quinta-feira, 4 de junho de 2026

Criadas (Brasil, 2025)

 “Criadas”, primeiro longa-metragem de ficção de Carol Rodrigues, é uma obra assombrada por fantasmas que nunca deixaram de existir. O filme acompanha o reencontro de Sandra (Mawusi Tulani) e Mariana (Ana Flavia Cavalcanti), primas que cresceram sob o mesmo teto, mas jamais em condições de igualdade. Quando Sandra retorna à antiga casa da família em busca de uma fotografia de sua mãe, que trabalhou ali como empregada doméstica residente, o passado ressurge com uma força quase sobrenatural. O reencontro das duas desencadeia um acerto de contas íntimo entre memória, afeto e violência estrutural.

Carol Rodrigues demonstra enorme controle ao combinar drama psicológico, realismo fantástico e horror subjetivo. A casa onde grande parte da narrativa se desenrola não funciona apenas como cenário, mas como um organismo vivo que acumula silêncios, ressentimentos e segredos. As paredes parecem guardar marcas invisíveis de uma estrutura social profundamente brasileira, onde relações familiares e relações de trabalho frequentemente se confundem. 

O maior mérito de “Criadas” está na forma como aborda racismo e desigualdade sem recorrer ao didatismo. Sandra e Mariana compartilham uma ancestralidade comum, mas suas trajetórias foram moldadas por experiências radicalmente distintas dentro da mesma casa.

A representatividade queer surge integrada ao tecido emocional da narrativa. Mariana é uma mulher lésbica e o filme incorpora sua sexualidade.  Além disso, a trama sugere desejos, afetos e vínculos que escapam das definições convencionais, ampliando a complexidade dos relacionamentos apresentados. Como uma cineasta negra e queer, Carol Rodrigues observa essas identidades de maneira interseccional, entendendo que raça, gênero, sexualidade e classe operam simultaneamente na construção das experiências de suas personagens.


As atuações de Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti sustentam toda a densidade dramática da obra. Não por acaso, ambas receberam o prêmio de Melhor Atriz na mostra Novos Rumos do Festival do Rio. Existe uma química delicada entre as duas intérpretes, construída tanto através dos diálogos quanto dos silêncios.

Apoiado pela fotografia de Julia Zakia e por uma encenação que flerta constantemente com o sobrenatural, “Criadas” transforma traumas históricos em imagens concretas. Fantasmas da infância, da ancestralidade e da própria formação social brasileira atravessam a narrativa sem jamais parecerem meros recursos alegóricos. Carol Rodrigues entrega um filme ambicioso, sensível e politicamente relevante, capaz de discutir memória, pertencimento e herança racial.

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