"Yo no moriré de amor", de Marta Matute transforma uma experiência autobiográfica em um drama sobre cuidado, juventude e culpa que recusa a ideia de que amar alguém significa necessariamente desaparecer dentro de suas necessidades. Aos 18 anos, Claudia (Júlia Mascort) vê a doença de Alzheimer da mãe reorganizar violentamente a dinâmica familiar. A obrigação de cuidar passa a disputar espaço com aquilo que deveria constituir sua entrada na vida adulta: amizades, desejos, primeiros amores e a possibilidade de imaginar um futuro.
O mérito do filme está em não transformar Claudia em uma santa do cuidado nem em uma filha ingrata. Ela pode ser egoísta, impaciente, contraditória e até desagradável. Júlia Mascort sustenta essa instabilidade com uma atuação que recebeu a Biznaga de Prata de Melhor Atriz em Málaga, justamente em um filme cuja força nasce da recusa em tornar a personagem exemplar. A câmera permanece próxima de Claudia e acompanha a maneira como a doença da mãe interfere em sua passagem para a idade adulta.
O Alzheimer não funciona como mero mecanismo para produzir lágrimas. Matute está interessada na reorganização dos afetos provocada pela doença e, principalmente, na violência silenciosa de uma sociedade que naturaliza a transferência do cuidado para dentro da família. A diretora evita grandes explicações e trabalha com silêncios, olhares e situações domésticas que deixam a exaustão aparecer gradualmente. A crítica espanhola destacou justamente esse caráter íntimo, naturalista e desprovido de sentimentalismo fácil.
Claudia é uma jovem lésbica inserida em uma família e em uma situação de cuidado que já lhe impõem limites demais. Seu desejo funciona como parte de uma juventude que insiste em existir enquanto a doença ameaça ocupar todo o espaço disponível.
O título adquire então uma força particular. "Yo no moriré de amor" não é uma declaração contra o amor, mas contra a ideia romântica de que amar exige morrer para si mesma. A própria Matute contou que a frase nasceu de uma experiência pessoal e ganhou posteriormente um segundo sentido: quem cuida de alguém também precisa impedir que a própria vida seja interrompida. É nesse ponto que o filme encontra sua dimensão política mais contundente: Claudia não precisa escolher entre amar a mãe e desejar uma vida própria.
Premiada com a Biznaga de Ouro de Melhor Filme Espanhol no Festival de Málaga 2026, além dos prêmios para Mascort e Tomás del Estal, a estreia de Matute impressiona pela segurança com que transforma uma memória pessoal em experiência cinematográfica compartilhável. "Yo no moriré de amor" entende que cuidar pode ser uma forma de amor, mas também pode se converter em uma condenação quando toda a responsabilidade recai sobre quem ainda está tentando descobrir quem é.
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