quinta-feira, 23 de julho de 2026

Por Luiz Silva: Retorno para Brokeback Mountain

por Luiz Silva

"O filme dos cowboys gays". Assim como era conhecido "O Segredo de Brokeback Mountain" quando foi lançado e é até hoje por alguns. Estranhamente, o título foi abraçado mesmo com o peso da dubiedade de algo ruim e bom. O romance gay entre dois cowboys obviamente trazia um tom homofóbico característico, mas também agregava negativamente à superficialização da história. Pessoas que reassistem mais de vinte anos depois e fazem suas resenhas no YouTube, pessoas heterossexuais, falam quase de forma unânime, "é o romance entre duas pessoas, duas almas, dois espíritos" como se o fato de haver dois homens retratados de maneira hipermasculinizada não importasse. O lado bom dessa ambiguidade cresce esporadicamente conforme o mundo vai melhorando na medida de um passo para a frente e dois para trás, onde a ideia de representatividade é abraçada de forma comercial dependendo da época. Muito mais fácil do que na época do lançamento. E definitivamente mais fácil que na época que os personagens viviam.  

O conto escrito por Annie Proulx e publicado em 1997 na revista The New Yorker narra em poucas páginas a longa história quase de Romeu & Julieta entre Ennis Del Mar e Jack Twist. Talvez seja até injusto comparar uma história de amor trágica como de Romeu com Julieta com a de Ennis e Jack. O casal italiano tinha aprovação social além do ciclo familiar. Ennis e Jack nunca tiveram a mesma sorte.  

 Durante os anos 60, Ennis e Jack procuram empregos em ranchos e recebem a função de pastorear um rebanho de ovelhas pelos campos da Montanha Brokeback. Lá eles se revezam entre monitoração das mil ovelhas, caçar coiotes e evitar perdas. Isso tudo sozinhos e acampando em pontos diferentes da montanha. Ennis sendo um homem com cenho fechado e poucas palavras, enquanto Jack mais dado ao prazer da conversa e suas intenções para o futuro. Jack quer seguir nos rodeios. Ennis quer se casar com sua noiva, Alma. O cenário inóspito, as personalidades opostas e planos futuros divergentes possibilitavam tudo de inesperadamente violento, não de inesperadamente romântico. Por alguma razão aquelas duas almas vindas de infâncias igualmente trágicas e penosas que resultaram em personalidades diferentes se encontraram num lugar fotográfico que futuramente se tornaria o refúgio deles para o amor mais sincero que teriam em suas vidas. O primeiro sexo totalmente violento e feral para o segundo sem pressa e atencioso mostra como quando não sabemos nos expressar o corpo faz isso involuntariamente pela gente. Em um filme comumente estrelado por um casal hétero isso seria visto como uma paixão fumegante, talvez imperceptível. Mas com um casal homoafetivo na metade do século XX e de vocabulário chucro mostra que desejos não conseguem ser reprimidos para sempre. Talvez seja aí que o público deixa de ver a superfície de dois personagens vestidos da profissão mais masculinizada do fetiche popular e vejam duas almas independentemente de gênero. O trabalho é encerrado mais cedo devido a chegada de uma tempestade mais violenta que a mostrada num momento do filme, quase como um presságio para a turbulência que seria a vida romântica entre eles e o mundo além da montanha Brokeback. Daí para frente temos a passagem de quase duas décadas. Ambos se casam, porém com mulheres. Iniciam suas famílias, variam entre empregos. Ennis casa-se com Alma como planejado e Jack segue nos rodeios até onde pode antes que deixe de andar por causa deles. Eles se encontram esporadicamente talvez três vezes ao ano por duas décadas pelos arredores da montanha Brokeback. Falando sobre suas vidas como confidentes, Ennis aparecendo sorrindo apenas quando está com suas filhas ou com Jack, mas com Jack o sorriso é nitidamente maior e mais feliz e sincero. Talvez se somar o tempo que eles passam juntos durante os anos não dê mais que quinze meses. Diluídos entre promessas e segredos.   

No meio disso tudo estava eu com 12 anos de idade testemunhando tudo através de uma tela. Eu fiquei na dúvida em como escrever este texto. Se sairia como uma resenha ou relato pessoal. Entendi que será a segunda opção. Nessa idade eu já havia me apaixonado por cinema de uma forma diferente das outras crianças e adolescentes. Não apenas um passamento, mas o entendimento de arte como é. Eu já havia entendido que era bissexual e idealizado como seria o amor romântico. Em 2006 não tínhamos fácil acesso a histórias assumidamente queer. Depois de anos entendi que pessoas e histórias LGBTQIAPN+ existiam no cinema desde filmes preto e branco, mas ainda assim, não seriam encontrados nas duas locadoras do centro da minha cidade, e também não seriam recomendados. Talvez o que impulsionou o romance gay entre dois cowboys foi a campanha do Oscar que esse filme fez. Isso talvez fosse o que me assegurava alugar o DVD sem medo, a imagem com a estatueta do Oscar e o texto com suas indicações e vitórias. Eu assumo que alugava o filme várias vezes quando jovem por motivos além dos que eu vejo hoje. Além de excelente roteiro adaptado, fotografia, direção e atuações, temos a beleza e sexualidade autênticas e corajosas de seus protagonistas Heath Ledger e Jake Gyllenhaal. O pouco de nudez me atraia, assim como beijos tão apaixonantes que convenceriam qualquer um que aquilo era um documentário. Entretanto, temos uma daquelas obras que retrata tão bem cenários que consegue representar algo tão bem como um documentário com fatos e pessoas reais. Revendo adulto para escrever este texto havia tanta coisa que aquele Luiz de 12 anos jamais imaginaria viver. Aqueles olhares de soslaio que você dá em algum homem bonito, mas sem despertar atenção para evitar um desentendimento e briga física. Atenção a pequenos gestos. Entender palavras com apenas um olhar. Olhar para os lados para ver se não tem ninguém vendo antes de beijar em público. Não se identificar com um termo como "bicha ou viado". Caminhar para um corredor mais escuro onde COINCIDENTEMENTE há muitos homens e todos próximos, mas sem falar uma palavra sequer. 

Uma experiência que eu tive com esse filme foi antes de reassistir foi com um ex-ficante meu numa situação tão complicado que chamo logo de ex-namorado para evitar uma explicação muito prolixa. Ele não era assumido e queria ter um relacionamento sério comigo, porém eu tive um relacionamento sério com um homem não assumido e não foi uma boa experiência. E não aprendendo o suficiente, futuramente eu teria outro assim que não daria certo. Porém, para esse ex que iniciei o parágrafo eu recomendei "O Segredo de Brokeback Mountain". Porque como falei no encerramento do último parágrafo em experiências adultas que vi neste filme a maior é o risco de não se assumir. Você viver numa mentira constantemente, a sensação de um peso nas costas que não consegue explicar. Tanto que durante o filme e conto (que ouvi por audiobook para confecção deste texto) Ennis fala sobre a sensação de sempre se sentir vigiado. Eu já senti isso e ouvi de outros homens. Eu não desejava isso para aquele ex, então recomendei o filme. Se ele assistiu eu não sei, mas pelo menos ele se assumiu.  

O filme, porém, caiu em um dos estereótipos mais comuns do cinema queer. O final triste. Há toda uma teoria de como isso seria uma punição para personagens LGBT+, todavia, quando se analisa a história como um todo, há sentido o final triste e trágico digno de Romeu & Julieta. A autora diz ter ouvido tantos comentários de ódio ao final que já declarou se arrepender de ter escrito a história.   "Annie, não se arrependa." A autora e elenco comentaram como recebem até hoje mensagens entre lágrimas de pessoas que se viram naquela história, mostrando como "O Segredo de Brokeback Mountain" se mantém relevante com os anos.  

O autor português Ítalo Calvino disse que um clássico é aquele livro que ainda não disse ao que veio. Podemos ver através da coragem e sinceridade com a realidade que temos um futuro clássico. 

 A coragem de demonstrar como uma vida forjada a medos pode ser amargurada é apresentada através de Ennis e com embasamento. Na história, Ennis lembra quando seu pai levou ele e o irmão para ver um corpo mutilado. Era de homem possivelmente gay que era a piada da cidade junto do homem com quem ele morava junto na mesma fazendo mesmo eles sendo estereotipadamente machões. O homem fora atacado com um pé-de-cabra, golpeado com socos e chutes, arrastado pelo pênis até que a genitália se desprendesse do corpo e depois largado em um dique de um córrego. A imagem ficaria gravada na memória de Ennis ao ponto de ser a barreira entre ele e as propostas de Jack, e que também traria um pé-de-cabra como peça fundamental para a tragédia dessa história. Dois dias antes de escrever este texto, um casal de lésbicas que estavam desaparecidas fora encontrado. Mortas e seus cadáveres abandonados na mata. Desculpem se parecer algum tipo de sensacionalismo, longe disso e deixo aqui meus sentimentos aos entes queridos, minhas orações pelas vítimas e meu pedido de justiça. O que não garante que alguma criança fora exposta ao mesmo cenário e vá traumatizá-la como no filme. Arte queer. Pessoas queer existem. Vidas queer existem e importam.  

 Lembram que eu falei sobre a ambiguidade do título "o filme dos cowboys gays" e um lado positivo? Ainda que "O Segredo de Brokeback Mountain" não fora o primeiro filme sobre uma história gay ele foi um dos que foram mais longe. O roteiro levou anos para ser adaptado e aperfeiçoado. O orçamento foi tão lutado quanto a distribuição. Ang Lee, um diretor que obteve grande sucesso com "O Tigre e o Dragão" para depois se traumatizar com o primeiro filme do HULK estava tão frustrado que considerou se aposentar da direção de cinema. O roteiro do romance gay de dois cowboys pareceu o abraço mais motivador possível. Os protagonistas chegaram depois de um longo período de recusas de outros atores. Heath e Jake viram a arte sobre um romance problemático entre duas almas, não apenas dois homens e aceitaram os papéis. Com a liderança de Heath Ledger nenhum escárnio de cunho homofóbico seria permitido ou ouvido sem uma resposta. Logo ele, um galã promissor que conhecera a futura esposa e mãe de sua filha no set de filmagem de um filme de romance gay entre dois cowboys.  

 A atual geração tem muitos recursos para conhecer as obras queer do passado, além de também terem novas. Há uma possibilidade maior de encontrar uma história de amor gay, uma superação, de autodescoberta ou de luta nos serviços de streaming e livrarias. Mas com certeza, aquele filme de despertou curiosidade e piadas, que levou muito tempo para ser feito foi determinante para o que possuímos hoje. Profissionais que possam se assumir, histórias saírem do papel, investimentos serem feitos, novos aliados à comunidade LGBTQIAPN+ se tornaram mais possíveis.  

Fica no imaginário coletivo "E se o Ennis tivesse dado uma chance aos planos de Jack? E se esse filme fosse feito hoje em dia, será que haveria um final feliz ou eles conseguiriam fugir?" Neste meu retorno à Montanha Brokeback eu pude rever muitas coisas em relação à arte do cinema, mas não havia apenas o Luiz cinéfilo. Havia também o Luiz de 32 anos que conversar falar com o Luiz de 12 anos sobre o filme e saber o que ele achou. E entre muitas coisas falar para ele ser forte. Mais forte até os cowboys do filme.

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