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quarta-feira, 3 de junho de 2026

A Perdição de Lázaro (Brasil, 2026)

"A Perdição de Lázaro", novo curta de Diego Paulino, mergulha em uma experiência sensorial, política e contemporânea. Lázaro (Lucas Wickhaus) é um profissional de TI frustrado com os resultados da musculação e obcecado por alcançar um ideal físico inalcançável. Quando a tecnologia de reconhecimento facial de sua academia começa a falhar, ele passa a acordar diariamente com rostos diferentes,e pertencentes justamente aos homens que possuem os corpos que ele mais deseja. O que inicia como fantasia rapidamente se transforma em um pesadelo identitário sobre desejo, pertencimento e autodestruição.

Diego Paulino constrói uma obra que dialoga diretamente com o afrofuturismo, o horror corporal e a ficção científica queer. Cada enquadramento parece projetar um futuro possível onde algoritmos, bancos de dados biométricos e tecnologias de vigilância deixam de ser ferramentas e passam a moldar subjetividades. A academia BioNeural, com seu inquietante slogan "Ative o Modo Monstro", surge como uma espécie de templo contemporâneo da performance corporal, onde músculos substituem personalidade e a validação social se torna uma nova religião.

O curta encontra sua maior potência  ao explorar a tensão homoerótica que permeia os espaços de musculação. Paulino entende que academias são ambientes carregados de desejo, competição, comparação e fantasia. O treino deixa de ser apenas exercício físico para assumir contornos quase sexuais. Corpos negros musculosos ocupam a tela como objetos de admiração, cobiça e projeção. Ao mesmo tempo, o diretor questiona o preço dessa obsessão, expondo a fragilidade emocional escondida sob a superfície dos corpos considerados perfeitos.

Visualmente, "A Perdição de Lázaro" é hipnotizante. A fotografia, o desenho sonoro e a iluminação se fundem numa experiência quase lisérgica, transformando a jornada do protagonista em uma viagem que parece oscilar entre o sonho, o delírio e a ficção científica cósmica. A inserção de desenhos animados, imagens de arquivo e referências ao fisiculturismo clássico amplia ainda mais essa sensação de deslocamento temporal, como se Lázaro estivesse preso em um arquivo infinito de imagens produzidas para vender ideais de masculinidade.

A dimensão política da obra também merece destaque. Em um momento em que esteroides e substâncias para ganho de massa muscular se tornam cada vez mais acessíveis, enquanto casos de complicações e mortes ganham espaço nas manchetes, o filme assume uma relevância imediata. Paulino não faz uma crítica moralista, mas revela como a indústria do corpo perfeito se alimenta da insegurança, transformando vulnerabilidades em mercado. 

Além de uma ficção científica queer, "A Perdição de Lázaro" é uma reflexão sobre os limites da transformação pessoal. Seu protagonista busca esculpir o corpo perfeito, mas acaba perdendo a própria identidade no processo. Diego Paulino realiza um trabalho inventivo criando uma obra delirante, iconográfica e humana.


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

E Seu Corpo é Belo (Brasil, 2024)


"E Seu Corpo é Belo”, de Yuri Costa, é um curta que pulsa como um coração em brasa, vibrando entre terror, romance e musical. Ambientado nos bailes Black do subúrbio carioca nos anos 1970, o filme cria uma atmosfera hipnótica em que Carlos (João Pedro Oliveira) reencontra Tony (Paulo Guidelly). É um retorno tão íntimo quanto explosivo, marcado por mágoas antigas e por um desejo que insiste em sobreviver ao tempo. A narrativa, compacta, cria uma pequena cartografia afetiva de um período decisivo para a cultura Black brasileira, resgatando o espaço desses bailes como territórios de pertencimento e resistência.

A estética do filme é um mergulho direto no imaginário blaxploitation, evocando ícones como “Shaft” e “Foxy Brown” por meio da luz, do figurino e dos enquadramentos. É um cinema que carrega o corpo como afirmação cultural e política, ecoando também o afro-surrealismo que Yuri Costa mobiliza em sua filmografia. A trilha sonora reforça essa imersão com potência: Luiz Melodia em “Pérola Negra”, Milton Nascimento em “Pelo Amor de Deus” e Cassiano em “Onda” funcionam como guias emocionais que aproximam o público do calor e da melancolia desse universo. Nada é meramente decorativo, tudo é dramaturgia.


O filme abraça o terror como uma metáfora de fúria e ferida. Não se trata de monstros tradicionais, mas de espectros emocionais que se acumulam em corpos negros e queer historicamente marcados pelo apagamento. Ao transformar mágoa afetiva em atmosfera de horror, Costa se alinha a tradições politizadas do cinema negro, aproximando-se de obras de Marlon Riggs na forma como convoca estética e política como uma mesma força. O medo aqui é uma linguagem para tensões que nunca foram nomeadas, mas sempre estiveram presentes na experiência dessas comunidades.


A dimensão queer é estruturante e irredutível. O reencontro entre Carlos e Tony não é apenas uma história de amor interrompido, mas uma reencenação da violência simbólica que cerca corpos dissidentes dentro da própria cultura Black da época. O curta cria um romance que nunca escorrega para o melodrama fácil, priorizando camadas de desejo, culpa e sobrevivência.


O elenco sustenta essa densidade com força. João Pedro Oliveira constrói um Carlos inquieto, preso entre orgulho e ferida, enquanto Paulo Guidelly dá a Tony uma mistura de charme e melancolia, compondo um personagem dividido entre o que viveu e o que teme revisitar. Dandara Lorena, em participação de apoio, amplia o universo musical e espiritual que envolve a narrativa.


“E Seu Corpo é Belo” condensa em 24 minutos uma estética vibrante, uma crítica social contundente e um gesto de memória que devolve centralidade à vivência Black e queer. É um curta que afirma beleza como resistência e terror como linguagem política, criando uma obra que ecoa muito depois de suas últimas imagens.


sexta-feira, 28 de abril de 2023

Neptune Frost(Ruanda/França/Canadá/EUA, 2021)

Em uma sociedade na Ruanda futurista, Neptune (Elvis Ngabo e Cheryl Isheja), um hacker intersexo, se apaixona por um mineiro coltan fugitivo, Matalusa (Bertrand Ninteretse), apesar de não se encontrarem fisicamente. O amor deles de alguma forma ameaça "A Autoridade" que Neptune se rebela. Com a ajuda de Matalusa, eles iniciam uma revolta contra "A Autoridade".

Neptune Frost, de Saul Williams, combina ficção científica, comentários sociais, romance, tecnologia, ação e musical de uma forma que parece que poderia ter se tornado uma bagunça exagerada e anárquica. Há uma leve sensação de anarquia porque o gênero do filme se dobra, mas não, não há sinal de exagero ou irregularidade.

O filme usa muitas metáforas sem explicá-las demais para o público, então Williams e a codiretora Anisia Uzeyman confiam na inteligência dos espectadores enquanto deixam espaço suficiente para a interpretação. 


Neptune Frost não é realmente uma história de amor. É difícil categorizar o que torna tudo único e extraordinário. Preste atenção nas letras das músicas durante os números musicais porque elas são bastante profundas.


Esteticamente, Neptune Frost é um triunfo. A cenografia, a iluminação, o trabalho de câmera, o figurino e o design de maquiagem combinam-se para criar um espetáculo deslumbrante e afrofuturístico.

A veia poética percorre tudo. A música, por sua vez, é diversa, desde as tradicionais batidas africanas até o rap moderno e encontra força no ritmo e na repetição. Cânticos dos mineiros ou linhas de diálogo são repetidos à medida que forjam novas conexões, convidando aqueles que seguem o fluxo a abrir suas mentes para as possibilidades.