Gala del Sol estreia em “Llueve sobre Babel” com uma obra que parece ter escapado de um sonho febril, ou de uma pista de dança entre a vida e a morte. Inspirado livremente em “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, o longa transforma um decadente bar de Cali, na Colômbia, em uma espécie de purgatório tropical onde almas apostam anos de suas vidas contra a própria Morte. Entre realismo mágico, fantasia, humor ácido e melodrama queer, a diretora constrói um universo singular, tão excessivo quanto fascinante.
Gala del Sol define sua estética como “trópico-punk retrofuturista”, e cada plano parece abraçar essa proposta sem medo do exagero. Neons, fumaça, suor, figurinos camp, elementos steampunk e uma fotografia vibrante, de Sten Tadashi Olson, criam uma atmosfera que oscila entre o cabaré, o sci-fi e o folclore latino-americano. O resultado é um espetáculo visual que frequentemente coloca a experiência sensorial acima da lógica narrativa.
Mas por trás da exuberância estética existe um filme profundamente interessado em personagens à margem. Drag queens, fantasmas, amantes, músicos, andarilhos e figuras deslocadas ocupam o centro da narrativa, existe até um certo diálogo com "Anhell69" (2022), de Theo Montoya. O Babel do título funciona como um refúgio para identidades dissidentes, um espaço onde desejo, culpa, amor e morte coexistem sem hierarquias.
“Llueve sobre Babel” filma corpos, afetos e performances com liberdade absoluta, recusando qualquer necessidade de explicação ou justificativa. O filme entende a comunidade LGBTQIA+ como parte orgânica de seu universo fantástico, abordando temas como autoaceitação, homofobia, desejo e pertencimento sem perder o tom lúdico. Há algo profundamente libertador na forma como Gala del Sol transforma o inferno dantesco em um carnaval de diversidades sexuais e afetivas.
Nem tudo funciona com a mesma intensidade. A estrutura coral, repleta de personagens e subtramas, por vezes ameaça se perder dentro do próprio labirinto que constrói. Algumas histórias recebem mais atenção do que outras, enquanto certas passagens parecem existir apenas para alimentar a estética fantástica. Ainda assim, mesmo quando a narrativa vacila, a energia criativa da direção impede que o interesse desapareça.
“Llueve sobre Babel” prefere correr o risco do excesso ao conforto da previsibilidade. Entre a fantasia tropical, o melodrama queer, a comédia ácida e a reflexão sobre mortalidade, Gala del Sol entrega uma estreia ousada, delirante e absolutamente autoral. É um filme que dança com a morte, mas sem jamais perder o prazer de estar vivo, transformando Cali em um território onde o impossível não apenas existe, mas pulsa ao ritmo de salsa, neon e a imersão na resistência.
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