“As Lunáticas”, primeira série de ficção de Henrique Arruda, explode em humor afeto, humor e memória queer. Construída em formato de falso documentário, a produção acompanha o retorno de uma banda fictícia dos anos 1980 que, quatro décadas após seu único sucesso, tenta reencontrar espaço em um mundo dominado por algoritmos, influenciadores e dancinhas virais. O resultado é uma comédia delirante que parece nascer de uma batida improvável entre a nave da Xuxa e o Bar da Buchada, universo onde o kitsch, o camp e a cultura popular nordestina coexistem em perfeita harmonia.
A premissa é e irresistível. Sharlene Summer (Sharlene Esse), Raquel Simpson (Raquel Simpson), Suelanny Sybernética (Suelanny Tigresa) e Pérola Patrícia(Pérola Saymon) são convocadas pelo empresário Gilberto Carreiras (Gilberto Brito) para uma tentativa desesperada de retorno. Perdidas entre streamings, patrocinadores e criadores de conteúdo, as artistas precisam aprender a sobreviver em um mercado completamente diferente daquele que conheceram. Com episódios curtos, de cerca de quinze minutos, a série encontra ritmo justamente na sucessão de situações absurdas, constrangimentos e conflitos internos entre divas que mal conseguem se suportar.
Henrique Arruda transforma o choque entre passado e presente em sua principal fonte de humor. A série passeia com desenvoltura pelo desgaste das fitas VHS, pelos programas de auditório dos anos 1980, pela estética synthpop e pelas referências às Frenéticas, ao mesmo tempo em que mergulha no universo dos youtubers e criadores de conteúdo. Personagens como Safira (Matheus Ferreyra) e Ruby (Ruby Nox ganhadora de Drag Race Brasil), no fictício “Viralizou Viado”, ajudam a construir uma ponte divertida entre gerações, revelando como a cultura queer se reinventa sem abandonar completamente suas raízes.
Mas por trás das gargalhadas, da sátira e dos fantoches com nome de tarja preta existe algo mais profundo. “As Lunáticas” é também uma obra sobre pertencimento, envelhecimento e permanência. Suas protagonistas são artistas trans e travestis inspiradas em trajetórias reais da cena noturna recifense, mulheres que ajudaram a construir espaços de resistência muito antes de qualquer reconhecimento institucional. Quando Pérola Patrícia dispara a frase “o juiz me considerou louca”, a série deixa escapar uma camada de dor histórica que nunca está distante do humor.
O hit atemporal “Amor do Futuro” gruda na cabeça, enquanto o peso de Gilberto Brito, em seu último papel, confere ao projeto uma dimensão ainda mais emocionante. Sua presença acaba funcionando como uma espécie de despedida afetiva para uma figura fundamental da cultura pernambucana. O mesmo vale para Pérola Saymon, que nos deixou muito recentemente, e na série entrega alguns dos momentos mais engraçados, ela é a rainha dos memes.
Ao final dos cinco episódios, “As Lunáticas” deixa a sensação de ter assistido não apenas a uma comédia, mas a uma celebração da memória queer nordestina. Henrique Arruda em seu universo particular compreende que o humor pode ser uma poderosa ferramenta de preservação e afeto. Entre hits espaciais, figurinos extravagantes, referências televisivas e situações completamente absurdas, a série constrói um retrato amoroso de artistas que se recusam a desaparecer. A série será exibida na íntegra em uma sessão Especial no famoso Cinema São Luiz, em Recife, no dia 20 de junho com participação da equipe e elenco.
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