quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Divina Sarah Bernhardt(Sarah Bernhardt, La Divine, França, 2024)

 Poucas artistas moldaram a ideia moderna de celebridade como Sarah Bernhardt. Antes mesmo da invenção do cinema como linguagem consolidada, a atriz francesa já compreendia o poder da própria imagem, da autopromoção e do escândalo. Em "A Divina Sarah Bernhardt", Guillaume Nicloux evita o caminho do biopic cronológico para construir um retrato fragmentado dessa mulher extraordinária, interpretada por uma magnética Sandrine Kiberlain. A narrativa percorre diferentes momentos da vida da atriz, tendo como eixo sua intensa relação com o ator Lucien Guitry (Laurent Lafitte), sem deixar de revelar outras paixões, amizades e rivalidades que ajudaram a transformar Bernhardt em uma figura quase mitológica.

O filme compreende que Sarah Bernhardt jamais caberia numa narrativa convencional. Nicloux prefere trabalhar por associações, memórias e episódios que, juntos, compõem o retrato de uma personalidade maior que a própria vida. A estrutura fragmentada acompanha uma mulher que parecia existir permanentemente em cena, incapaz de separar completamente arte e existência.


É nesse ponto que o aspecto queer da obra ganha relevância. Mais do que registrar a bissexualidade de Sarah Bernhardt como uma curiosidade biográfica, o filme a insere dentro de um projeto muito maior de liberdade. Sua relação com a pintora Louise Abbéma (Amira Casar) aparece como resultado de uma vida conduzida pelo desejo e pela recusa das convenções sociais. O romance ocupa menos espaço que a relação turbulenta com Lucien Guitry, mas reforça uma característica essencial da protagonista: sua recusa em aceitar limites impostos ao corpo feminino.

Mas as limitações estão justamente na natureza episódica do roteiro. Algumas passagens surgem e desaparecem antes de alcançar verdadeiro desenvolvimento dramático, enquanto personagens históricos, como Alexandre Dumas e Sigmund Freud, entram em cena apenas para reforçar o status lendário da protagonista. Em determinados momentos, a impressão é de assistir a uma sucessão de quadros sobre Sarah Bernhardt, mais interessados em preservar seu magnetismo do que em investigar suas contradições.

Mais do que celebrar uma atriz, "A Divina Sarah Bernhardt" celebra uma mulher que viveu décadas à frente de seu tempo. Sua independência artística, sua liberdade sexual, sua capacidade de desafiar normas sociais e transformar a própria vida em performance fazem dela uma figura cuja modernidade continua surpreendente mais de um século depois.


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