terça-feira, 18 de agosto de 2026

Arenas (Les Arènes, França, 2024)

Em seu longa de estreia, Camille Perton transforma o futebol em um território de desejo, poder e mercantilização. “Arenas”  acompanha Brahim (Iliès Kadri), jovem de 18 anos prestes a assinar seu primeiro contrato profissional com o Lyon. O que parecia ser a realização de um sonho familiar rapidamente se converte em uma disputa entre agentes, dinheiro e interesses. Francis (Édgar Ramírez), empresário estrangeiro de métodos pouco transparentes, surge como uma espécie de tentação fáustica, oferecendo ao garoto não apenas uma carreira, mas a possibilidade de enxergar uma vida diferente. 

O mais interessante na estreia de Perton é justamente sua decisão de quase retirar o futebol do campo. Não há interesse particular em partidas, gols ou treinamento: os gramados dão lugar a vestiários, carros, restaurantes, clubes, hotéis e iates. O verdadeiro jogo acontece nos bastidores, onde jovens atletas são tratados como ativos financeiros e os contratos se transformam em mecanismos de compra e venda. A própria estrutura do filme aproxima esse universo de um film noir, com uma atmosfera progressivamente ameaçadora. A metáfora das “arenas” deixa, então, de ser apenas esportiva: o campo é o mercado, e os jogadores são os gladiadores de um capitalismo que transformou talento juvenil em mercadoria.

É nesse ambiente essencialmente masculino que o filme encontra seu aspecto mais provocador: o desejo queer. Perton não utiliza Francis simplesmente como “o empresário gay” que precisa ser explicado ou justificado. Ao contrário, ela deliberadamente constrói um personagem homossexual poderoso, sexy, seguro e plenamente consciente de sua sexualidade. Essa escolha desloca o filme para um território muito mais interessante: Brahim não é apenas seduzido pelo dinheiro de Francis, mas pela liberdade que ele representa. Existe uma atração que permanece deliberadamente indefinida.


O homoerotismo, portanto, não está apenas na relação entre os personagens, mas no próprio modo como o corpo masculino é enquadrado. O futebol deixa de ser somente um espetáculo de habilidade atlética e passa a ser também um sistema que produz, exibe e comercializa corpos. Uma sequência de ensaio fotográfico conduzida por Francis explicita essa transformação: os jovens atletas precisam vender uma imagem de si mesmos que ultrapassa suas capacidades esportivas, tornando-se produtos de desejo e consumo. A cena resume uma das ideias mais fortes do filme: naquele mercado, não se vende apenas o jogador, vende-se sua aparência, sua personalidade e sua disponibilidade para ser moldado. 

Francis é fundamental porque introduz uma fissura nessa masculinidade aparentemente monolítica. Sua homossexualidade não o coloca em posição de fragilidade; pelo contrário, ele domina ambientes nos quais homens heterossexuais disputam dinheiro, influência e prestígio.  Essa ambiguidade é, ao mesmo tempo, a força e a limitação de “Arenas”. A diretora parece interessada em fazer do desejo uma moeda tão importante quanto o dinheiro, mas hesita quando precisa levar essa lógica até suas últimas consequências. 

Ainda assim, há algo estimulante nessa primeira incursão de Perton pelo longa-metragem. “Arenas” entende que o futebol profissional pode ser filmado como uma história de poder e que, em um universo composto quase exclusivamente por homens, desejo, dinheiro, masculinidade e sexualidade podem ocupar o mesmo campo de disputa. O filme talvez não transforma completamente sua promessa queer em narrativa, mas encontra uma imagem poderosa para a juventude masculina: Brahim é observado, desejado, negociado e conduzido por homens muito antes de aprender a olhar para si mesmo.


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