sábado, 13 de junho de 2026

Red Light (EUA, 2025)

“Red Light”, estreia do cubano René Lavan na direção de longas, é um thriller psicológico de câmara que transforma um espaço reduzido em um laboratório de desejo, medo e dependência emocional. A premissa: Alex (Justin Powell) e Blake (Jeffry Batista) acordam em um quarto escuro sem qualquer lembrança de como chegaram ali. Sem saídas aparentes e sem respostas, os dois são forçados a confiar um no outro enquanto tentam compreender quem os aprisionou e por quê. O que parece inicialmente um mistério convencional logo tenta trabalhar com ambições mais complexas, mas nao segura nem o suspense psicológico quanto o drama relacional, na pretensão de ser uma espécie de "Jogos Mortais" gay.

O roteiro, de Chris Anthony Ferrer e Jim Kierstead, é completamente previsível ao tratar o cárcere do filme como dinâmica emocional. À medida que o isolamento se prolonga, confiança, paranoia, atração e ressentimento passam a coexistir de forma desconfortável. A ausência de informações concretas sobre a situação, simplesmente não funciona até a chegada do 'clímax'.

 O longa utiliza a proximidade forçada entre os dois homens para investigar intimidade, desejo e dependência afetiva. O vínculo entre Alex e Blake permanece em constante mutação, transitando entre cumplicidade, atração e desconfiança. Mais não é romance e se aproxima do terror queer, quando “Red Light” examina a fragilidade das conexões humanas quando sobrevivência e afeto se tornam praticamente inseparáveis. 

A direção de Lavan aposta na claustrofobia como principal recurso dramático. A iluminação vermelha que dá título ao filme não funciona apenas como elemento visual, mas como símbolo de alerta constante. Cada mudança de luz parece alterar a percepção dos personagens sobre a realidade, criando uma atmosfera de pesadelo febril.

Justin Powell e Jeffry Batista sustentam praticamente todo o filme com atuações intensas e complementares, mas há também a inserção de outros personagens, o que torna o filme muito mais desinteressante. Como a narrativa depende quase exclusivamente da interação entre os dois, qualquer falta de química comprometeria o projeto. 

“Red Light” não subverte o thriller psicológico, de "Jogos Mortais" só tem o visual, mas demonstra coerência ao que se propõe ao utilizar uma estrutura minimalista para discutir controle, desejo e isolamento com representatividade queer. Com apenas 75 minutos, o filme concentra sua energia na construção de uma atmosfera inquietante, ao explorar os limites da confiança e da intimidade.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Blue Film (EUA, 2025)

“Blue Film”, estreia de Elliot Tuttle na direção, estrelado por Kieron Moore e Reed Birney, segue Aaron Eagle (Moore), um camboy especializado em fetiches monetizados que aceita passar uma noite com um cliente misterioso em troca de uma quantia exorbitante. Ao chegar à casa do homem mascarado, porém, descobre uma conexão perturbadora com seu passado. A partir daí, Tuttle transforma uma premissa aparentemente provocativa em um estudo psicológico sobre trauma, desejo e memória. 

O longa se desenrola quase inteiramente como uma peça de câmara, sustentada por diálogos extensos e confrontos emocionais cada vez mais desconfortáveis. Tuttle demonstra interesse não pelo suspense do que aconteceu, mas pelas consequências emocionais que continuam reverberando anos depois. A narrativa coloca Aaron diante de lembranças que ele preferiria manter enterradas, obrigando-o a confrontar questões de identidade, vergonha e sobrevivência emocional. O resultado é um filme que exige atenção constante e frequentemente deixa o espectador incômodo.

A representatividade queer ocupa o centro da obra, mas de maneira radicalmente diferente daquela encontrada em boa parte do cinema LGBTQIA+ contemporâneo. “Blue Film” não busca conforto, validação ou mensagens edificantes. Em vez disso, investiga zonas obscuras do desejo, da sexualidade e da formação da identidade gay. Tuttle discute aquilo que normalmente permanece silenciado, abordando temas delicados sem fetichizá-los. É justamente essa disposição de enfrentar contradições morais e emocionais que torna o filme tão divisivo quanto fascinante. 

A direção aposta na sobriedade. Quase toda a ação acontece dentro de uma casa durante uma única noite, criando uma atmosfera claustrofóbica que reforça a sensação de aprisionamento psicológico. A fotografia de Ryan Jackson-Healy trabalha sombras e espaços vazios com inteligência, enquanto a câmera permanece próxima dos atores, capturando cada hesitação, cada silêncio e cada mudança de expressão. 

As atuações são extraordinárias. Kieron Moore, revelado em "Boots", constrói Aaron como um homem acostumado a performar masculinidade e controle, mas cujas defesas começam a ruir ao longo da noite. Reed Birney, por sua vez, entrega um dos trabalhos mais arriscados de sua carreira, interpretando uma figura moralmente perturbadora sem recorrer à caricatura. A química sustenta diálogos que poderiam facilmente desmoronar sob o peso dos temas abordados. 

“Blue Film” certamente não é para todos. Sua disposição de encarar temas tabus de frente provocou rejeições em festivais e debates acalorados entre críticos e espectadores. Mas há algo admirável na coragem com que Elliot Tuttle recusa simplificações morais e se aventura por territórios que o cinema frequentemente evita. É uma obra difícil, desconfortável e, em diversos momentos, profundamente perturbadora, mas também uma das experiências queer mais ousadas e intelectualmente provocativas dos últimos anos.

Primeiras Impressões de "PROUD": entre excessos, luto e a promessa de um recomeço

Vencedora do Grand Prix do Series Mania 2026 e responsável pelo prêmio de Melhor Ator para Ignacy Liss, "PROUD" chegou à HBO Max cercada de expectativas. O primeiro episódio deixa claro o motivo. A nova série polonesa criada por Karol Klementewicz não busca um protagonista imediatamente adorável, mas alguém profundamente imperfeito, disposto a tropeçar diante dos nossos olhos antes de qualquer possibilidade de redenção.

A apresentação de Filip Raczyński é quase agressiva. Modelo ocasional, frequentador assíduo da cena noturna queer, impulsivo e hedonista, ele atravessa festas embaladas por música eletrônica, drogas e sexo casual. A câmera acompanha esse universo com uma energia inebriante, transformando o espectador em mais um corpo perdido entre luzes estroboscópicas e pistas de dança. Um cover de "Toxic", de Britney Spears, embalando uma sequência de orgia, sintetiza perfeitamente o espírito desse início: sedutor, caótico e perigosamente instável.

O maior acerto do episódio talvez seja não suavizar Filip para conquistar simpatia fácil. À primeira vista, ele parece egoísta, irresponsável e emocionalmente inacessível. Seu corpo está quase sempre em exposição, seja como objeto de desejo, seja como ferramenta de trabalho. Há algo de performático em sua existência, como se ele próprio fosse incapaz de distinguir onde termina a imagem que projeta e onde começa sua verdadeira identidade.

Mas sob as luzes neon surgem as primeiras sombras. Uma cena aparentemente simples, em que Filip realiza um teste rápido de HIV, revela uma vulnerabilidade que a série não verbaliza, apenas sugere. O resultado negativo não elimina a sensação de inquietação. Pelo contrário, reforça a impressão de um personagem constantemente flertando com limites físicos e emocionais que talvez não consiga controlar por muito tempo.

A virada dramática acontece com a morte repentina de sua irmã. Sem transformar a tragédia em mero mecanismo narrativo, o episódio altera completamente o eixo da história ao colocar um bebê no centro da vida de alguém que jamais demonstrou interesse por responsabilidades. O contraste é poderoso: de um lado, a autodestruição; do outro, a possibilidade de cuidado. O nascimento simbólico de uma nova versão de Filip parece surgir exatamente no momento em que sua antiga vida começa a ruir.

Ainda é cedo para saber se "PROUD" cumprirá todas as promessas sugeridas por sua estreia, mas o primeiro episódio estabelece uma base sólida. Entre o luto, os excessos e a paternidade inesperada, a série discute crescimento, pertencimento e sobrevivência queer em uma sociedade conservadora. O começo oferece mais nuvens do que arco-íris, mas talvez seja justamente essa escuridão inicial que torne a jornada de Filip tão intrigante de acompanhar.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Llueve sobre Babel (Colômbia, 2025)

Gala del Sol estreia em “Llueve sobre Babel” com uma obra que parece ter escapado de um sonho febril, ou de uma pista de dança entre a vida e a morte. Inspirado livremente em “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, o longa transforma um decadente bar de Cali, na Colômbia, em uma espécie de purgatório tropical onde almas apostam anos de suas vidas contra a própria Morte. Entre realismo mágico, fantasia, humor ácido e melodrama queer, a diretora constrói um universo singular, tão excessivo quanto fascinante.

Gala del Sol define sua estética como “trópico-punk retrofuturista”, e cada plano parece abraçar essa proposta sem medo do exagero. Neons, fumaça, suor, figurinos camp, elementos steampunk e uma fotografia vibrante, de Sten Tadashi Olson, criam uma atmosfera que oscila entre o cabaré, o sci-fi e o folclore latino-americano. O resultado é um espetáculo visual que frequentemente coloca a experiência sensorial acima da lógica narrativa.

Mas por trás da exuberância estética existe um filme profundamente interessado em personagens à margem. Drag queens, fantasmas, amantes, músicos, andarilhos e figuras deslocadas ocupam o centro da narrativa, existe até um certo diálogo com "Anhell69" (2022), de Theo Montoya. O Babel do título funciona como um refúgio para identidades dissidentes, um espaço onde desejo, culpa, amor e morte coexistem sem hierarquias.

“Llueve sobre Babel” filma corpos, afetos e performances com liberdade absoluta, recusando qualquer necessidade de explicação ou justificativa. O filme entende a comunidade LGBTQIA+ como parte orgânica de seu universo fantástico, abordando temas como autoaceitação, homofobia, desejo e pertencimento sem perder o tom lúdico. Há algo profundamente libertador na forma como Gala del Sol transforma o inferno dantesco em um carnaval de diversidades sexuais e afetivas.

Nem tudo funciona com a mesma intensidade. A estrutura coral, repleta de personagens e subtramas, por vezes ameaça se perder dentro do próprio labirinto que constrói. Algumas histórias recebem mais atenção do que outras, enquanto certas passagens parecem existir apenas para alimentar a estética fantástica. Ainda assim, mesmo quando a narrativa vacila, a energia criativa da direção impede que o interesse desapareça.

“Llueve sobre Babel” prefere correr o risco do excesso ao conforto da previsibilidade. Entre a fantasia tropical, o melodrama queer, a comédia ácida e a reflexão sobre mortalidade, Gala del Sol entrega uma estreia ousada, delirante e absolutamente autoral. É um filme que dança com a morte, mas sem jamais perder o prazer de estar vivo, transformando Cali em um território onde o impossível não apenas existe, mas pulsa ao ritmo de salsa, neon e a imersão na resistência.


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Lunar Sway (Canadá, 2026)

Nick Butler confirma em “Lunar Sway” que o cinema queer pode ser ao mesmo tempo íntimo, estranho e caótico. Protagonizado por Noah Parker, o longa segue Cliff, um jovem bissexual preso à monotonia da pequena cidade desértica de Mooncrest, cuja vida muda quando uma mulher misteriosa, Marg (Liza Weil), surge afirmando ser sua mãe biológica. O que começa como um drama de reencontro familiar rapidamente se transforma em uma jornada repleta de desvios, segredos e encontros improváveis.

Há algo deliberadamente excêntrico na construção narrativa de Butler. O diretor aposta em uma lógica quase onírica, permitindo que os acontecimentos se acumulem sem a preocupação de oferecer respostas imediatas. O resultado lembra um cruzamento improvável entre o surrealismo de David Lynch e a tradição das comédias independentes norte-americanas. Nem sempre funciona. Em alguns momentos, o filme parece tão apaixonado por suas próprias esquisitices que corre o risco de perder o foco. Ainda assim, existe uma sinceridade emocional que impede que a experiência se torne apenas um exercício de estilo.

A representação queer é uma das forças mais interessantes da obra. O relacionamento de Cliff com Stew (Douglas Smith) carrega uma ternura discreta, enquanto as memórias de amores passados pairam sobre o protagonista como fantasmas sentimentais. Butler compreende que o desejo queer nem sempre é explosão, às vezes é apenas uma sensação persistente de ausência.

 “Lunar Sway” encontra sua personalidade nos desertos iluminados por néons, nos letreiros fluorescentes produzidos por Cliff e nas noites banhadas por luas aparentemente impossíveis. A fotografia de Dmitry Lopatin transforma a paisagem canadense em um território quase mitológico, onde cada esquina parece esconder uma revelação ou uma mentira. O filme vive de atmosferas, de texturas e de sensações.


“Lunar Sway” possui uma frequência particular, revelando uma reflexão sensível sobre amor, pertencimento e a busca por conexões em um mundo cada vez mais fragmentado. Entre humor absurdo, desejo queer e uma melancolia que nunca desaparece completamente, Nick Butler cria uma obra com personalidade.

Mean Boys (EUA, 2025)

“Mean Boys” parece saída de um algoritmo alimentado por “Meninas Malvadas”, redes sociais, triângulos amorosos bissexuais e uma dose de thriller adolescente. A trama acompanha Ira, um jovem excluído que se vê obcecado pelo círculo dos garotos populares de uma escola de Los Angeles onde todas as sexualidades coexistem abertamente. O que começa como uma história sobre pertencimento rapidamente mergulha em obsessão, drogas e manipulações emocionais.

Alexander Justin Gonzales claramente deseja construir uma sátira sobre fama digital, performatividade e juventude queer contemporânea. O problema é que o filme parece menos interessado em desenvolver essas ideias do que em empilhá-las. Cada nova cena apresenta um conflito diferente, uma revelação diferente ou uma reviravolta diferente, como se o roteiro estivesse em pânico diante da possibilidade de permanecer cinco minutos explorando uma única emoção,

Existe, porém, algo curiosamente fascinante nesse caos. Os personagens vivem num estado permanente de autopromoção emocional, transformando cada interação em espetáculo. A abordagem da sexualidade também merece crédito por evitar o tradicional drama de se assumir.. Aqui, os personagens já são assumidos; o conflito nasce da vaidade, do desejo, da insegurança e da necessidade de controle. Em seus melhores momentos, “Mean Boys” sugere uma leitura ácida sobre uma geração que aprendeu a transformar a própria vida em conteúdo.

Mas esses lampejos de inteligência raramente sobrevivem ao próximo corte de montagem. As atuações oscilam entre o aceitável e o exageradamente teatral, enquanto os diálogos frequentemente parecem ter sido retirados de comentários do Instagram escritos às três da manhã. Há cenas que se sucedem sem qualquer lógica emocional perceptível. 


Ainda assim, seria injusto negar que “Mean Boys” possui uma energia própria. Ela é desajeitada, excessiva e muitas vezes risível, mas existe. Gonzales demonstra ambição e vontade de falar sobre obsessão, validação social e desejo queer em tempos de redes sociais. O problema é que o filme parece tão apaixonado pelas próprias reviravoltas que esquece de construir uma história sólida para sustentá-las.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Boy George & Culture Club (Reino Unido/EUA, 2025)

Alison Ellwood já demonstrou interesse por figuras musicais que ajudaram a moldar a cultura pop, como Cyndi Lauper, e em “Boy George & Culture Club” encontra material fértil para revisitar uma das bandas mais emblemáticas dos anos 1980. O documentário acompanha a ascensão meteórica do grupo formado por Boy George, Jon Moss, Roy Hay e Mikey Craig, combinando entrevistas recentes com vasto material de arquivo para reconstruir uma trajetória marcada por sucesso, excessos e conflitos internos.

O filme não transforma Boy George no único protagonista. Embora o cantor continue sendo o centro da narrativa, Ellwood abre espaço para que Roy Hay, Mikey Craig e Jon Moss contem suas próprias versões da história. O resultado é um retrato mais coletivo do Culture Club, revelando como a mistura de reggae, soul, new wave e pop ajudou a criar uma sonoridade singular que dominou rádios e paradas internacionais.


O relacionamento amoroso entre Boy George e Jon Moss é apresentado como uma força criativa e destrutiva ao mesmo tempo, inspirando canções importantes enquanto gerava tensões nos bastidores. O documentário também relembra como George se tornou uma figura revolucionária para a cultura LGBTQIA+, desafiando expectativas de gênero e sexualidade em uma época muito menos receptiva à diversidade do que a atual. Ellwood sugere que muitas das discussões enfrentadas pelo artista nos anos 1980 continuam assustadoramente contemporâneas.

O filme encontra seus momentos mais emocionantes justamente quando abandona a cronologia convencional e mergulha nas feridas do grupo. A pressão da fama, o foco excessivo da imprensa em Boy George, os ressentimentos dos demais integrantes e os problemas com dependência química aparecem sem grandes rodeios. Não é um documentário investigativo ou particularmente confrontador, mas consegue transmitir a sensação de que o sucesso do Culture Club carregava um preço alto para todos os envolvidos.

A diretora aposta em uma linguagem bastante acessível, repleta de imagens de arquivo, performances televisivas e grafismos inspirados na estética dos anos 1980. Em alguns momentos, essa abordagem funciona como uma cápsula nostálgica irresistível; em outros, parece excessivamente convencional para uma história tão extravagante.

“Boy George & Culture Club” não pinta o retrato definitivo da banda, mas é um documentário envolvente, afetuoso e musicalmente rico. Mais do que celebrar sucessos como “Do You Really Want to Hurt Me” e “Karma Chameleon”, o filme recupera a importância cultural de um grupo que ajudou a redefinir a visibilidade queer no pop global. Ao final, permanece a sensação de que, por trás dos chapéus gigantes e dos refrões inesquecíveis, existia uma história muito mais complexa do que a fama permitia enxergar.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Tip Toe (Reino Unido, 2026)

 "Tip Toe" confirma que Russell T Davies continua sendo um dos cronistas mais inquietos da experiência queer contemporânea. A minissérie de cinco episódios abandona qualquer conforto nostálgico para mergulhar em um retrato feroz da Inglaterra atual, onde preconceitos antigos ganham novas formas através da desinformação digital. Ambientada em Manchester, a trama acompanha o choque entre Leo (Alan Cumming), dono de um bar na célebre Canal Street, e Clive (David Morrissey), um eletricista conservador cuja visão de mundo vai sendo contaminada por discursos de ódio cada vez mais normalizados.

A estrutura narrativa é um dos grandes diferenciais da série. Sem revelar detalhes decisivos da trama, basta dizer que a história se desenvolve em duas frentes temporais: um presente carregado de tensão e uma reconstrução gradual dos acontecimentos que levaram aqueles personagens até um ponto de ruptura. A direção de Peter Hoar encontra equilíbrio entre o suspense suburbano e o drama humano, transformando ruas aparentemente comuns em territórios de ansiedade constante.


O elenco é extraordinário. Alan Cumming entrega uma das melhores atuações de sua carreira como Leo, um homem espirituoso, vulnerável e cansado de perceber que batalhas que julgava vencidas precisam ser travadas novamente. David Morrissey, por sua vez, evita qualquer caricatura ao interpretar Clive, tornando ainda mais perturbador acompanhar sua trajetória.

"Tip Toe" é uma das produções mais relevantes do ano. Davies não quer somente celebrar a comunidade LGBTQIA+, mas discutir sua  fragilidade diante de um cenário social cada vez mais hostil. O bar de Leo funciona como espaço de acolhimento para diferentes identidades, incluindo personagens trans interpretados por Iz Hesketh e Shakeel Kimotho. Ao mesmo tempo, a série relembra a geração que sobreviveu à crise da AIDS, conectando aquelas lutas ao crescimento contemporâneo da homofobia e da transfobia

Embora trate de temas pesadíssimos, "Tip Toe" preserva o humor característico de Davies. Há momentos de afeto, ironia e humanidade que impedem a narrativa de se transformar em um exercício de desespero absoluto. A série também encontra espaço para discutir família, envelhecimento, masculinidade, relacionamentos e pertencimento.

Difícil assistir a "Tip Toe" sem sentir um nó no estômago. É uma obra que provoca, enfurece e entristece, mas que também reafirma a importância da arte como ferramenta de alerta. Davies não traz conforto emocional. Em vez disso, entrega uma série que encara de frente o medo, a intolerância e a fragilidade das conquistas sociais. O resultado é um thriller psicológico e político de enorme impacto, uma experiência angustiante que permanece ecoando muito depois do último episódio.

sábado, 6 de junho de 2026

Departures (Reino Unido, 2025)



“Departures” parte de um encontro aparentemente banal em um portão de embarque para construir algo muito mais doloroso. Dirigido por Neil Ely e Lloyd Eyre-Morgan, que também assinam a produção e atuam no longa, o filme acompanha Benji (Lloyd Eyre-Morgan), um homem de Manchester que se apaixona pelo enigmático Jake (David Tag). O que começa como uma conexão intensa, alimentada por escapadas frequentes para Amsterdã, rapidamente se transforma em uma relação marcada por desequilíbrios emocionais, dependência afetiva e feridas difíceis de cicatrizar.

Embora seja descrito como uma comédia romântica, “Departures” está muito mais interessado nas ruínas deixadas pelo amor do que em seus encantamentos. O roteiro mergulha em temas como obsessão, solidão, vício, autoestima e o desejo quase desesperado de ser amado. A narrativa alterna momentos de humor mordaz e sexo casual com passagens de profunda vulnerabilidade, criando um retrato bastante reconhecível para muitos homens gays que já confundiram paixão com autodestruição.


Benji e Jake habitam um universo de aplicativos, sexo casual, padrões corporais sufocantes e masculinidades contraditórias. O longa aborda questões recorrentes da experiência gay contemporânea sem moralismo. Há um entendimento raro de que o desejo também pode ser uma zona de conflito, onde carências, traumas e expectativas colidem de maneira devastadora.


Visualmente, os diretores apostam em uma linguagem vibrante, quase pop, que contrasta com o sofrimento do protagonista. Sequências animadas, montagem fragmentada e uma estrutura não linear ajudam a traduzir o estado emocional de Benji, que revisita memórias enquanto tenta sobreviver ao presente acompanhado por uma excelente trilha sonora que lembra o melhor do britpop.

Lloyd Eyre-Morgan entrega um protagonista exposto, engraçado e dolorosamente humano, enquanto David Tag constrói um Jake sedutor justamente por sua inacessibilidade. A química entre os dois torna compreensível por que Benji insiste em permanecer preso a uma relação claramente tóxica. O filme evita dividir seus personagens entre heróis e vilões, preferindo explorar as zonas cinzentas onde amor, manipulação, desejo e insegurança coexistem.


“Departures” encontra sua própria voz ao abordar o fim de um relacionamento com honestidade brutal e humor cortante. Inspirado por experiências reais de seus criadores, o longa transforma dor íntima em narrativa universal. É um filme sobre corações partidos, mas também sobre sobrevivência emocional, sobre aprender a abandonar fantasmas e aceitar que algumas partidas são necessárias para que uma nova vida possa finalmente começar.



quinta-feira, 4 de junho de 2026

Skiff (Bélgica, 2025)

“Skiff”, da diretora belga Cecilia Verheyden, é um delicado drama de formação que segue Malou (Femke Vanhove), uma adolescente de 15 anos que vive em uma pequena cidade flamenga, divide os dias entre a escola e o remo competitivo, enquanto tenta compreender seus sentimentos. Quando conhece Nouria (Lina Miftah), namorada de seu irmão Max (Wout Vleugels), algo muda de forma irreversível.

O roteiro, escrito em parceria com Vincent Vanneste, prefere os silêncios, os olhares e os pequenos gestos. Malou é uma personagem constantemente deslocada: sofre bullying no clube de remo, evita os vestiários e encontra refúgio apenas na água, onde pode remar sozinha e escapar das pressões do mundo exterior. Essa sensação de inadequação atravessa todo o filme e faz com que cada descoberta emocional carregue um peso genuíno.

A fotografia, de Jordan Vanschel, aposta em luz natural e tons quentes que contrastam com o turbilhão interno da protagonista. O verão flamengo ganha contornos transformando rios, margens e paisagens suburbanas em extensões do estado emocional de Malou. Há uma elegância discreta na encenação, reforçada pela montagem de Thomas Pooters, que mantém o ritmo íntimo sem jamais perder o envolvimento do espectador.


O filme não apresenta a Bélgica contemporânea como um paraíso da aceitação, mas reconhece que crescer queer continua sendo uma experiência atravessada por inseguranças, medos e constrangimentos. A paixão de Malou por Nouria surge de maneira natural, sem transformar sua orientação sexual em um problema. O conflito está menos no desejo em si e mais na dificuldade de expressá-lo em uma comunidade pequena, onde o julgamento alheio permanece uma presença constante.

Grande parte do impacto emocional do longa vem da atuação extraordinária de Femke Vanhove. A jovem atriz constrói uma protagonista complexa, capaz de alternar entre a fragilidade e obstinação em uma mesma cena. Sua química com Lina Miftah é sutil, baseada em aproximações graduais e emoções contidas. 

“Skiff” não reinventa o gênero coming-of-age, mas encontra beleza na honestidade com que retrata a adolescência. Cecilia Verheyden compreende que crescer é aceitar contradições, perder ilusões e descobrir partes de si que nem sempre agradam aos outros. O resultado é um filme delicado e sensível que transforma uma história de primeiro amor em uma reflexão universal sobre a coragem de existir exatamente como se é.

Criadas (Brasil, 2025)

 “Criadas”, primeiro longa-metragem de ficção de Carol Rodrigues, é uma obra assombrada por fantasmas que nunca deixaram de existir. O filme acompanha o reencontro de Sandra (Mawusi Tulani) e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), primas que cresceram sob o mesmo teto, mas jamais em condições de igualdade. Quando Sandra retorna à antiga casa da família em busca de uma fotografia de sua mãe, que trabalhou ali como empregada doméstica residente, o passado ressurge com uma força quase sobrenatural. O reencontro das duas desencadeia um acerto de contas íntimo entre memória, afeto e violência estrutural.

Carol Rodrigues demonstra enorme controle ao combinar drama psicológico, realismo fantástico e horror subjetivo. A casa onde grande parte da narrativa se desenrola não funciona apenas como cenário, mas como um organismo vivo que acumula silêncios, ressentimentos e segredos. As paredes parecem guardar marcas invisíveis de uma estrutura social profundamente brasileira, onde relações familiares e relações de trabalho frequentemente se confundem. 

O maior mérito de “Criadas” está na forma como aborda racismo e desigualdade sem recorrer ao didatismo. Sandra e Mariana compartilham uma ancestralidade comum, mas suas trajetórias foram moldadas por experiências radicalmente distintas dentro da mesma casa.

A representatividade queer surge integrada ao tecido emocional da narrativa. Mariana é uma mulher lésbica e o filme incorpora sua sexualidade.  Além disso, a trama sugere desejos, afetos e vínculos que escapam das definições convencionais, ampliando a complexidade dos relacionamentos apresentados. Como uma cineasta negra e queer, Carol Rodrigues observa essas identidades de maneira interseccional, entendendo que raça, gênero, sexualidade e classe operam simultaneamente na construção das experiências de suas personagens.


As atuações de Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti sustentam toda a densidade dramática da obra. Não por acaso, ambas receberam o prêmio de Melhor Atriz na mostra Novos Rumos do Festival do Rio. Existe uma química delicada entre as duas intérpretes, construída tanto através dos diálogos quanto dos silêncios.

Apoiado pela fotografia de Julia Zakia e por uma encenação que flerta constantemente com o sobrenatural, “Criadas” transforma traumas históricos em imagens concretas. Fantasmas da infância, da ancestralidade e da própria formação social brasileira atravessam a narrativa sem jamais parecerem meros recursos alegóricos. Carol Rodrigues entrega um filme ambicioso, sensível e politicamente relevante, capaz de discutir memória, pertencimento e herança racial.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

A Perdição de Lázaro (Brasil, 2026)

"A Perdição de Lázaro", novo curta de Diego Paulino, mergulha em uma experiência sensorial, política e contemporânea. Lázaro (Lucas Wickhaus) é um profissional de TI frustrado com os resultados da musculação e obcecado por alcançar um ideal físico inalcançável. Quando a tecnologia de reconhecimento facial de sua academia começa a falhar, ele passa a acordar diariamente com rostos diferentes,e pertencentes justamente aos homens que possuem os corpos que ele mais deseja. O que inicia como fantasia rapidamente se transforma em um pesadelo identitário sobre desejo, pertencimento e autodestruição.

Diego Paulino constrói uma obra que dialoga diretamente com o afrofuturismo, o horror corporal e a ficção científica queer. Cada enquadramento parece projetar um futuro possível onde algoritmos, bancos de dados biométricos e tecnologias de vigilância deixam de ser ferramentas e passam a moldar subjetividades. A academia BioNeural, com seu inquietante slogan "Ative o Modo Monstro", surge como uma espécie de templo contemporâneo da performance corporal, onde músculos substituem personalidade e a validação social se torna uma nova religião.

O curta encontra sua maior potência  ao explorar a tensão homoerótica que permeia os espaços de musculação. Paulino entende que academias são ambientes carregados de desejo, competição, comparação e fantasia. O treino deixa de ser apenas exercício físico para assumir contornos quase sexuais. Corpos negros musculosos ocupam a tela como objetos de admiração, cobiça e projeção. Ao mesmo tempo, o diretor questiona o preço dessa obsessão, expondo a fragilidade emocional escondida sob a superfície dos corpos considerados perfeitos.

Visualmente, "A Perdição de Lázaro" é hipnotizante. A fotografia, o desenho sonoro e a iluminação se fundem numa experiência quase lisérgica, transformando a jornada do protagonista em uma viagem que parece oscilar entre o sonho, o delírio e a ficção científica cósmica. A inserção de desenhos animados, imagens de arquivo e referências ao fisiculturismo clássico amplia ainda mais essa sensação de deslocamento temporal, como se Lázaro estivesse preso em um arquivo infinito de imagens produzidas para vender ideais de masculinidade.

A dimensão política da obra também merece destaque. Em um momento em que esteroides e substâncias para ganho de massa muscular se tornam cada vez mais acessíveis, enquanto casos de complicações e mortes ganham espaço nas manchetes, o filme assume uma relevância imediata. Paulino não faz uma crítica moralista, mas revela como a indústria do corpo perfeito se alimenta da insegurança, transformando vulnerabilidades em mercado. 

Além de uma ficção científica queer, "A Perdição de Lázaro" é uma reflexão sobre os limites da transformação pessoal. Seu protagonista busca esculpir o corpo perfeito, mas acaba perdendo a própria identidade no processo. Diego Paulino realiza um trabalho inventivo criando uma obra delirante, iconográfica e humana.


As Lunáticas (Brasil, 2026)

“As Lunáticas”, primeira série de ficção de Henrique Arruda, explode em humor afeto, humor e memória queer. Construída em formato de falso documentário, a produção acompanha o retorno de uma banda fictícia dos anos 1980 que, quatro décadas após seu único sucesso, tenta reencontrar espaço em um mundo dominado por algoritmos, influenciadores e dancinhas virais. O resultado é uma comédia delirante que parece nascer de uma batida improvável entre a nave da Xuxa e o Bar da Buchada, universo onde o kitsch, o camp e a cultura popular nordestina coexistem em perfeita harmonia.

A premissa é e irresistível. Sharlene Summer (Sharlene Esse), Raquel Simpson (Raquel Simpson), Suelanny Sybernética (Suelanny Tigresa) e Pérola Patrícia(Pérola Saymon) são convocadas pelo empresário Gilberto Carreiras (Gilberto Brito) para uma tentativa desesperada de retorno. Perdidas entre streamings, patrocinadores e criadores de conteúdo, as artistas precisam aprender a sobreviver em um mercado completamente diferente daquele que conheceram. Com episódios curtos, de cerca de quinze minutos, a série encontra ritmo justamente na sucessão de situações absurdas, constrangimentos e conflitos internos entre divas que mal conseguem se suportar.


Henrique Arruda transforma o choque entre passado e presente em sua principal fonte de humor. A série passeia com desenvoltura pelo desgaste das fitas VHS, pelos programas de auditório dos anos 1980, pela estética synthpop e pelas referências às Frenéticas, ao mesmo tempo em que mergulha no universo dos youtubers e criadores de conteúdo. Personagens como Safira (Matheus Ferreyra) e Ruby (Ruby Nox ganhadora de Drag Race Brasil), no fictício “Viralizou Viado”, ajudam a construir uma ponte divertida entre gerações, revelando como a cultura queer se reinventa sem abandonar completamente suas raízes.


Mas por trás das gargalhadas, da sátira e dos fantoches com nome de tarja preta existe algo mais profundo. “As Lunáticas” é também uma obra sobre pertencimento, envelhecimento e permanência. Suas protagonistas são artistas trans e travestis inspiradas em trajetórias reais da cena noturna recifense, mulheres que ajudaram a construir espaços de resistência muito antes de qualquer reconhecimento institucional. Quando Pérola Patrícia dispara a frase “o juiz me considerou louca”, a série deixa escapar uma camada de dor histórica que nunca está distante do humor.

O hit atemporal “Amor do Futuro” gruda na cabeça, enquanto o peso de Gilberto Brito, em seu último papel, confere ao projeto uma dimensão ainda mais emocionante. Sua presença acaba funcionando como uma espécie de despedida afetiva para uma figura fundamental da cultura pernambucana. O mesmo vale para Pérola Saymon, que nos deixou muito recentemente, e na série entrega alguns dos momentos mais engraçados, ela é a rainha dos memes.


Ao final dos cinco episódios, “As Lunáticas” deixa a sensação de ter assistido não apenas a uma comédia, mas a uma celebração da memória queer nordestina. Henrique Arruda em seu universo particular compreende que o humor pode ser uma poderosa ferramenta de preservação e afeto. Entre hits espaciais, figurinos extravagantes, referências televisivas e situações completamente absurdas, a série constrói um retrato amoroso de artistas que se recusam a desaparecer. A série será exibida na íntegra em uma sessão Especial no famoso Cinema São Luiz, em Recife, no dia 20 de junho com participação da equipe e elenco.



terça-feira, 2 de junho de 2026

Erupcja (EUA, 2025)

“Erupcja”, de Pete Ohs, filmado na Polônia e estrelado por Charli XCX e Lena Góra, segue a Bethany, uma turista inglesa presa em Varsóvia após uma erupção vulcânica interromper sua viagem romântica com o namorado Rob. O imprevisto a leva de volta ao encontro de Nel (Will Maden), uma antiga paixão, reacendendo sentimentos que pareciam adormecidos. A partir dessa premissa quase absurda, Pete Ohs constrói uma delicada história sobre reencontros, desejo e a incapacidade de seguir roteiros afetivos pré-estabelecidos.

O que poderia ser apenas mais um romance sáfico independente ganha personalidade graças à maneira como Ohs transforma Varsóvia em um organismo vivo. Ruas, bares, apartamentos e vielas tornam-se extensões emocionais dos personagens. Há algo de cinema de passeio, de deriva romântica, que remete tanto à Nouvelle Vague quanto ao mumblecore norte-americano. A câmera acompanha os encontros e desencontros com espontaneidade, como se estivéssemos observando fragmentos de vidas reais capturados por acaso.


O relacionamento entre Bethany e Nel não é tratado como uma questão a ser explicada, mas como um sentimento que simplesmente existe. Aqui, o conflito está na dúvida, na nostalgia e nas escolhas que fazemos quando percebemos que talvez estejamos vivendo a vida errada.

Há também uma dimensão poética que atravessa a narrativa. A ideia recorrente de que vulcões entram em erupção sempre que Bethany e Nel se reencontram funciona simultaneamente como piada, superstição e metáfora. Ohs brinca com a noção de destino sem nunca abraçá-la completamente. Seus personagens parecem acreditar em sinais cósmicos.

As atuações ajudam a sustentar esse delicado equilíbrio entre humor e melancolia. Charli XCX, que vem buscado terreno na carreira de atriz, leva para a tela parte da persona inquieta e impulsiva que a tornou uma figura central da cultura pop contemporânea, enquanto Lena Góra oferece à Nel uma serenidade aparente que esconde frustrações profundas. 

“Erupcja”  transforma um romance queer em uma reflexão universal sobre possibilidades perdidas, amores que permanecem suspensos no tempo e a estranha sensação de que algumas pessoas entram em nossas vidas para provocar pequenas erupções permanentes. Leve, melancólico e encantadoramente imperfeito.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

I’m Gonna Kill You (EUA, 2026)

“I’m Gonna Kill You”, estreia na direção de Andrew Chappelle, que atuou em "Hamilton", entende perfeitamente como o erotismo e o horror compartilham o mesmo território: desejo, posse e destruição. Ambientado em um futuro distante onde os poucos sobreviventes da humanidade vivem separados em colônias, o filme imagina uma comunidade exclusivamente gay, transformando uma fantasia utópica em um pesadelo de obsessão e paranoia.

No centro da narrativa estão Cal (James Cusati-Moyer) e Spector (Michael Graceffa), um casal cuja dinâmica tóxica começa a contaminar toda a estrutura da colônia. Enquanto Cal mergulha em festas, sexo e impulsos hedonistas, Spector exige exclusividade e controle. O que começa como um thriller erótico logo se converte em uma reflexão sobre ciúme, dependência emocional e o desejo transformado em arma.

Chappelle filma os corpos como objetos de fascínio e ameaça. Há uma sensualidade constante atravessando cada quadro, mas ela nunca surge como conforto. O curta cria uma atmosfera onde a atração é inseparável do perigo, evocando ecos do cinema queer pós-pandemia, especialmente ao transformar uma comunidade isolada em laboratório para tensões afetivas e psicológicas. O próprio diretor revelou que a ideia nasceu durante os períodos de confinamento da Covid-19, refletindo sobre redes sociais reduzidas e convivências intensificadas.

A presença de Johnny Sibilly e Angus O’Brien, conhecido por “Boots”, reforça a sensação de que o filme busca dialogar diretamente com uma nova geração de performers queer que transitam entre o cinema, a televisão e a cultura digital. O elenco inteiro parece consciente da proposta de habitar um universo onde masculinidade, desejo e sobrevivência estão permanentemente em conflito.

Visualmente elegante e deliberadamente artificial, “I’m Gonna Kill You” aposta em uma ficção científica minimalista para discutir temas profundamente contemporâneos. A ideia de uma “colônia gay” poderia facilmente cair na sátira simplista, mas o curta prefere explorar o quanto relações afetivas podem reproduzir mecanismos de controle, exclusão e violência mesmo dentro de espaços supostamente seguros.

Com apenas cerca de 14 minutos, “I’m Gonna Kill You” deixa a impressão de estar assistindo ao piloto de algo maior. É sexy, inquietante e perversamente divertido, um thriller queer que compreende que o verdadeiro horror não está no fim do mundo, mas na incapacidade de amar sem transformar o outro em propriedade.

Something Still (EUA, 2026)

“Something Still”, curta-metragem dirigido por Ariel Mahler e escrito por John Brodsky, transforma o fim de um relacionamento em um doloroso exercício de arqueologia emocional. Com Zane Phillips, o filme acompanha um homem que retorna ao apartamento que dividia com o ex-namorado e se vê cercado por lembranças que insistem em permanecer vivas. O espaço físico torna-se um território de fantasmas afetivos, onde cada objeto parece carregar as marcas de uma história interrompida.

A premissa poderia facilmente descambar para o melodrama, mas Mahler opta pela contenção. O que interessa não é apenas o sofrimento da separação, mas as pequenas fissuras que levaram ao rompimento. Aos poucos, a narrativa revela como um encontro sexual inicialmente casual entre o casal e um terceiro homem desencadeou sentimentos inesperados, expondo diferenças irreconciliáveis sobre monogamia, poliamor e os limites da intimidade.

O roteiro de John Brodsky apresenta personagens vulneráveis, tentando navegar desejos que nem sempre conseguem nomear. A discussão sobre relacionamentos abertos surge de forma madura e dolorosamente humana, mostrando que os conflitos não nascem necessariamente da falta de amor, mas das expectativas incompatíveis que cada pessoa deposita em uma relação.

Mais do que uma história sobre separação, “Something Still” fala sobre as marcas que os relacionamentos deixam em nós. O filme entende que o amor raramente desaparece de uma vez. Ele permanece nos cantos da memória, nos hábitos compartilhados e nos lugares que continuam existindo mesmo depois que a relação termina. Essa dimensão emocional faz do curta uma experiência particularmente identificável para espectadores queer, que encontrarão ali uma representação honesta de afetos contemporâneos.

Delicado, melancólico e emocionalmente preciso, “Something Still” encontra força na intimidade. Sem grandes gestos ou discursos, Ariel Mahler e John Brodsky constroem um retrato sincero sobre amor, desejo e perda, lembrando que algumas histórias acabam, mas certas emoções continuam ecoando muito depois do último adeus.


León (Argentina, 2023)

 “León”, de Papu Curotto e Andi Nachón, parte de uma premissa emocionalmente devastadora: Julia (Carla Crespo) precisa reconstruir a própria vida após a morte repentina de sua companheira Barbi (Antonella Saldicco). Em meio ao luto, ela tenta manter funcionando o restaurante que as duas administravam juntas e, principalmente, preservar o vínculo com León (Lorenzo Crespo), o filho que criaram como família. Mas a ausência da mãe biológica transforma tudo em disputa, reabrindo feridas familiares e expondo a fragilidade jurídica e afetiva de muitas famílias queer.

Em vez de transformar o drama em grandes explosões melodramáticas, Curotto e Nachón preferem os silêncios, os olhares cansados, os pequenos gestos de carinho interrompidos pelo peso da perda. Há algo profundamente humano na maneira como “León” retrata o luto: ele não surge como catarse cinematográfica, mas como uma sensação contínua de deslocamento, como se Julia estivesse tentando reaprender a existir dentro de uma rotina que perdeu seu centro emocional.

A dimensão queer do filme nunca é tratada como “tema especial”, e justamente por isso se torna tão poderosa. “León” fala sobre maternidade lésbica, pertencimento e reconhecimento familiar sem didatismo. O conflito não nasce da sexualidade das personagens, mas da estrutura social que ainda insiste em considerar certos vínculos como provisórios ou menos legítimos. O filme entende que a dor queer muitas vezes está nos detalhes burocráticos, nos silêncios institucionais, na ameaça constante de ter sua família invalidada.

O roteiro de Andi Nachón evita armadilhas ao construir personagens imperfeitos e contraditórios. Julia não é transformada em mártir, assim como os demais personagens não existem apenas para cumprir funções dramáticas. Até mesmo o pai ausente de León ganha contornos ambíguos, o que impede que a narrativa caia numa divisão simplista entre vilões e vítimas. Existe um cuidado em mostrar que o afeto pode coexistir com egoísmo, medo e ressentimento, especialmente quando todos estão tentando sobreviver ao mesmo vazio.

“León” aposta numa encenação discreta, quase intimista. A fotografia de Eric Elizondo privilegia espaços domésticos, cozinhas apertadas, corredores e mesas compartilhadas, transformando o restaurante do casal em símbolo dessa família em reconstrução. Os diretores compreendem que cozinhar, alimentar e dividir refeições são atos profundamente afetivos. O filme inteiro parece girar em torno dessa ideia: amar alguém também é aprender a sustentar sua presença mesmo depois da ausência.

Curotto e Nachón transformam uma história íntima em reflexão universal sobre perda, pertencimento e resistência afetiva. É um filme sobre continuar existindo quando a vida planejada desmorona, mas também sobre a insistência radical de chamar certas pessoas de família, mesmo quando o mundo tenta negar.