quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Dragon Dilatation (França, 2024)

"Dragon Dilatation", de Bertrand Mandico, provoca uma combustão entre cinema, teatro, dança, performance e fantasia. Apresentado no Festival de Locarno de 2024, o filme reúne dois ensaios cinematográficos, "Petrouchka" e "La Déviante Comédie", originalmente concebidos em relação ao espetáculo ao vivo. O resultado é um objeto híbrido, filmado em Super 16mm e estruturado pelo uso insistente da tela dividida. 

A escolha do split screen está longe de ser apenas um exercício de estilo. Mandico explicou que sua própria visão dupla, provocada por um estrabismo divergente, influenciou a decisão de trabalhar com duas imagens simultâneas. O dispositivo transforma aquilo que poderia ser uma limitação em princípio estético: não existe uma única perspectiva possível, mas imagens que se contradizem, se completam e disputam nossa atenção. 

A primeira metade, "Petrouchka", parte do célebre balé de Stravinsky, mas Mandico desloca o mito para um subterrâneo pós-atômico dominado pela indústria da moda. A personagem-título, interpretada por Clara Benador, transforma-se em uma espécie de marionete humana submetida à autoridade de uma criadora de moda interpretada por Nathalie Richard.

Masculino e feminino, humano e animal, sujeito e objeto, ator e personagem deixam de ser categorias seguras. "La Déviante Comédie" radicaliza esse procedimento ao recuperar material de um espetáculo que nunca chegou a existir e aproximá-lo do universo de "She Is Conann". Elina Löwensohn surge como Rainer, um cão infernal que conduz os personagens por uma espécie de versão queer e delirante da "Divina Comédia", enquanto Conann aparece como uma figura de desejo, violência e transgressão. 


A cenografia propositalmente artificial, os figurinos, as máscaras, os corpos metamorfoseados e a teatralidade fazem da própria representação uma questão política. O corpo que normalmente seria disciplinado para caber em uma identidade reconhecível aqui se recusa a permanecer estável. Os personagens atravessam mutações que desafiam o binarismo de gênero e as etiquetas sociais impostas aos corpos. 

Mas há uma ambivalência importante: "Dragon Dilatation" pode ser fascinante justamente onde também pode se tornar exaustivo. A radicalidade formal não garante necessariamente uma experiência igualmente radical para quem assiste. Parte de sua narrativa nasce de materiais concebidos para outros contextos, um balé encomendado pelo Festival de Aix-en-Provence e um espetáculo teatral que nunca chegou a acontecer. Mandico posteriormente os reuniu, transformando-os em um filme-ensaio.

Essa condição inacabada é o que melhor define "Dragon Dilatation".  O filme parte de uma marionete, atravessa modelos, monstros, atores, personagens, deuses, animais e performers, até que a própria distinção entre cinema e teatro começa a desaparecer.

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