A estreia solo de Sara Fantova em longas demonstra sensibilidade para capturar o instante delicado em que a juventude deixa de ser promessa e passa a conviver com perdas, responsabilidades e escolhas irreversíveis. Ambientado durante a vibrante Semana Grande de Bilbao, "Jone, A Veces" contrapõe a explosão coletiva da festa à intimidade silenciosa de sua protagonista. É um coming-of-age que evita grandes reviravoltas dramáticas para encontrar sua força nos pequenos gestos, nos silêncios e na sensação de que crescer quase nunca acontece de maneira gloriosa.
Jone, interpretada com impressionante naturalidade por Olaia Aguayo, tem apenas vinte anos, mas já carrega um peso que parece incompatível com sua idade. Enquanto acompanha o agravamento do Parkinson do pai e assume parte dos cuidados da irmã mais nova, ela vive seu primeiro amor ao conhecer Olga ( Ainhoa Artetxe). A descoberta afetiva nunca surge como conflito por se tratar de um romance entre duas mulheres, algo que Fantova trata com admirável naturalidade.
Essa abordagem talvez seja o maior mérito do filme. Em vez de transformar a sexualidade em motor exclusivo da narrativa, Fantova compreende que a vida de uma jovem lésbica também é atravessada por questões familiares, econômicas e existenciais. O romance entre Jone e Olga floresce entre shows, caminhadas noturnas e encontros durante a festa popular, oferecendo respiros luminosos diante da inevitabilidade da doença e da responsabilidade familiar.
A fotografia, de Andreu Ortoll, acompanha a protagonista com câmera próxima aos corpos, privilegiando rostos, olhares e pequenas reações, enquanto Bilbao raramente é filmada como cartão-postal. A cidade pulsa através de suas festas, multidões e música, mas permanece sempre filtrada pela experiência subjetiva de Jone.
O roteiro talvez peque por certa timidez dramática. Algumas relações secundárias poderiam ser exploradas com maior profundidade, especialmente o vínculo entre Jone e seu pai, que permanece emocionalmente contido até os instantes finais. Em determinados momentos, a opção por um registro minimalista faz com que certos conflitos pareçam apenas esboçados.
"Jone, A Veces" revela uma cineasta com identidade própria e um olhar profundamente humanista. Sara Fantova filma a juventude como um território de transição permanente, onde a alegria de um primeiro amor convive inevitavelmente com a consciência da finitude. É um filme discreto, mas emocionalmente consistente, que encontra beleza naquilo que costuma escapar aos grandes dramas: os dias comuns, as despedidas silenciosas e a coragem de continuar vivendo quando o futuro finalmente deixa de parecer uma abstração.
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