sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Festival do Rio 2026 amplia o mapa do cinema queer brasileiro

De 1º a 11 de outubro, o Rio de Janeiro recebe a 28ª edição do Festival do Rio, uma das principais vitrines do cinema contemporâneo no país. Na Première Brasil, a produção nacional aparece em diferentes formatos e gêneros, e o cinema LGBTQIAPN+ atravessa essa programação sem ficar restrito a uma mostra específica. Essa circulação também está ligada ao Prêmio Félix, criado em 2014 para reconhecer produções nacionais e internacionais que abordam personagens e temáticas LGBTQIAPN+. 

Em 2026, um dos títulos mais particulares é "LONDON", de Victor Di Marco e Márcio Picoli. O filme,  que estreia no Festival de Veneza, acompanha um jovem com deficiência que trabalha como dominador e aproxima sexualidade, corpo, fetiche e autonomia. Também merece atenção "A Professora de Francês", de Ricardo Alves Jr., protagonizado por Grace Passô. O longa segue uma mulher lésbica que retorna à comunidade onde cresceu e se vê confrontada por estruturas religiosas. Em "A Margem do Rio", de Enock Carvalho e Matheus Farias, o desejo masculino encontra nos manguezais do Recife um espaço de segredo e descoberta. Izaquiel busca encontros clandestinos e conhece Jeremias, um pescador que modifica sua relação com o próprio desejo. "Não Estamos Sozinhos", de Ulisses Arthur está na Mostra Novos Rumos. O filme acompanha um instrutor de pole dance que encontra novas conexões ao mudar de apartamento.

A velhice queer aparece em "Morfeu e Caronte", de Luiz Ulian e Jocimar Dias Jr., curta que acompanha Zito e seus dois companheiros, Morfeu e Caronte. Demência, memória, amor e desejo se misturam a fantasia e números musicais inspirados em outras décadas. Exibido na seção Midnight Movies, o filme amplia a representação LGBTQIAPN+ para além dos dramas de juventude. A Competição de Curtas, conta ainda com "Santo", de Maria Luísa Alves, que segue Yuri e Davi, dois jovens entregadores aproximados por um acidente. 

No território do grotesco, está o aguardado "Privadas de Suas Vidas", de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, que transforma o conflito entre uma mãe e seu filho não binário em uma experiência de horror e absurdo. Já "Revelação", de Gabriela I. Gaia, parte de um chá revelação para satirizar gênero, raça, representatividade e a transformação da identidade em conteúdo para as redes sociais. Dois filmes que utilizam o excesso e o humor para desmontar discursos aparentemente banais sobre gênero.

A Margem do Rio
A programação internacional também amplia esse mapa. "Seis Meses no Prédio Rosa e Azul", de Bruno Santamaría Razo, coprodução México–Brasil–Dinamarca, acompanha um menino de 11 anos diante da descoberta de seus sentimentos pelo melhor amigo, enquanto a família enfrenta uma crise relacionada ao HIV. O filme integra a Première Latina. Na mesma mostra está "Quem Matou Narciso?", de Marcelo Martinessi, coprodução de Alemanha, Brasil, Espanha, França, Paraguai, Portugal e Uruguai. A figura de Narciso, associada à liberdade sexual e à repressão, aproxima desejo, memória e violência política.

Entre os formatos seriados, "Amora", de Juliana Rojas para o Canal Brasil, adapta o livro de Natalia Borges Polesso e reúne diferentes histórias de amor entre mulheres. A produção expande a presença lésbica para além do longa-metragem e mostra como a representação queer também ocupa outros espaços da programação.

O panorama, portanto, não se resume à quantidade de filmes LGBTQIAPN+. O que chama atenção é a variedade: infância, desejo masculino, lesbianidade, identidades não binárias, fetiche, deficiência, velhice, memória, horror e relações entre corpo e território. No Festival do Rio 2026, o queer aparece tanto em histórias explicitamente centradas na sexualidade quanto em obras interessadas em questionar família, poder, tradição e as maneiras como os corpos são vistos e enquadrados. E essa é apenas a Seleção Nacional!

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