quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Voyeur (EUA, 2024)

 “Voyeur”, longa independente escrito e dirigido por Austin Hughes, traça o conflito queer que não aparece como um tema lateral, mas como uma das forças que organizam a crise de Ethan (Nathan Lee). O jovem está preso entre a possibilidade de abandonar sua cidade natal e uma família que parece incapaz de aceitá-lo, enquanto tenta compreender uma sexualidade que ele próprio não sabe lidar. Ethan precisa lidar com uma família que o rejeita, uma sexualidade que o confunde e um passado que continua assombrando.

Ethan quer partir da cidade, mas tudo o que viveu continua materialmente presente: a família, as relações interrompidas, os conflitos e as lembranças de uma infância marcada por violência, não deixam. O roteiro acrescenta ainda o estado terminal do pai, encontrado em coma, e os encontros tensos entre os familiares no hospital. O acidente de carro que posteriormente atravessa a narrativa desloca novamente o personagem, fazendo do corpo um território onde passado e presente parecem colidir. 

Ethan não está simplesmente diante da necessidade de “se assumir”; ele está tentando entender o que deseja e o que esse desejo significa depois de anos de relações familiares quebradas. O passado de abuso sexual cometido por um tio, torna essa investigação ainda mais dolorosa, porque desejo, intimidade, culpa e trauma aparecem embaralhados.

Há, porém, uma distância entre a ambição desses elementos e a realização do filme. “Voyeur” foi produzido com um orçamento estimado em apenas US$ 17 mil, e sua estética carrega inevitavelmente essa condição. Filmado em Abbeville, na Carolina do Sul, inclusive na histórica HayGood Manor, o longa transforma espaços reais em ambientes de confinamento emocional. A produção chegou a ser indicada a Melhor Longa Narrativo no Tryon International Film Festival, reconhecimento importante para uma obra tão pequena.


O título também sugere uma leitura interessante. O voyeur é aquele que observa sem necessariamente participar, e Ethan passa boa parte do filme nessa posição intermediária: observa a própria família, observa o passado, observa seus desejos, mas tem dificuldade de agir sobre eles. Hughes transforma essa passividade em melodrama, ainda que o roteiro nem sempre consiga dar à metáfora a mesma precisão que ela possui como conceito. 


Em um cinema independente produzido praticamente à margem da indústria, Austin Hughes encontra no conflito entre família, sexualidade e memória uma matéria suficientemente pessoal para sustentar o filme. O longa pode ser limitado em recursos, mas sua melhor qualidade está em não transformar a confusão de Ethan em defeito a ser corrigido, ela é, por enquanto, a própria história.

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