sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Moria (Argentina, 2026)

Há séries biográficas que tentam organizar uma vida em ordem cronológica; “Moria” prefere transformá-la em teatro de revista. Dirigida por Javier Van de Couter, a produção argentina de oito episódios acompanha diferentes fases da trajetória de Moria Casán, interpretada por Sofía Gala Castiglione, Griselda Siciliani e Cecilia Roth. O resultado está menos próximo do biopic tradicional e mais de uma fantasia pop carregada de exagero, erotismo, humor e memória televisiva. Desde o primeiro episódio, a série assume uma estética que flerta com o camp e o surreal, chegando em vários momentos a dialogar visualmente com “Ataque da Mulher de 15 Metros”, referência que ajuda a entender o tamanho mítico que Moria ocupa no imaginário argentino. O gesto da própria Moria surgindo ao final de cada episódio para acenar ao público sela essa proposta: não estamos vendo apenas uma reconstrução histórica, mas a celebração consciente de uma lenda viva.

O aspecto mais impressionante da série é a integração entre as três atrizes. Em muitos biopics, as diferentes encarnações do personagem parecem pertencer a filmes distintos; aqui há uma continuidade emocional e gestual surpreendente. Sofía Gala, filha de Moria na vida real, traz uma energia quase instintiva, captando a insolência e a sensualidade da juventude. Griselda Siciliani encontra o equilíbrio entre ambição, humor e ferocidade midiática, enquanto Cecilia Roth, nos dois episódios finais, transforma a maturidade da personagem em algo monumental. Sua presença carrega décadas de experiência cinematográfica e dá à reta final uma gravidade que impede a série de se dissolver apenas no delírio pop.

Van de Couter, cineasta que já transitou pelo território queer em obras como “Mía”, compreende perfeitamente por que Moria se tornou uma diva gay nata na Argentina. A série destaca sua relação com bailarinos, artistas e marginais da noite, construindo um ambiente atravessado por homoerotismo e cumplicidade queer. Há uma sequência particularmente significativa em que Moria intervém para tirar seus bailarinos da prisão durante um período de forte repressão, gesto que reforça sua dimensão de aliada e protetora muito antes de a linguagem da representatividade se tornar comum. Ao mesmo tempo, a trilha sonora abraça essa herança com entusiasmo, incluindo de Cher até “Baile de Peruas”, do NoPorn, como comentário irônico e afetivo sobre o universo que a personagem ajudou a moldar.

Outro grande acerto está na forma como a série reencena os bastidores da televisão argentina. A ascensão de Moria dos palcos de revista à TV sensacionalista é mostrada como uma transformação cultural, não apenas profissional. Ela surge como precursora de um tipo de entretenimento que mistura confissão, escândalo, humor e julgamento público, antecipando formatos que depois dominariam a televisão latino-americana.

Nem tudo, porém, é enfrentado com a mesma coragem. A série sugere conflitos, excessos, cirurgias plásticas, romances, traições, drogas e crises familiares, mas frequentemente suaviza as arestas mais duras da trajetória de Moria. A omissão do tema do HIV, apesar de sua relevância histórica no universo artístico e queer das décadas retratadas, deixa uma sensação de lacuna importante. Em vários episódios percebe-se uma tendência à autopreservação do mito, como se a série quisesse celebrar a autenticidade da personagem sem permitir que certas zonas de sombra contaminem demais o brilho da estrela. Essa escolha não invalida o projeto, mas limita sua potência crítica.

Ainda assim, “Moria” termina de forma arrebatadora. Nos episódios finais, Cecilia Roth conduz a narrativa com a força de quem carregou uma vida, celebrando legado e sobrevivência, transformando La One em uma figura quase cósmica, exagerada, contraditória, artificial e humana que acerta suas contas. Javier Van de Couter entrega uma obra, por vezes excessivamente complacente, mas visualmente ousada, queer em sua sensibilidade e fascinada pela fabricação do estrelato. Mais do que contar quem é Moria Casán, a série pergunta por que certas mulheres conseguem ultrapassar a condição de celebridade e se transformar em mitologia popular.

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