“Shadows of Willow Cabin” surge de um clichê do cinema de horror, dois homens isolados em uma cabana, longe de qualquer possibilidade de socorro, e acrescenta a ela uma camada que faz toda a diferença: os monstros já chegaram antes deles. Albert (Bryan Bellomo), professor casado e ainda escondendo sua sexualidade, convida Devon (John Brodsky), um paramédico mais jovem que conheceu em um aplicativo, para passar alguns dias na antiga cabana da família. Devon, carrega as marcas de uma relação abusiva com o pai e uma tendência a se envolver justamente com homens casados. Quando a cabana começa a distorcer o tempo e materializar memórias, culpas e traumas, o encontro deixa de ser apenas um possível romance e passa a funcionar como uma espécie de julgamento sobrenatural.
Joe Fria entende uma coisa essencial sobre o horror queer: o fantasma mais eficiente nem sempre precisa aparecer. Em “Shadows of Willow Cabin”, o sobrenatural funciona melhor quando dá forma física àquilo que Albert e Devon passaram anos tentando esconder. A presença do tio de Albert e a evocação do pai abusivo de Devon transformam a casa em um depósito de masculinidades violentas, vergonha e expectativas familiares.
É um filme queer não apenas no fato de serem dois homens apaixonados. Está na maneira como Albert e Devon experimentam a própria sexualidade de formas opostas, mas igualmente dolorosas. Albert construiu uma vida heterossexual, tem esposa e família, e tenta manter compartimentos separados para que ninguém precise enxergar a contradição. Devon transforma encontros passageiros com homens comprometidos em uma espécie de mecanismo de defesa, procurando intimidade justamente onde sabe que ela dificilmente poderá se transformar em compromisso.
E há uma delicadeza inesperada na relação entre Bellomo e Brodsky. Fria não trata o romance apenas como combustível para o horror, mas permite que os dois atores construam intimidade através de pausas, gestos e constrangimentos. O resultado é importante porque impede que o filme transforme seus personagens em meras alegorias sobre trauma. Existe desejo entre eles, existe humor, existe irritação, existe a possibilidade concreta de que aquele encontro se transforme em alguma coisa.
O problema é que “Shadows of Willow Cabin” nem sempre confia naquilo que seus próprios personagens e imagens já conseguiram comunicar. Com quase 2hs, o filme frequentemente se alonga em diálogos que explicam traumas que a atuação e a atmosfera já haviam deixado evidentes. Há ainda uma questão de equilíbrio: durante boa parte, o drama entre os dois homens é mais envolvente do que os sustos, e quando o filme finalmente acelera em direção ao horror, a narrativa parece lembrar que precisa entregar um clímax de gênero.
Mas há algo fascinante. A cabana não é simplesmente um lugar assombrado, ela é um espaço onde os personagens finalmente ficam sem os mecanismos que utilizavam para escapar de si mesmos. O bosque, o isolamento e a distorção temporal transformam repressão em espaço físico, e o relacionamento entre Albert e Devon oferece ao filme uma possibilidade de saída que nenhum deles parecia preparado para aceitar. “Shadows of Willow Cabin” sugere que o verdadeiro fantasma não é aquilo que vive dentro da casa, mas tudo aquilo que homens queer aprenderam a esconder para conseguir viver fora dela.


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