terça-feira, 8 de setembro de 2026

Amantes no Fim do Mundo - por Luiz Silva

Por Luiz Silva


Esse filme mostra que o relógio biológico nem sempre é utilizado para falar sobre gravidez, por ser em outras situações. E muitas delas negativas. “The Living End” (1992) de Gregg Araki é mencionado como uma resposta cinematográfica dura à pandemia de AIDS, nos EUA, nos anos 80 e 90. De tal forma que uma outra opção de título para este texto era "niilismo e tesão", pois são os principais assuntos que sustentam esta obra. A sensação de que o mundo pode acabar a qualquer momento e você puder transar loucamente. Não limitando o filme já que temos também um sobretom lindo de amizade na narrativa, mas transformar um relacionamento tóxico em um road movie pra mim grita liberdade e o desejo que o mundo se acabe.

Eu levei dois meses para chegar até este texto. Eu queria que fosse o meu segundo texto, mas esse filme me abalou tanto, mas tanto psicologicamente e emocionalmente que precisei de outros filmes como terapia para melhorar. Eu me via ali no papel mais jovem querendo aquele romance ao mesmo tempo de um paradoxo sentimental olhando com as lentes de alguém maduro e vendo que não era saudável.

Temos dois protagonistas, Jon e Luke. Começando a 100km/h somos introduzidos a Luke, o tesão da história. Sem profissão, sem endereço, sem família, sem destino. Ele é aquela pessoa sexy que faz qualquer roupa ou ação parecer descolado como grafitar, beber whisky de manhã, pedir carona sem camisa. Um personagem com nada a perder. Isso tudo sendo a personificação de tudo de estiloso e sexy que você pode imaginar um personagem num filme americano dos anos 90 na Califórnia. Após a introdução caótica dele temos Jon, um jornalista crítico de cinema com endereço, carro, roupas limpas, uma amiga praticamente anjo da guarda e um diagnóstico que abala ele, ele é HIV+. Já se conversava como ter o vírus da AIDS não era uma sentença de morte, mas isso não conforta o Jon de maneira alguma. Acho que há essa identificação com o Jon nisso. Quando nos tornamos adultos e temos problemas de adultos ouvimos de outras pessoas "vai passar/ isso é só uma fase/ vai dar tudo certo". Mas não conseguimos nos convencer disso, conformamos, mas somos melodicamente assombrados até a depressão. Jon representa a sensação que o mundo acabará mesmo, ele é o niilismo.

O amor deles é tão impactante que um entra na vida do outro como uma batida de carro, quase que literalmente. Daquele início poderia sair aquele clichê tão problemático de comédias românticas de hétero, o LOVE REDEEMS, ou Síndrome de Salvador. Aquela crença que amor é mais forte e substitui qualquer terapia para qualquer trauma na vida. Só que vale a reflexão, "quem é você para curar os outros?". Quem é a opção de trazer o amor pela vida ao Jon, o Luke? Quem é a melhor opção pra trazer rumo para o Luke, o Jon? Simplesmente não. Por isso o filme começa com a frase "um filme irresponsável de Gregg Araki".

Devido eventos no longa, temos uma mudança de cenário e vira um filme de estrada com o casal em diferentes locais. Carro do Jon, gasolina e comida pagas pelo Jon. A emoção volátil do Luke. Uma aventura muito sedutora. Jon fazendo uma loucura fora do mundinho quadrado dele que estava prestes a desabar e Luke tendo um companheiro fiel que se apaixonava aos poucos pelas loucuras dele. Chega ser até aquele amor inocente de adolescência que raramente tivemos. A AIDS deixa de ser um problema como no início do filme. Uma frase muito afiada do Luke é sobre a teoria de invadiram a Casa Branca e injetarem o sangue deles no Presidente, será que não correriam atrás de uma cura para o vírus o mais rápido possível? Talvez a aceitação também seja o que atraí Jon ao Luke, sendo ele mesmo HIV+ também. Toda a inconsequência acaba sobrando para o emocional da melhor amiga do Jon, a pobre da Darcy que vê que essa aventura é mais frágil do que imaginam.


Resumindo de maneira bem clara, Luke é um boy lixo. Positivismo tóxico, love bombing, manipulação emocional através da culpa, filosofia barata. Mas ele é tão lindo, rebelde e livre. Talvez pareça que o Jon seja apenas uma vítima ou um personagem patético, mas patético ele não é. Agora, infelizmente, ele se torna de uma vítima. E os últimos minutos desse filme me deixaram sem ar como nenhum filme conseguiu na vida.


Parece mesmo o fim do mundo. Um mundo construído tão rápido e sedutor para voltar à realidade dura e cruel. Ninguém cura o outro assim do nada e é muito presunção achar que apenas na base do amor isso acontecerá. Nós temos aquela gana por amor, aventura e liberdade, mas tudo acaba sendo tão alto, o preço e o choque de realidade. De qualquer maneira amei o filme e recomendo fortemente. E para acabar de uma maneira um pouquinho mais feliz e responsável, o fim do mundo pode aparecer de várias maneiras, mas dificilmente é, de fato, o fim do mundo.

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