenção a escolha de revelar elementos do serial killer tão cedo. Parte da força do romance estava na ameaça invisível, na dúvida constante sobre quem observar e em quem confiar. Ao materializar o perigo logo no início, a série enfraquece um pouco a paranoia psicológica que poderia diferenciá-la de outros thrillers adolescentes.
"Estilhaços" começa bonita demais e intensa de menos. Há sexo, drogas, privilégio, ressentimento e violência à espreita, mas ainda falta a combustão que se esperava de um encontro entre Murphy e Ellis. Queríamos algo mais próximo de uma “murphalyzação” estilizada de Psicopata Americana, com humor ácido, tensão erótica e crueldade social mais afiada. Por enquanto, os dois primeiros episódios funcionam melhor como retrato luxuoso da futilidade de uma juventude privilegiada do que como thriller verdadeiramente perturbador. A esperança é que, uma vez estabelecido o cenário, a série finalmente encontre o veneno, a perversidade e a intensidade emocional que sua premissa sugere.
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