terça-feira, 1 de setembro de 2026

Call me Mother (Filipinas, 2025)

Há uma armadilha evidente no título de “Call Me Mother”: a expectativa de que Jun Robles Lana transforme a maternidade queer em uma lição edificante, cuidadosamente desenhada para comover plateias. O filme até flerta com esse território, especialmente por sua estrutura melodramática, mas encontra força justamente quando torna a pergunta mais incômoda: quem tem o direito de ser chamado de mãe? Twinkle, personagem de Vice Ganda, criou Angelo (Lucas Andalio) desde pequeno e tenta formalizar legalmente sua adoção. O retorno de Mara (Nadine Lustre), mãe biológica do garoto e uma mulher que abandonou a maternidade para perseguir os próprios sonhos, desloca essa relação para um terreno onde amor, culpa, posse e sacrifício deixam de ter respostas fáceis.

Twinkle é uma figura especialmente interessante porque o filme não separa sua identidade queer de sua experiência como mãe. Ex-treinadora de concursos de beleza, ela carrega consigo uma teatralidade camp, uma relação íntima com a performance e o humor característico de Vice Ganda. Mas “Call Me Mother” não usa essa persona apenas como alívio cômico. O humor continua presente, mas deixa de interromper a emoção para se tornar parte da personalidade da personagem. 

Ex-rainha de concursos de beleza e agora modelo de alta moda, Mara também é uma mulher que pagou um preço por escolher a própria vida. O filme não a absolve completamente, mas também não exige que o público a odeie para amar Twinkle. Essa é uma das tensões mais interessantes de “Call Me Mother”: duas mulheres, uma queer e outra biológica, disputam não apenas a guarda de Angelo, mas duas ideias radicalmente diferentes sobre o que significa colocar alguém acima de si mesma. Lustre sustenta essa ambiguidade com uma atuação menos ostensiva, funcionando como contrapeso para a intensidade emocional de Vice.

O universo dos concursos de beleza também tem uma função importante na linguagem do filme. Jun Robles Lana conhece o potencial camp desse imaginário e sabe como explorar o brilho, os excessos e a teatralidade sem transformar “Call Me Mother” numa simples paródia. Há uma ligação histórica entre a cultura dos pageants e as comunidades LGBTQIA+ nas Filipinas, e o filme utiliza esse repertório para situar Twinkle em um espaço onde feminilidade e performance sempre foram negociadas. 

É nessa passagem entre o camp e o melodrama que “Call Me Mother” encontra sua identidade. O filme não abandona completamente algumas convenções sentimentais, em determinados momentos, confia demais na emoção que sua própria premissa naturalmente produz , mas a sinceridade das interpretações impede que tudo se transforme em manipulação. No fundo, Jun Robles Lana está interessado em uma ideia simples, mas politicamente poderosa: família não é uma estrutura garantida pelo sangue, e maternidade não pertence a um gênero.


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