quinta-feira, 4 de junho de 2026

Skiff (Bélgica, 2025)

“Skiff”, da diretora belga Cecilia Verheyden, é um delicado drama de formação que segue Malou (Femke Vanhove), uma adolescente de 15 anos que vive em uma pequena cidade flamenga, divide os dias entre a escola e o remo competitivo, enquanto tenta compreender seus sentimentos. Quando conhece Nouria (Lina Miftah), namorada de seu irmão Max (Wout Vleugels), algo muda de forma irreversível.

O roteiro, escrito em parceria com Vincent Vanneste, prefere os silêncios, os olhares e os pequenos gestos. Malou é uma personagem constantemente deslocada: sofre bullying no clube de remo, evita os vestiários e encontra refúgio apenas na água, onde pode remar sozinha e escapar das pressões do mundo exterior. Essa sensação de inadequação atravessa todo o filme e faz com que cada descoberta emocional carregue um peso genuíno.

A fotografia, de Jordan Vanschel, aposta em luz natural e tons quentes que contrastam com o turbilhão interno da protagonista. O verão flamengo ganha contornos transformando rios, margens e paisagens suburbanas em extensões do estado emocional de Malou. Há uma elegância discreta na encenação, reforçada pela montagem de Thomas Pooters, que mantém o ritmo íntimo sem jamais perder o envolvimento do espectador.


O filme não apresenta a Bélgica contemporânea como um paraíso da aceitação, mas reconhece que crescer queer continua sendo uma experiência atravessada por inseguranças, medos e constrangimentos. A paixão de Malou por Nouria surge de maneira natural, sem transformar sua orientação sexual em um problema. O conflito está menos no desejo em si e mais na dificuldade de expressá-lo em uma comunidade pequena, onde o julgamento alheio permanece uma presença constante.

Grande parte do impacto emocional do longa vem da atuação extraordinária de Femke Vanhove. A jovem atriz constrói uma protagonista complexa, capaz de alternar entre a fragilidade e obstinação em uma mesma cena. Sua química com Lina Miftah é sutil, baseada em aproximações graduais e emoções contidas. 

“Skiff” não reinventa o gênero coming-of-age, mas encontra beleza na honestidade com que retrata a adolescência. Cecilia Verheyden compreende que crescer é aceitar contradições, perder ilusões e descobrir partes de si que nem sempre agradam aos outros. O resultado é um filme delicado e sensível que transforma uma história de primeiro amor em uma reflexão universal sobre a coragem de existir exatamente como se é.

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