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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Tip Toe (Reino Unido, 2026)

 "Tip Toe" confirma que Russell T Davies continua sendo um dos cronistas mais inquietos da experiência queer contemporânea. A minissérie de cinco episódios abandona qualquer conforto nostálgico para mergulhar em um retrato feroz da Inglaterra atual, onde preconceitos antigos ganham novas formas através da desinformação digital. Ambientada em Manchester, a trama acompanha o choque entre Leo (Alan Cumming), dono de um bar na célebre Canal Street, e Clive (David Morrissey), um eletricista conservador cuja visão de mundo vai sendo contaminada por discursos de ódio cada vez mais normalizados.

A estrutura narrativa é um dos grandes diferenciais da série. Sem revelar detalhes decisivos da trama, basta dizer que a história se desenvolve em duas frentes temporais: um presente carregado de tensão e uma reconstrução gradual dos acontecimentos que levaram aqueles personagens até um ponto de ruptura. A direção de Peter Hoar encontra equilíbrio entre o suspense suburbano e o drama humano, transformando ruas aparentemente comuns em territórios de ansiedade constante.


O elenco é extraordinário. Alan Cumming entrega uma das melhores atuações de sua carreira como Leo, um homem espirituoso, vulnerável e cansado de perceber que batalhas que julgava vencidas precisam ser travadas novamente. David Morrissey, por sua vez, evita qualquer caricatura ao interpretar Clive, tornando ainda mais perturbador acompanhar sua trajetória.

"Tip Toe" é uma das produções mais relevantes do ano. Davies não quer somente celebrar a comunidade LGBTQIA+, mas discutir sua  fragilidade diante de um cenário social cada vez mais hostil. O bar de Leo funciona como espaço de acolhimento para diferentes identidades, incluindo personagens trans interpretados por Iz Hesketh e Shakeel Kimotho. Ao mesmo tempo, a série relembra a geração que sobreviveu à crise da AIDS, conectando aquelas lutas ao crescimento contemporâneo da homofobia e da transfobia

Embora trate de temas pesadíssimos, "Tip Toe" preserva o humor característico de Davies. Há momentos de afeto, ironia e humanidade que impedem a narrativa de se transformar em um exercício de desespero absoluto. A série também encontra espaço para discutir família, envelhecimento, masculinidade, relacionamentos e pertencimento.

Difícil assistir a "Tip Toe" sem sentir um nó no estômago. É uma obra que provoca, enfurece e entristece, mas que também reafirma a importância da arte como ferramenta de alerta. Davies não traz conforto emocional. Em vez disso, entrega uma série que encara de frente o medo, a intolerância e a fragilidade das conquistas sociais. O resultado é um thriller psicológico e político de enorme impacto, uma experiência angustiante que permanece ecoando muito depois do último episódio.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

A Very English Scandal(Reino Unido, 2018)

Hugh Grant mostra que pode surpreender. Ele é Jeremy Thorpe, a grande esperança dos liberais britânicos nos anos sessenta. Pequeno problema: ele era gay. E ele não tinha vergonha disso. Ele busca conscientemente o perigo e mexe com os limites do que pode e do que não pode ser feito.

Baseado no livro de não-ficção de John Preston "A Very English Scandal: Sex, Lies and a Murder Plot at the Heart of the Establishment", a minissérie, da BBC, de 3 episódios, é escrita pelo badalado showrunner Russell T. Davies e dirigida por Stephen Frears 


Inglaterra, no início dos anos 1960: A homossexualidade é um crime punível. No entanto, se você pertence ao establishment ou mesmo à elite do dinheiro e da educação, como o aspirante a político liberal Jeremy Thorpe, que frequentou as escolas e universidades certas, há uma sensação de privilégio universal que faz tudo parecer admissível.

Thorpe é gay, continua a viver como solteiro com sua mãe rígida Ursula (Patricia Hodge) e ocasionalmente se entrega a casos bastante desenfreados com homens abaixo de seu status. A impressão mais duradoura é deixada por Norman Scott (Ben Whishaw), um jovem de espírito livre por quem se apaixona e para quem escreve exuberantemente cartas arrebatadoras e faz todo tipo de promessas.


No entanto, quando Thorpe, em algum momento levemente entediado e também por conveniência política, rompe abruptamente a conexão, as coisas se desenvolvem em uma direção fatal.

As repetidas tentativas de Scott de entrar em contato com Thorpe podem ser vistas como ameaçadoras, comprometedoras e chantagem. Além disso, Scott cronicamente não consegue conciliar sua vida e está com problemas financeiros. Sua recusa em varrer o caso com Thorpe para debaixo do tapete também faz parte da estratégia de Scott, que ele mesmo está apenas meio ciente, para finalmente tirar todos esses segredos do armário.


Na conclusão opressivamente intensa do "drama real" sobre a ascensão e queda de um inglês exemplar, toda a arte de performance de Hugh Grant, que pode ser admirada mais uma vez: ele flerta com a imprensa e a câmera, faz caretas grotescamente ou deixa seu rosto congelar em uma máscara.


A Very English Scandal foi amplamente aclamada quando foi transmitida na Inglaterra, e por um bom motivo: a atração reformula uma época agora distante da história política britânica como uma elegante capa satírica.




segunda-feira, 13 de junho de 2022

Queer as Folk(EUA, 2022)


O evento catalisador e ponto de partida do novo Queer as Folk, icônica série idealizada por Russel T. Davies, realizado pela Peacock, é um ato de violência brutalmente inspirado em acontecimentos reais. No meio do primeiro episódio, um atirador, sem nome, entra em um clube gay, de Nova Orleans, chamado Babylon, e abre fogo contra a multidão. A maioria dos personagens principais está entre eles, e pelo resto da temporada, de oito episódios, eles vão lidar com sua culpa e tristeza persistentes, com os buracos que o fato deixou no centro de suas vidas.

Apesar desse horror inicial, vemos os personagens encontrarem alegria em momentos cotidianos, sejam chás de bebê, passeios pelo shopping, conexões íntimas e mais. O tom alterna entre tristeza e êxtase, mas os fãs dos originais podem ter certeza de que esta nova versão não perdeu nenhuma das risadas, sexo, frivolidade e essência.

A nova versão segue Brodie (Devin Way), um pedante, mas charmoso, de vinte e poucos anos, que retorna à sua cidade natal, Nova Orleans, depois de abandonar a faculdade de medicina, na esperança de reacender relacionamentos passados, como aquele com seu ex-namorado, Noah (Johnny Sibilly). No entanto, as coisas ficam complicadas quando é revelado que um dos melhores amigos de Brodie, Daddius (Chris Renfro), está ficando com Noah em sua ausência.


Enquanto assistimos a tensão desse triângulo amoroso, acompanhamos também as narrativas do irmão de Brodie, Julian (Ryan O'Connell), sua melhor amiga transgênero, Ruthie (Jesse James Keitel) e sua parceira, Shar (Candace Grace), além de um aspirante a estrela drag, de 17 anos, chamado Mingus (Fin Argus).


Drag Queens aparecem e encharcam a tela com um brilho neon. E personagens como Mingus são mais bem desenvolvidos em algumas áreas do que em outras, inclusive na relação com sua compreensiva mãe, Judy, aqui interpretada por Juliette Lewis. Além disso Kim Cattrall vive a mãe de Brodie e Julian.

Também há histórias sobre Ruthie, uma mulher trans, lutando com um desejo sexual em mudança que desafia seu senso de identidade. E sobre Mingus trabalhando com seus sentimentos contraditórios sobre voltar a ser drag depois que sua primeira apresentação foi interrompida pelo tiroteio. É também sobre os desafios particulares enfrentados no sexo por homens deficientes como Julian, Ryan O'Connell de Special, também roteirista e produtor executivo da atração, que tem leve paralisia cerebral, ou Marvin (Eric Graise), um cadeirante.


Aliando passado e presente, a trilha sonora traz nomes como Robin S., Le Tigre, Grimes, Lady Gaga, Gordi, Perfume Genius, Paramore, Yeah Yeah Yeahs, David Bowie, Sylvester, Moderat, Caveboy, entre outros.

O novo Queer as Folk parece muito mais fresco e mais abrangente  para toda a comunidade LGBTQIA+. É revigorante ouvir Ruthie falar abertamente sobre ser trans, ou ver Shar abordade com pronomes neutros sem que ninguém questione isso. Nesta versão, vemos personagens que são gays e negros, deficientes, gordos e muito mais. A atração celebra a diversidade oferecendo um enredo muito emocional. 


Stephen Dunn, que desenvolveu esta nova adaptação, trabalhou duro para não apenas referenciar o que havia antes, ou seja, um programa sobre como amizades e irmandades queer sobrevivem, mas para capturar seu espírito e retratá-lo em algo que pareça familiar, mas emocionantemente novo.


De alguma forma, Queer As Folk encontra maneiras cada vez mais deliciosas e delirantes de oferecer histórias espinhosas e arcos de personagens que se recusam a achatar ou homogeneizar a comunidade LGBTQIA+. Conversas francas sobre sexo, desejo pós-transição e a importância dos espaços de vida noturna gay estão ao lado de momentos lindos de arte drag, festas de sexo e protestos sombrios.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Years and Years(Reino Unido/EUA, 2019)



Contar a história do século XXI através dos anos. Essa é a premissa ambiciosa de Years and Years, uma das séries mais emocionalmente envolventes já feitas. O primeiro episódio começa em maio de 2019, e as parcelas subsequentes avançam profundamente na década de 2020, o suficiente para revelar que nossa história futura parece menos um arco em direção ao progresso do que um redemoinho de entropia. E embora Emma Thompson roube cenas como uma política nacionalista ambiciosa cuja ousadia e facilidade com os mecanismos da celebridade podem gerar comparações tanto com o britânico Boris Johnson quanto mais claramente com Donald Trump, não é a história dela.

A família Lyons é um grupo relativamente unido que tende para a classe média alta; na ausência de seu pai distante, o irmão mais velho Stephen (Rory Kinnear), um banqueiro, desempenha o papel de patriarca. Outros entre este grupo bem desenhado incluem sua esposa, Celeste (T'Nia Miller), seu irmão gay Daniel (Russell Tovey) e as irmãs Edith (Jessica Hynes) e Rosie (Ruth Madeley); vovó Muriel (Anne Reid), alheia à mudança, fica à margem da história como um lembrete de um passado cada vez menos reconhecível. Na casa ainda há a presença do Signor, uma inteligência artificial. Cada irmão interage com mudanças políticas crescentes de maneiras que seriam, em tempos normais, completamente cotidianas: Daniel trabalha em uma habitação para o governo, Edith é uma ativista de carreira e Rosie, que tem espinha bífida e é mãe solteira, trabalha em uma escola. Stephen parece pensar pouco em política, se é que pensa.


Mas a política tem uma maneira deselegante de se colocar na vanguarda das vidas, pelo menos neste momento e nos momentos que os anos preveem adiante. Daniel, casado e estável, apaixona-se por um refugiado ucraniano que foge de tortura homofóbica; Edith, protestando em uma ilha artificial construída pelos chineses, é pega em um ataque nuclear que ameaça encurtar significativamente sua vida útil. Rosie se vê presa na retórica de Vivienne Rook (Thompson), uma pessoa que vemos nos primeiros quatro episódios apenas como uma figura coberta pela mídia. E Stephen e Celeste enfrentam, primeiro, o desejo de sua filha de se tornar “transumana”, fundindo sua forma física com tecnologia e depois vicissitudes econômicas que destroem suas vidas estáveis ​​e revelam elementos de desconfiança e desprezo em meio aos destroços.

Quase todos os elementos, aqui, são transmitidos com entusiasmo e imaginação; embora Years and Years não seja ficção científica, por exemplo, as particularidades da jovem Bethany (Lydia West) se tornando uma peça de tecnologia viva é arrepiante e flerta direto com o universo de Black Mirror. A política interpretada por Thompson prega a maneira como seus políticos não são gentis, mas são infinitamente atraentes e até engraçados diante das câmeras, tão dispostos a descartar as premissas básicas pelas quais vivemos nossas vidas.

E o roteiro de Russell T. Davies aqui é consistentemente elegante e, melhor, ressonante. A questão-chave de nossos tempos, tão grande que exige ser dividida em várias outras menores, é como o indivíduo deve ou pode reagir a viver em meio a mudanças cada vez mais rápidas.


Years and Years retrata a ameaça do Brexit acelerar o ritmo de isolamento e mudança no Reino Unido; no mundo. Esse processo é ajudado por Rook e pelo caos financeiro global, levando a uma nação quebrada, de pessoas medrosas e desconfiadas lutando para sobreviver e manter os estados de espírito que tinham antes do mundo desabar.

Mas o que a série faz melhor é retratar o que não muda; mesmo após a agressão nuclear e a adoção do nacionalismo de extrema-direita e a aparente queda da Europa, os Lyones ainda se reúnem para aniversários e comemorações. Isso não é para ser caloroso, no entanto, é uma mensagem sobre o poder da família, mesmo em circunstâncias restritas. Os confortos da tradição são tudo o que temos para agarrar à medida que a grande narrativa de nosso tempo se desenrola. 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

It's a Sin(Reino Unido, 2021)


It’s a Sin
, série britânica do Channel 4 e distribuída internacionalmente pela HBO MAX, sobre a AIDS na Inglaterra, é brilhante, dolorosa e necessária. A produção, chega num momento muito oportuno. Em meio a uma pandemia que não escolhe sexo, classe ou religião é sempre bom relembrar um vírus que estigmatizou e vitimou a população LGBTQIA+.


Criado por Russel T. Davies, de Queer as Folk, a série de 5 episódios, se passa entre 1981 e 1991, período que a AIDS se expandiu na Europa, apresentando um cenário devastador. Apesar de inevitáveis comparações com Pose, aqui a abordagem é completamente diferente, e a linguagem da produção mais europeia.

Alguns amigos que saem de sua cidade natal vão morar juntos num apartamento, o Pink Palace. São eles, Ritchie(Olly Alexander), Roscoe(Omari Douglas), Mukherjee(Nathaniel Curtis), Colin(Callum Scott Howells) e a destemida Jill(Lydia West). O primeiro episódio da produção nos apresenta todos e é marcado pelo hino do OMD, Enola Gay.

La! É o cumprimento oficial dos moradores do Pink Palace. Os protagonistas de It’s a Sin amam tanto a vida que estão inclusive dispostos a morrer por ela. A série apresenta uma conexão única entre prazer e morte nas cenas de sexo, que não são nada tímidas.

Em 1984, quando já se fala em AIDS o temido “Câncer Gay”, o vírus começa a se espalhar por Londres, os amigos do flat entendem que aquela é uma nova realidade, e uma luta que terão que enfrentar, seja na militância ou numa cama de hospital, condenados pela sociedade.

Olly Alexander, que também é vocalista da banda Years & Years, com quem regravou o clássico It’s a Sin do Pet Shop Boys para a série, está impecável como Ritchie, e seus momentos com Jill, são simplesmente maravilhosos. Grandes momentos também tem a atriz veterana, Keeley Hawes, que interpreta sua mãe, Valerie.

Enquanto uns vão, outros ficam, e lutam. Jill se torna uma militante pelo direito dos soropositivos, além de oferecer o seu afeto em hospitais. Uma crítica à indústria farmacêutica também é feita e campanhas na TV e matérias pipocando nos jornais são relembrados, assim como o anticlímax causado pelo uso da camisinha.


A delicadeza e o realismo que o tema é tratado é impressionante, vemos os doentes sofrendo, mas também seus entes queridos que são brutalmente afetados pela patologia. Alguns números musicais, trazem beleza para a obra que adentra profundamente na noite londrina para aliviar a dor em meio a música e cor.

Um dos grandes atrativos da série é sua trilha sonora, que acaba fazendo parte da narrativa, com grandes hits dos anos 1980. Tem Soft Cell, Blondie, Erasure, Joy Division, Kim Wilde, Culture Club, Eurythmics, Kate Bush, Laura Branigan, Divine, é claro Pet Shop Boys, entre outros.

Difícil segurar a lágrimas diante de um retrato tão realista, comovente, triste e necessário do HIV e seu rastro de morte. A produção conta ainda com participações luxuosas de Neil Patrick Harris, no primeiro episódio, e do veterano Stephen Fry, de Wilde. It’s a Sin é um primor!