segunda-feira, 6 de julho de 2026

Coágulo (Brasil, 2026)

Hsu Chien já transitou por diferentes gêneros ao longo da carreira, mas é em "Coágulo" que ele vai direto à artéria, entregando tudo aquilo pelo que gays são sedentos. Depois de comédias POP como "Desapega!" e "Morando com o Crush", o diretor mergulha definitivamente no horror para transformar o vampiro em metáfora de desejo, envelhecimento e permanência. Com Carmo Dalla Vecchia, o curta acompanha uma criatura noturna que, em vez de apenas sugar sangue, intensifica a experiência sexual e a conexão de suas vítimas durante o orgasmo, enquanto declama versos de Augusto dos Anjos. Curiosamente, a gênese do projeto nasceu da fotografia viral do chamado "Surubão do Arpoador". Como revelou o cineasta, o anonimato daqueles corpos desfocados despertou a pergunta que daria origem ao filme: "Essas pessoas trabalham o dia todo, se expõem de madrugada... só podem ser vampiros." A partir dessa imagem, o diretor constrói uma fantasia erótica onde anonimato, desejo e marginalidade caminham pelas sombras.

Desde a sequência de abertura, ambientada em um parque e marcada por um momento de cruising, "Coágulo" deixa claro que não pretende suavizar sua proposta. Há nudez, sangue, saliva, sêmen e uma constante troca de fluidos, mas Hsu filma tudo com surpreendente elegância. A fotografia de Alex Araripe alterna luzes quentes, como o inferno, e banhos de neon azul que evocam o giallo italiano, enquanto o formato de tela quadrado reforça a sensação de clausura e aprisionamento dos personagens, decisão assumida pelo próprio diretor. "Eu queria essa sensação de aprisionamento, de claustrofobia, de angústia", explicou. 

O filme reposiciona o mito do vampiro. Em vez da eterna criatura jovem e irresistível, Hsu o utiliza para discutir a maturidade queer, um tema muito necessário. Carmo Dalla Vecchia interpreta essa presa e predador com uma mistura de sofisticação, melancolia e apetite, enquanto Fernando Braga, Márcio Rosário e Bayard Tonelli, integrante histórico dos Dzi Croquettes, ampliam a reflexão sobre corpos que continuam desejantes quando a sociedade insiste em decretar sua invisibilidade. 


Não por acaso, Hsu afirma que desejava homenagear Bayard justamente para reafirmar que "os corpos de terceira idade também são corpos desejáveis", rompendo com uma lógica que insiste em expulsar o envelhecimento da sexualidade. Há uma sequência envolvendo seu personagem que inevitavelmente remete ao universo de "Gerontophilia", de Bruce LaBruce, porque "Coágulo" também é sobre cuidado, reafirmando que o desejo não envelhece. O diretor define essa transformação como "uma catarse muito bonita", na qual um homem que passou a vida reprimindo a própria identidade finalmente se permite ser desejado.

Também chama atenção a maneira como Hsu transforma o vampiro em uma figura ambígua. Ele é um predador, mas também um libertador. Em vez de condenar o prazer, suas mordidas funcionam como uma metáfora de emancipação para personagens que passaram décadas aprisionados por convenções sociais e pela própria repressão. "O vampiro representa a libertação", resume o diretor, permitindo que personagens oprimidos finalmente experimentem o prazer sem culpa ou vergonha. Os versos pré-modernistas de Augusto dos Anjos acrescentam outra camada ao filme, aproximando erotismo, morte e decadência em um diálogo poeticamente brasileiro. A mistura entre terror, fantasia, drama e experimentalismo faz de "Coágulo" uma experiência sensorial que encontra na carne seu principal instrumento narrativo.

Depois de abordar personagens LGBTQIA+ em filmes como "Quem Vai Ficar com Mário?", ou nos curtas "Flerte" e "Bergamota", Hsu Chien realiza aqui seu trabalho mais radical e politicamente consciente. O diretor subverte convenções clássicas do cinema de vampiros para discutir etarismo, masculinidades, memória e liberdade sexual, oferecendo visibilidade a uma geração queer frequentemente esquecida pelo audiovisual. "Coágulo" demonstra que o terror continua sendo um dos espaços mais férteis para refletir sobre identidade e desejo, entregando um curta estilizado, provocador e surpreendentemente sensível, capaz de encontrar beleza justamente onde a sociedade insiste em enxergar decadência.

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