por Luiz Silva
No ano de 2010 um curta-metragem de dezessete minutos foi postado no Youtube com o nome de “HOJE EU NÃO QUERO VOLTAR SOZINHO”. No curta temos como protagonista Leonardo (Guilherme Lobo), um jovem estudante cego que tem uma vida comum que se
resume basicamente à vida escolar. Na sua turma ele tem uma melhor amiga chamada Giovana (Tess Amorim) com quem além da escola, tem uma amizade de longa data e com quem ele faz o caminho de volta para casa. Leonardo sabe se locomover usando sua bengala, mas conta com a ajuda da amiga. Na história temos a introdução de um aluno novo, Gabriel (Fábio Audi). Em um jogo de câmera muito bonito com o uso do desfoque percebemos quando Gabriel entra na vida de Leonardo através de sua audição. Nos próximos minutos nós vemos como a amizade entre Leonardo e Giovana vai cedendo espaço para Gabriel e um amor inesperado entre os dois meninos floresce.
Quando esse projeto foi lançado, eu tinha a mesma idade que os personagens e minha memória me diz como esse curta-metragem foi comentado na época. Era uma época de abertura maior para narrativas LGBT+ dentro da indústria brasileira e um romance entre dois meninos se tornou um grande assunto naqueles primórdios de redes sociais que tínhamos em 2010. Se a minha memória não estiver me pregando peças, creio que assisti na época, porém, nunca tinha visto o que viria depois e por vontade própria.
Até aqui não consegui definir se esta coluna é sobre resenhas ou apenas relatos pessoais. Seguindo a estrutura textual para uma resenha, com certeza isso não é uma resenha, então posso dizer que tive a liberdade de escrever relatos pessoais através de filmes LGBT+ e
aqui estamos. Falei sobre apenas filmes estadunidenses, mas ainda nenhum nacional. Senti a necessidade disso então escolhi este filme. OBVIAMENTE não é o primeiro filme queer da história do Brasil, longe disso. Mas um dos mais relevantes em tempos contemporâneos. Tanto que a continuação do projeto veio em 2014 e o objeto da nossa conversa aqui, o filme de Daniel Ribeiro veio daquele curta-metragem feito por ele mesmo também, “HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO”.
Eu não sei dizer se tinha medo de encarar uma possibilidade, e em razão disso não tinha assistido o filme ainda. Sabem quando fazemos promessas bobas para nós mesmos? Promessas que nós temos noção do quão bobas são? Eu informalmente no meu subconsciente tinha prometido pra mim mesmo que assistiria esse filme acompanhado de um namorado. O que nunca aconteceu. Talvez fosse a ignorância de achar que seria o único romance gay do mundo. Ou talvez um aceno ao Luiz do ensino médio que sonhava em namorar igual os personagens do curta-metragem. Ou talvez até inveja dos personagens. Talvez fosse a constatação que nunca viveria aquilo. De qualquer maneira, nenhum namoro, nem mesmo adulto, foi muito pra frente. E nunca tive quando adolescente.
Existem estudos sobre os efeitos de um relacionamento romântico na adolescência de uma pessoas LGBT+ e recentemente vi nas redes sociais mais conversas sobre a falta daquele romance na adolescência. Nós fomos privados da experiência de um amor inocente por preconceito. Eu mesmo não tinha referências LGBT+ na adolescência como as próximas teriam. Romance então, no máximo tinha "O Segredo de Brokeback Mountain" como expliquei no meu primeiro texto aqui. Esse filme é aquele romance água com açúcar que nós achávamos que teríamos como os héteros e isso talvez seja o motivo da minha distância. Ser lembrado do amor que nunca chegou.
O diretor e roteirista de ambos os projetos disse que queria uma história que nascesse naturalmente sem muitas amarras. Além da escolha (que eu gosto e acho importante) de abraçar minorias pouco representadas na grande mídia, a cegueira do protagonista consegue sutilmente mostrar no filme como o sentimento dele por Gabriel é orgânico, puro e gradual. E aqui podemos traçar a diferença do curta- metragem para o longa-metragem. O primeiro fala sobre aquele amor inofensivo entre pessoas, mas ofensivo para o mundo. O longa não podia contar a mesma história, daí a diferença dos títulos. “Eu Não Quero Voltar Sozinho” fala sobre um empecilho que impede Giovana de acompanhar Leonardo para casa e Gabriel substitui ela. “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” conta a trajetória de Leonardo e sua busca por independência. Há uma construção linda do romance entre os adolescentes, mas focamos em como Leonardo quer se desprender de tudo que impuseram a ele devido sua cegueira. Isso fala com o Luiz adulto de 2026. As mensagens desse filme atravessam anos e experiências que não cessam. Não temos melodrama, algo que Daniel Ribeiro expressou que queria evitar. Temos sim o bullying, entretanto, não beira a representação enérgica que esperaríamos. Eu vi alguém que passou na minha, e infelizmente ainda vive na minha memória, naqueles personagens. Protagonistas, coadjuvantes e vilões. Além de experiências comuns que imagino outros podem lembrar, até mesmo aqueles de outros países.
Preciso falar das atuações. Todo mundo está bem nesse filme. O filme não exige uma enorme variação de emoções dos personagens (longe demais de ser algum demérito), todo elenco está bem. O elenco juvenil principalmente sendo um projeto grande e com significado emocional para o público. Mas Guilherme Lobo deve ser destacado por sua atuação como Leonardo e como a entonação da voz e diferentes expressões faciais auxiliam na construção do personagem e transmissão dos sentimentos. Daniel Ribeiro escreveu um roteiro que reproduz experiências comuns a todos nós e traz uma direção que comunica a importância da audição muito através de enquadramentos e desfoques milimétricos.
A ideia do que é um romance entre adultos nos foi alimentada desde jovens de uma maneira heteronormativa que na prática não nos reflete muito. Todavia, aquele início de um sentimento romântico consegue ser limitado para nós. Eles apresentam namoradas(os), nós apresentamos amigos. O primeiro beijo deles foi inocente, os nossos foram adultos. Eles iam para encontros românticos, nós íamos para encontros românticos disfarçados de passeios entre amigos. Desculpa se foquei mais no lado romântico do filme e não falei sobre a experiência de alguém com deficiência no filme suficientemente. Acho que na realidade vi o Leonardo como qualquer outro personagem em qualquer outro filme, mas realmente a ideia do amor puro, jovem, talvez bobo até que nunca chegou foi o que se destacou na minha narrativa. Fica aqui a recomendação de um filme do amor que muitos não tiveram a oportunidade de viver.
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