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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Mentes Extraordinárias 2ª Temporada (Brilliant Minds, EUA, 2025-2026)

 "Mentes Extraordinárias" encerra sua trajetória reafirmando que a medicina começa quando se enxerga a pessoa, não apenas a doença. Inspirada na vida e na obra do neurologista Oliver Sacks, a segunda e última temporada segue o Dr. Oliver Wolf (Zachary Quinto) e sua equipe no Hospital Geral do Bronx enquanto enfrentam casos neurológicos raros, dilemas éticos e conflitos íntimos. Ao longo de 20 episódios, a série amplia seu alcance ao discutir saúde mental, relações afetivas e vulnerabilidades sem perder de vista aquilo que sempre a distinguiu: a curiosidade científica colocada a serviço da empatia. A adaptação criada por Michael Grassi encontra um encerramento agridoce, consciente de que muitas histórias permanecerão abertas após o cancelamento da produção.

Ao mesmo tempo, a temporada joga o foco para os próprios médicos. Wolf continua convivendo com a cegueira facial, enfrentando seus próprios demônios, em uma grande jogada narrativa, mas Josh Nichols (Teddy Sears) também ganha maior profundidade dramática ao lado da chefe de psiquiatria Carol Pierce (Tamberla Perry). Entre eles, merece destaque a participação de Marco Pigossi como o neurocirurgião Beau Pedrosa, cuja presença acrescenta dinamismo ao triângulo amoroso central, ainda que pudesse ter sido explorada de maneira mais consistente.

O relacionamento entre Oliver Wolf e Josh Nichols amadurece lentamente até culminar no aguardado beijo (e que beijo!), encerrando uma tensão afetiva construída desde o primeiro ano. A série evita transformar essa relação em conflito permanente, preferindo tratá-la como parte da vida cotidiana daqueles personagens. Essa escolha dialoga diretamente com o legado de Oliver Sacks, cuja própria trajetória pessoal inspirou uma visão profundamente humanista sobre identidade, diferença e pertencimento.

Também chama atenção o equilíbrio entre casos médicos episódicos e os grandes arcos emocionais. Alguns episódios funcionam quase como pequenos filmes independentes, capazes de discutir abuso institucional contra idosos, saúde mental dos próprios profissionais ou os efeitos psicológicos de doenças degenerativas. Embora "The Way Home" ofereça fechamento emocional para Wolf e Nichols, diversas linhas narrativas terminam com evidente sensação de interrupção, deixando clara a impressão de que havia planos para um terceiro ano.


Ainda assim, "Mentes Extraordinárias" despede-se preservando aquilo que sempre foi sua maior qualidade: lembrar que a medicina é também um exercício de humanidade e escuta. Em um cenário televisivo frequentemente seduzido pelo sensacionalismo, a série encontrou sua identidade ao transformar neurologia, psiquiatria e ciência em ferramentas para compreender a complexidade humana. O resultado talvez não tenha alcançado a popularidade de outros dramas hospitalares, mas deixa um legado raro de sensibilidade, inteligência e respeito pelos pacientes e por aqueles que dedicam suas vidas a cuidar deles.


sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

He Went That Way(EUA, 2023)

Ancorado por uma performance cativante e intensa de Jacob Elordi e Zachary Quinto, He Went That Way é uma estranha comédia policial baseada "principalmente" na história real de um chimpanzé viajante. O diretor, Jeff Darling, faleceu logo após o término das filmagens, tornando o filme um caso compreensivelmente sombrio para todos os envolvidos. 

Ambientado no verão de 1964, o filme  lida com os perigos que pegar carona traz. Jim (Zachary Quinto) está viajando pela infame Rota 66,  para Chicago, com o famoso chimpanzé Spanky, que rouba várias cenas,  a tiracolo. O pano de fundo do Vietnã e a morte constante pairando no ar dá a He Went That Way uma atmosfera intrigante de descontentamento.

Jim faz uma parada, e é neste mesmo posto de gasolina em Death Valley, Califórnia, onde ele conhece Bobby (Elordi). As tentativas agressivas de Bobby de pegar carona parecem inúteis. Pela bondade de seu coração, Jim se oferece para levar Bobby tão longe quanto ele está indo. 


Mostrado em flashbacks cuidadosamente intercalados, Bobby é na verdade um serial killer psicótico com uma propensão para amarrar homens e atirar na cabeça deles. Para Jim, ele responde apenas algumas pequenas perguntas. Bobby foi dispensado da Força Aérea, e agora ele só quer ficar "experimentando a América".

Quando Bobby encontra a carga secreta de Jim no porta-malas, tudo em seu comportamento muda completamente. Spanky o chimpanzé se torna o elo entre os dois. Mais do que isso, pode ser a única razão pela qual Bobby não mata Jim.



A atitude de Quinto como Jim se choca maravilhosamente com a persona arrogante e complexa de Elordi, como Bobby. O personagem parece ter um cigarro na boca o tempo todo, ou chupando as pontas dos dedos para satisfazer uma fixação oral. Por outro lado, Jim parece meticuloso e quase clínico na forma como aborda qualquer situação. Ambos os atores são excelentes mesmo quando o material se torna um pouco confuso.

Um rápido desvio envolvendo o cunhado sacerdotal de Jim (Patrick J. Adams) não vai a lugar nenhum  e há várias vezes em que o filme constrói um confronto emocionante sem recompensa. He Went That Way é mais um estudo de personagem excêntrico do que um título narrativo simples.

Assim como Bobby ajuda Jim a se tornar mais humano, Jim também puxa Bobby para fora de sua concha. Jim deixa o andarilho de dezenove anos se abrir para ele de uma maneira que ninguém parece ter feito antes, simplesmente ouvindo.


Quando a atuação intensa de Elordi encontra as qualidades surreais do roteiro, He Went That Way está no seu melhor. Não é de todo surpreendente que Jim encontre mais conforto nos animais do que nas pessoas!


He Went That Way impressiona com uma cinematografia notável, mostrando imagens do deserto que retratam lindamente a paisagem do oeste dos Estados Unidos e capturam habilmente a essência dos anos 1960 por meio de cenografias meticulosas e escolhas de figurino e trilha sonora. No entanto, apesar dos visuais cativantes que transportam sem esforço os espectadores para a era pretendida, a morte de seu diretor certamente impactou o resultado final para refletir a convincente história de crime real em que a narrativa se baseia.





quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Fundo do Poço(Down Low, EUA, 2023)

Gary (Zachary Quinto) é um homem gay divorciado e recentemente fora do armário com uma grande dor de cabeça (literalmente), já que foi diagnosticado com um tumor cerebral inoperável. Ansiando por um final feliz, Gary contrata um massagista , Cameron (Lukas Gage), para um pouco mais do que sua massagem padrão; o toque de um homem.

Cameron é mais do que feliz em usar as mãos de várias maneiras enquanto mastiga chiclete e começa a trabalhar. Mas quando Cameron descobre que Gary nunca fez sexo com outro homem, a tarde de repente se torna uma missão para fazer Gary transar.


Ambientado quase inteiramente na casa de Gary, a trama dá uma guinada quando Cameron garante que Gary tenha toda a experiência gay em um dia. Em um minuto, os dois estão conversando, e no seguinte, Cameron leva Gary para o reino do aplicativo de sexo/namoro.


Cameron desce para a morte, drogas, um encontro esquisito na dark web e a chegada de uma vizinha (Judith Light) com alta na prescrição de medicamentos. Simon Rex também faz uma participação, nada menos que hilária.


O longa de estreia de Rightor Doyle, escrito por Phoebe Fisher e Lukas Gage, é uma farsa deliciosamente sombria, orgulhosamente queer e maldosamente engraçada. Mas, por baixo da comédia, também há uma exploração sincera do amor, da perda e da homofobia internalizada. 


Down Low é mantido junto por Zachary Quinto e a química cômica de Lukas Gage na tela. Os dois entregam comédia física divertida e humor rápido que investem em sua situação criminosa. Gary, de Quinto, tem um espírito solene e introvertido na ponta da ousadia extrovertida de Cameron. 


Além do humor atrevido, o coração pulsante do filme é a amizade entre dois tipos muito diferentes de homens gays. Mensagens aqui sobre mortalidade, legado e a importância das bolhas familiares logo abaixo de seu exterior áspero. 


O longa é deliciosamente fresco e diferente, pois subverte alegremente as expectativas. E embora ocasionalmente lute para encaixar sua comédia ricamente sombria com seu núcleo muito mais emocional, Down Low pode parecer uma farsa simples, mas tem mais camadas com humor gloriosamente sombrio entre amor, perda, cura e orgulho.



sexta-feira, 18 de novembro de 2022

American Horror Story: NYC(EUA, 2022)


Há tempos American Horror Story não é mais a mesma. Mas em sua décima primeira temporada Ryan Murphy, em parceria com Brad Falchuk, finalmente conseguiu criar algo relevante para atração, tendo como epicentro a epidemia da AIDS, nos anos 1980.

Não é a primeira vez que Murphy aborda o assunto, já tinha o feito antes na série Pose(2018-2021) e mais especificamente no longa The Normal Heart(2014), mas dessa vez ele utiliza a monstruosidade, em um roteiro inteligente, para criar análogos sobre os descasos do sistema de saúde, os riscos de infecção e o desprezo da sociedade.

Levando o subtítulo de New York City, o primeiro episódio mostra que é 1981 e a morte está à espreita. Homossexuais estão sendo mortos por um assassino musculoso, o Big Daddy, com uma máscara de couro. A princípio a trama nos remete a Parceiros da Noite(1980), com Al Pacino, mas logo percebemos que algo muito mais pesado e sombrio está por vir.


Esta é uma temporada cheia de personagens profundamente introspectivos. Assassinatos.. Adultérios. Homossexualidade. Seus protagonistas descem para a escuridão literal e eles, em sua maioria, também são niilistas.

A teia de vítimas do assassino continua a crescer e, no entanto, a polícia está mais ambivalente do que nunca. Um mal-entendido com Sam, de Zachary Quinto, envolve questões de consentimento que refletem as maneiras muito reais pelas quais os policiais não reconheceriam a diferença entre preliminares e um crime. 



A cruzada do policial Patrick(Russell Tovey) começa a esquentar e ele chega ao radar do assassino. Não demora muito para que essa dinâmica force Patrick a se envolver em jogos laboriosos com esse assassino, onde ele não tem poder. É bastante óbvio que o suspeito de Patrick basicamente funciona como uma personificação de sua tensão com Gino Barelli, de Joe Mantello, um repórter conflitante e bastante cativante.

Kathy, de Patti LuPone, rouba a cena em diversos momentos, seja atuando ou cantando em saunas cheias de homens nus.  Além de seus números, a trilha dá o tom atmosférico e nostálgico com músicas de The Cure, Blondie, Joy Division, The Stooges, Diana Ross, Voyage e Kraftwerk.

A cidade precisa reconhecer e fazer algo sobre essas pessoas desaparecidas, em vez da sociedade coletivamente manter a cabeça baixa e varrer para debaixo do tapete. The Body, que é um episódio forte, atinge uma cabeça elétrica que une simultaneamente vários personagens. Gino, Patrick, Sam e Henry(Denis O’Hare’) todos em torno de um cadáver que se torna um catalisador. 


American Horror Story apresentou muitos vilões em mais de uma década, mas o Sr. Whitely, de Jeff Hiller, é um antagonista de primeira linha. Whitely é profundamente assustador em todos os contextos. Há uma natureza simples na mania de Whitely. É a afetação perfeita que nunca transforma esse vilão em uma caricatura e, no mínimo, faz com que ele se sinta mais arrancado da realidade. 


O episódio Fire Island é um forte lembrete de que o orgulho é um pecado e nem sempre algo para admirar e celebrar. Dirigido por Jennifer Lynch, o capítulo vive neste território sombrio e ajuda a levar esta temporada de American Horror Story a uma conclusão poderosa, examinando o verdadeiro peso da culpa e as consequências que ela pode levar. 



Agora que os arquétipos mais amplos foram usados, há uma certa liberdade em sair do caminho comum. A décima primeira temporada de American Horror Story transforma Nova York no centro do terror, mas se restringe a um tempo e uma subcultura muito específicos.

Depois de muitas decapitações, avisos de tarô do Anjo da Morte e um sentinela de piñata humana, acontece que o pior serial killer de todos é a AIDS. Isso é crucial para os dois episódios finais de AHS: NYC. Estas são parcelas delirantes e surreais que prosperam em metáforas sonhadoras em vez de raciocínio lógico, lembrando a obra prima Angels in America(2003).

Requiem 1981/1987 Parte 1 e 2 o é um final raramente maduro que usa o poder da narrativa do gênero para amplificar um assunto importante que é infinitamente mais assustador do que bruxas, alienígenas ou casas assombrados.


AHS NYC: provou ser o mais carregado de comentários sociais desde Cult. O importante aqui é que a mensagem não parece forçada. Essas ideias são expressas de uma maneira poética que é distintamente única para a atração, mas também completamente alinhada com as sensibilidades do gênero da série: o terror.

Ainda há vida em toda morte que American Horror Story carrega. A atração troca seu sarcasmo e gritos padrão por um lembrete perspicaz e artístico de que a vida real é cheia de seus próprios horrores e tragédias.



quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Eu sou Michael(I'm Michael, EUA, 2015)


Cura Gay? Para o ativista LGBTQIA+ Michael Glatze, interpretado por James Franco, foi supostamente possível. Baseado em fatos reais, Eu sou Michael, filme de estreia de Justin Kelly, o mesmo de King Cobra, conta a história de um homossexual que fez o caminho inverso para voltar para dentro do armário.

Michael leva uma boa vida gay, mora em San Francisco, é editor da importante revista XY, está casado com Benett, personagem de Zachary Quintino, e dá palestras sobre comunidade LGBTQIA+ e a juventude.

Quando se mudam para o Canadá seguem uma vida típica de casal, apesar de sempre abrir espaços para ménages. Lá, Michael que encontra uma comunidade menor passa a desenvolver novos projetos para jovens queers.

Depoimentos de gays cristãos, porém, começam a chamar a sua atenção e ele a questionar valores religiosos que condenam a homossexualidade. Se sentindo cada vez mais próximo de Deus, lendo a Bíblia, Michael toma uma decisão: abandonar sua antiga vida.

Em seu Blog, onde geralmente escrevia artigos de incentivo à comunidade LGBTQIA+ ele revela que agora será heterossexual, sua vida gay idealizada estava sendo abandonada, para começar um modo de vida segundo ele mais ‘puro’.

O personagem passa a frequentar a igreja, retiros e rompe com Benett, a quem sempre estimou muito. Sua agora heterossexualidade, causa rebuliço na imprensa. Ex-Gay? Como um militante, que lutou tanto por direitos, poderia estar agora fazendo o caminho contrário e condenando aquilo porque sempre lutou?

Em certo momento há uma rápida participação de Daryl Hannah, como uma conselheira religiosa, apesar do impacto da atriz ela não acrescenta muito ao filme.

Seguindo seu caminho de ‘salvação’, Michael conhece Rebecca, personagem da sempre ótima Emma Roberts, que aceita o seu passado e também o pedido de casamento. O personagem está pronto para começar uma nova vida, mas será possível reprimir quem se realmente é?

O filme é um tanto indigesto para um LGBTQIA+ bem resolvido, pois mostra uma situação de retrocesso perante nossa luta por igualdade. Mas é uma obra importante, sobretudo por colocar o papel da religião nessa ilusória "cura" gay.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

The Boys in the Band(EUA, 2020)



Baseado num espetáculo Off Broadway dos anos 1960, de Mart Crowley, que anos 1970 foi adaptado para o cinema, por William Friedikan de O Exorcista, esse remake, onde todos os atores são gays têm a cara de Ryan Murphy o criador de entre muitas outras séries Pose. Apesar de ser dirigido por Joe Mantello, ator de The Normal Heart e Hollywood, o filme por seu elenco conhecido e clima sessentista carrega sim a marca de Murphy que assina a produção do projeto, que em sua versão teatral ganhou recentemente um Tony.

Jim Parsons, de The Big Bang Theory e Hollywood, brilha como Michael, um gay que julga se passar por hétero e será o anfitrião de um jantar de aniversário. Zachary Quinto, de American Horror Story, é o aniversariante pintoso e provocativo. Brian  Hutchison é o hétero que aparece de penetra na festa. Ainda estão no elenco, Matt Bomer, Andrew Rannells, Charlie Carver, Robin de Jesus, Michael Benjamin Washington e Tuc Watkins.


Em um clima intimista que respeita à obra teatral, o filme se passa em um apartamento em Nova York no ano de 1968, época em que sair do armário era praticamente um ato de suicídio social. A noite será de festa de aniversário de Zachary, reunindo 7 amigos gays destilando muito veneno, conflitos, diálogos complexos e temas diversos, ligados à homossexualidade.


Alan, o heterossexual que se infiltra entre um grupo de gays parece um peixe fora da água. Ele retrata a sociedade e como enxergava gays reagindo com violência, repulsa e homofobia, sempre fazendo o mais afeminado ou o negro sofrer mais. Outro estranho que entra para o grupo é um michê que está lá para tornar tudo mais belo e servir de alívio cômico.


Cada personagem têm sua personalidade muito bem desenvolvida mas de certa forma seguindo estereótipos gays, há o efeminado, o negro, o intelectual, o promíscuo, o daddy, o que garante à experiência um tipo de diversidade.

A bebida, muita dela, vai soltando os convidados, que durante a festa, são expostos em jogos de telefonemas criado por Michael, o que acaba revelando muito sobre o caráter do personagem. Nesse ponto a fragilidade de todos já estará a flor da pele, com eles utilizando seus mecanismos de defesa, mas ainda assim cometendo atos e revelações reprimidas. A legenda não poupa expressões de tratamento gay como viado, bicha e mona.


A ambientação, a trilha sonora me fez lembrar de Adivinhe quem vem para jantar que tratava sobre a inserção de negros na sociedade. A falta de qualquer presença feminina no elenco me fez associar à outra peça/filme As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, que só possuía mulheres. E também é assim em The Boys in the band, um filme inclusivo, sobre uma parcela excluída da sociedade que numa época pré-AIDS vivia o dilema de assumir quem realmente é ou continuar trancado dentro do armário.