“Morfeu e Caronte” trata de um tema que o cinema brasileiro ainda explora pouco: três homens gays idosos vivendo um amor que não precisa ser explicado para existir. No curta de Luiz Ulian e Jocimar Dias Jr., Zito (Bayard Tonelli) vive com Morfeu (Marco Canonici) e Caronte (Tony Reis), seus dois companheiros, quando o diagnóstico de demência começa a alterar sua percepção do tempo e da realidade. A doença não transforma o relacionamento em mero instrumento de sofrimento; ela abre espaço para que memória, desejo e fantasia se misturem.
A escolha de colocar um trisal de homens gays no centro da narrativa é, por si só, uma provocação à representação queer mais recorrente. O envelhecimento LGBTQIA+ costuma aparecer associado à solidão, ao abandono ou à memória de uma juventude interrompida. Aqui, existe passado, mas também existe presente: corpos que ainda desejam, companheiros que cuidam uns dos outros e uma intimidade construída ao longo de décadas. A dimensão política do filme está justamente em não transformar esse afeto em exceção. Morfeu, Caronte e Zito não são apenas sobreviventes de outra época; são amantes.
A demência poderia conduzir o curta para um drama convencional sobre perda, mas os diretores encontram outra saída: transformar o próprio processo de esquecimento em linguagem cinematográfica. À medida que Zito perde referências concretas, o filme também abandona a necessidade de separar sonho e realidade. Suas lembranças assumem a forma de um musical brasileiro, embalado por sambas de outrora. O procedimento é particularmente feliz porque permite que aquilo que poderia ser apenas decadência se converta em imaginação, performance e desejo.
Essa dimensão musical também aproxima “Morfeu e Caronte” em que o excesso funciona como forma de sobrevivência. Não por acaso, Bayard Tonelli integrante histórico dos Dzi Croquettes, e que também esteve em "Coágulo", de Hsu Chien, ocupa o centro da experiência. Sua presença acrescenta ao personagem uma memória corporal da própria história da dissidência artística brasileira. Os diretores afirmam que a pesquisa sobre as possibilidades queer do musical esteve na origem do projeto, e a química entre Tonelli, Canonici e Reis parece fundamental para que o relacionamento tenha densidade para além da ideia de representação.
O resultado poderia facilmente cair no sentimentalismo, sobretudo porque a morte está anunciada desde o princípio. Ulian e Dias Jr., encontram uma chave mais interessante: tratar o fim como parte da própria experiência amorosa. Morfeu e Caronte, figuras mitológicas ligadas ao sonho e à passagem para o mundo dos mortos, deixam de ser apenas nomes e passam a organizar a metáfora central do filme. Entre o sono, a lembrança, a música e a despedida, Zito habita um território em que morrer não significa apagar imediatamente aquilo que foi vivido. O cuidado dos companheiros é também uma forma de preservar essa história.
Premiado com o Outstanding Narrative Short no Frameline50, o mais importante festival de cinema LGBTQ+ de San Francisco, “Morfeu e Caronte” recebeu seu reconhecimento justamente no circuito que melhor compreende a urgência de ampliar as imagens possíveis da velhice queer. Mais do que um filme sobre demência, é uma obra sobre memória afetiva: sobre aquilo que permanece quando o corpo já não consegue organizar as próprias lembranças.
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