terça-feira, 2 de junho de 2026

Erupcja (EUA, 2025)

“Erupcja”, de Pete Ohs, filmado na Polônia e estrelado por Charli XCX e Lena Góra, segue a Bethany, uma turista inglesa presa em Varsóvia após uma erupção vulcânica interromper sua viagem romântica com o namorado Rob. O imprevisto a leva de volta ao encontro de Nel (Will Maden), uma antiga paixão, reacendendo sentimentos que pareciam adormecidos. A partir dessa premissa quase absurda, Pete Ohs constrói uma delicada história sobre reencontros, desejo e a incapacidade de seguir roteiros afetivos pré-estabelecidos.

O que poderia ser apenas mais um romance sáfico independente ganha personalidade graças à maneira como Ohs transforma Varsóvia em um organismo vivo. Ruas, bares, apartamentos e vielas tornam-se extensões emocionais dos personagens. Há algo de cinema de passeio, de deriva romântica, que remete tanto à Nouvelle Vague quanto ao mumblecore norte-americano. A câmera acompanha os encontros e desencontros com espontaneidade, como se estivéssemos observando fragmentos de vidas reais capturados por acaso.


O relacionamento entre Bethany e Nel não é tratado como uma questão a ser explicada, mas como um sentimento que simplesmente existe. Aqui, o conflito está na dúvida, na nostalgia e nas escolhas que fazemos quando percebemos que talvez estejamos vivendo a vida errada.

Há também uma dimensão poética que atravessa a narrativa. A ideia recorrente de que vulcões entram em erupção sempre que Bethany e Nel se reencontram funciona simultaneamente como piada, superstição e metáfora. Ohs brinca com a noção de destino sem nunca abraçá-la completamente. Seus personagens parecem acreditar em sinais cósmicos.

As atuações ajudam a sustentar esse delicado equilíbrio entre humor e melancolia. Charli XCX, que vem buscado terreno na carreira de atriz, leva para a tela parte da persona inquieta e impulsiva que a tornou uma figura central da cultura pop contemporânea, enquanto Lena Góra oferece à Nel uma serenidade aparente que esconde frustrações profundas. 

“Erupcja”  transforma um romance queer em uma reflexão universal sobre possibilidades perdidas, amores que permanecem suspensos no tempo e a estranha sensação de que algumas pessoas entram em nossas vidas para provocar pequenas erupções permanentes. Leve, melancólico e encantadoramente imperfeito.


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