domingo, 30 de agosto de 2026

Behind the Open Door (EUA, 2025)

Em “Behind the Open Door”, Todd Verow volta a um território que seu cinema frequenta há décadas: os corpos que permanecem despudorados. Diretor de mais de trinta longas e uma das figuras mais persistentes do underground associado ao New Queer Cinema, Verow construiu uma filmografia dedicada a personagens, desejos e práticas que dificilmente encontrariam abrigo nas versões domesticadas da representação LGBTQIA+. Seu documentário de 2025, uma continuação espiritual de “Bottom X”, leva essa vocação ao limite. O filme segue Corey Hudsonn,  pseudônimo utilizado pelo protagonista,  durante uma noite em um quarto de hotel, em Manhattan, onde uma porta mantida aberta se transforma em convite, fronteira e princípio cinematográfico para uma maratona com 20 homens, onde o objetivo é ser um "cum dump". A câmera observa sem intervir, enquanto o filme abandona qualquer tentativa de tornar seu objeto confortável ou socialmente palatável.

 Entre os acontecimentos registrados no quarto, ouvimos Corey em off reconstruindo sua jornada sexual, refletindo sobre seus desejos e discutindo a filosofia que sustenta sua busca por uma liberdade sexual radical. Aos poucos, porém, o filme revela uma dimensão inesperada dessa experiência: existe toda uma logística por trás da fantasia. Corey fala sobre preparação, organização, deslocamentos e estratégias para realizar encontros semelhantes em diferentes cidades. O sexo deixa de aparecer apenas como espetáculo para revelar a estrutura invisível que permite que aquele espetáculo exista.


 A exposição explícita do sexo poderia facilmente transformar o documentário em uma simples experiência de choque, mas Verow encontra algo mais curioso na banalidade que cerca o extraordinário. O quarto de hotel, os celulares, os aplicativos, os horários, as negociações e a administração dos encontros revelam uma espécie de infraestrutura contemporânea do desejo gay. A fantasia de liberdade absoluta depende de planejamento, comunicação e trabalho. 

Durante décadas, o cinema LGBTQIA+ precisou lutar pelo direito de mostrar o amor entre pessoas do mesmo sexo como algo cotidiano e digno. “Behind the Open Door” parece partir de outro ponto: o que acontece quando a normalização deixa de ser o objetivo? Verow não está interessado em provar que determinados desejos merecem aceitação porque se parecem com os desejos heterossexuais ou porque podem ser traduzidos para uma linguagem de respeitabilidade. Seu cinema encara uma subcultura sexual específica e permite que ela fale a partir de seus próprios códigos. 

Com conteúdo sexual real, gráfico e sem censura, “Behind the Open Door” naturalmente encontrou dificuldades para circular nos espaços do cinema. Ainda assim, seu percurso em 2026 encontrou abrigo justamente em circuitos dedicados ao cinema radical e independente. A exibição em Berlim, integrou a programação do Cinema da Desobediência, movimento coletivo que se apresenta como uma reação à lógica de mercado, às estruturas burocráticas de financiamento e à expectativa de que o cinema precise ser simplificado para se tornar vendável. 

O longa é simultaneamente documento, provocação, pornografia e registro de uma comunidade que cresce à margem das representações mais assimiláveis da cultura gay. Como cinema, sua força está menos na transgressão em si do que na insistência em olhar para aquilo que tantos circuitos culturais preferem manter fora de quadro.

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