domingo, 6 de setembro de 2026

At the Place of Ghosts (Canadá/Bélgica, 2025)

Bretten Hannam, que já realizou "Wildhood", transforma uma história de fantasmas em uma investigação sobre aquilo que permanece quando a infância termina, mas a violência não. Mise'l (Blake Alec Miranda) e Antle (Forrest Goodluck), irmãos Mi'kmaq que foram inseparáveis quando crianças, se afastam na vida adulta depois de uma criação marcada pelo trauma. Quando uma presença sobrenatural volta a persegui-los, os dois precisam retornar à floresta de Sk+te'kmujue'katik, um lugar onde passado, presente e futuro deixam de obedecer à linearidade convencional. 

O terror de Hannam nasce dessa ruptura temporal. Na floresta, os irmãos encontram versões infantis de si mesmos, antepassados, figuras ligadas à colonização e até imagens de um futuro possível. O fantástico deixa de ser uma camada decorativa para materializar aquilo que a memória não consegue sepultar. A própria ideia de tempo cíclico, permite que o trauma seja percebido como algo que retorna, atravessa gerações e continua interferindo nas possibilidades de futuro. 


Essa perspectiva ganha uma dimensão especialmente forte porque o diretor é uma pessoa Two-Spirit L'nu e constrói o filme a partir de uma relação específica com território, ancestralidade e identidade. Mise'l é queer e sua experiência não aparece separada do restante de sua história: a violência familiar, a distância do irmão e a necessidade de encontrar um lugar para existir estão conectadas.  Hannam enfatiza justamente a permanência das pessoas Two-Spirit dentro das comunidades indígenas, rejeitando a ideia de que suas existências sejam uma novidade importada ou uma ruptura com a tradição. 


A relação entre Mise'l e Antle funciona como centro emocional de um filme povoado por espíritos, deslocamentos temporais e imagens fantásticas. Existe ressentimento, mas também uma intimidade anterior à palavra, perceptível na maneira como os irmãos continuam ligados apesar dos anos de afastamento. É essa relação que impede que a floresta seja apenas um labirinto alegórico: ela se transforma no espaço onde dois homens precisam reaprender a reconhecer um ao outro. 


A fotografia de Guy Godfree explora as paisagens da Nova Escócia como um espaço simultaneamente concreto e sobrenatural, enquanto a trilha de Jeremy Dutcher e Devon Bate prolonga a sensação de que existe alguma coisa observando os personagens para além do campo visível. O filme aposta em atmosfera, silêncio e deslocamento, evitando depender de sustos convencionais.


O filme pode ser classificado como thriller sobrenatural, horror folk, fantasia ou drama, mas nenhuma dessas categorias dá conta completamente de sua proposta. Sua matéria essencial é a memória: a memória de uma família, de uma comunidade, de uma violência e de uma identidade que sobrevive às tentativas de apagamento. Hannam faz do fantasma uma presença concreta e, ao mesmo tempo, uma metáfora para aquilo que não desaparece simplesmente porque alguém decidiu não falar sobre isso.



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