segunda-feira, 1 de junho de 2026

León (Argentina, 2023)

 “León”, de Papu Curotto e Andi Nachón, parte de uma premissa emocionalmente devastadora: Julia (Carla Crespo) precisa reconstruir a própria vida após a morte repentina de sua companheira Barbi (Antonella Saldicco). Em meio ao luto, ela tenta manter funcionando o restaurante que as duas administravam juntas e, principalmente, preservar o vínculo com León (Lorenzo Crespo), o filho que criaram como família. Mas a ausência da mãe biológica transforma tudo em disputa, reabrindo feridas familiares e expondo a fragilidade jurídica e afetiva de muitas famílias queer.

Em vez de transformar o drama em grandes explosões melodramáticas, Curotto e Nachón preferem os silêncios, os olhares cansados, os pequenos gestos de carinho interrompidos pelo peso da perda. Há algo profundamente humano na maneira como “León” retrata o luto: ele não surge como catarse cinematográfica, mas como uma sensação contínua de deslocamento, como se Julia estivesse tentando reaprender a existir dentro de uma rotina que perdeu seu centro emocional.

A dimensão queer do filme nunca é tratada como “tema especial”, e justamente por isso se torna tão poderosa. “León” fala sobre maternidade lésbica, pertencimento e reconhecimento familiar sem didatismo. O conflito não nasce da sexualidade das personagens, mas da estrutura social que ainda insiste em considerar certos vínculos como provisórios ou menos legítimos. O filme entende que a dor queer muitas vezes está nos detalhes burocráticos, nos silêncios institucionais, na ameaça constante de ter sua família invalidada.

O roteiro de Andi Nachón evita armadilhas ao construir personagens imperfeitos e contraditórios. Julia não é transformada em mártir, assim como os demais personagens não existem apenas para cumprir funções dramáticas. Até mesmo o pai ausente de León ganha contornos ambíguos, o que impede que a narrativa caia numa divisão simplista entre vilões e vítimas. Existe um cuidado em mostrar que o afeto pode coexistir com egoísmo, medo e ressentimento, especialmente quando todos estão tentando sobreviver ao mesmo vazio.

“León” aposta numa encenação discreta, quase intimista. A fotografia de Eric Elizondo privilegia espaços domésticos, cozinhas apertadas, corredores e mesas compartilhadas, transformando o restaurante do casal em símbolo dessa família em reconstrução. Os diretores compreendem que cozinhar, alimentar e dividir refeições são atos profundamente afetivos. O filme inteiro parece girar em torno dessa ideia: amar alguém também é aprender a sustentar sua presença mesmo depois da ausência.

Curotto e Nachón transformam uma história íntima em reflexão universal sobre perda, pertencimento e resistência afetiva. É um filme sobre continuar existindo quando a vida planejada desmorona, mas também sobre a insistência radical de chamar certas pessoas de família, mesmo quando o mundo tenta negar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário