segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Mass State Lotery (EUA, 2025)

"Mass State Lottery", de Jay Karales, transforma o noir policial em uma experiência de paranoia digital, humor ácido e violência sexualizada. Karales interpreta Richard Rathke, um investigador particular decadente que aceita investigar o desaparecimento de Justin Amari e acaba seguindo os rastros do chamado Charles River Killer. A investigação o conduz por uma Boston subterrânea de fóruns, aplicativos, true crime, identidades falsas e personagens que parecem ter atravessado a fronteira entre a vida real e algum canto particularmente tóxico da internet. 

O primeiro impacto de "Mass State Lottery" vem da forma. O filme acumula cortes abruptos, diferentes proporções de tela, alterações de textura e gradação, imagens de computadores, caixas de diálogo e uma trilha que frequentemente parece querer atropelar a narrativa. O resultado é uma espécie de noir contaminado pela cultura da internet: a investigação deixa de avançar em linha reta e passa a funcionar como uma sequência de abas abertas simultaneamente. 

A desorientação não é gratuita. Rathke é um protagonista comprometido: manipula uma mãe enlutada para conseguir avançar na investigação, mente, invade vidas alheias e parece incapaz de estabelecer qualquer relação sem algum grau de controle. O próprio filme coloca seu investigador e o assassino em uma proximidade moral desconfortável

A representatividade queer do filme se torna particularmente estranha. O terceiro ato leva a investigação para uma relação entre homens marcada por perseguição, violência, desejo e possibilidade de assassinato, aproximando o filme do imaginário de "Cruising", de William Friedkin. A questão não é simplesmente reconhecer uma representação, mas observar como Karales coloca o desejo masculino dentro da mesma engrenagem de paranoia, fetiche e violência que organiza todo o filme. 

Por trás de toda essa sujeira formal existe ainda uma produção radicalmente independente. Buddy Duress aparece em seu último trabalho cinematográfico, interpretando Ivan Amari; o filme é dedicado a ele. Essa precariedade não é escondida: ela aparece nas variações de som, nas soluções digitais e na própria montagem, mas também produz uma liberdade que dificilmente sobreviveria a uma produção mais convencional.


"Mass State Lottery" reúne noir, true crime, comédia grotesca, horror queer e cultura de internet até que as fronteiras entre investigação e obsessão desapareçam. A narrativa pode se perder no próprio labirinto, e algumas subtramas parecem deliberadamente abandonadas pelo caminho.  Mas existe coerência nessa desordem: o mundo de Rathke também é feito de informações incompletas, desejos mal elaborados, identidades inventadas e relações que rapidamente se tornam ameaças.

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