quarta-feira, 29 de julho de 2026

Feud: Capote Vs The Swans (EUA, 2022)

Depois de sete anos desde a brilhante e venenosa "Feud: Bette and Joan", Ryan Murphy retorna à antologia com uma proposta irresistível: transformar o escândalo literário envolvendo Truman Capote e suas socialites favoritas em um melodrama de luxo. Escrita por Jon Robin Baitz e com episódios dirigidos  por Gus Van Sant, "Feud: Capote vs. The Swans" acompanha a ascensão de Capote ao coração da elite nova-iorquina e sua queda após a publicação de "La Côte Basque 1965", capítulo do romance inacabado "Súplicas Atendidas", no qual expôs os segredos mais íntimos de mulheres como Babe Paley, Slim Keith, C.Z. Guest e Lee Radziwill. Baseada no livro Capote's Women, de Laurence Leamer, a série possui todos os ingredientes do grande espetáculo murphyano: glamour, traição, álcool, ressentimento e decadência.

O que surpreende, porém, é que a série está menos interessada na fofoca do que na melancolia. Em vez de apostar no camp histérico que muitos esperavam, Baitz transforma a narrativa em um estudo sobre amizade, dependência emocional e solidão. A relação entre Capote e Babe Paley emerge como o verdadeiro centro afetivo da obra. O escritor não aparece apenas como um traidor cruel, mas como um homem dividido entre a necessidade de ser amado e a compulsão de transformar a vida dos outros em literatura. 


Tom Hollander entrega uma interpretação extraordinária de Truman Capote. Sem imitar mecanicamente a voz ou os maneirismos do escritor, o ator captura sua inteligência ferina, seu humor devastador e, sobretudo, sua fragilidade. Ao seu redor, o elenco feminino é um desfile de precisão: Naomi Watts dá a Babe Paley uma elegância dolorosa; Diane Lane transforma Slim Keith em uma mistura deliciosa de sarcasmo e amargura; Chloë Sevigny encontra humanidade sob a superfície aristocrática de C.Z. Guest; e Calista Flockhart faz de Lee Radziwill uma figura permanentemente à sombra do brilho alheio. Até participações menores, como Demi Moore e Jessica Lange, deixam marcas profundas. A série funciona, em grande parte, como uma celebração do poder das atrizes.

A atração constrói um dos retratos mais sedutores da Nova York das décadas de 1960 e 1970. Figurinos assinados por Zac Posen, cenários opulentos e uma fotografia que alterna sofisticação clássica e decadência alcoólica transformam cada episódio em um editorial de moda melancólico. O episódio dedicado ao lendário Black and White Ball é exemplar: a série utiliza uma estética de falso documentário em preto e branco para recriar não apenas uma festa, mas o momento exato em que Capote compreendeu o funcionamento da celebridade moderna. 

A série levanta hipóteses fascinantes, misoginia, inveja, ressentimento de classe, alcoolismo, autossabotagem, mas raramente escolhe uma delas para desenvolver com profundidade. Em determinados momentos, a narrativa se dispersa em flashbacks, fantasmas e monólogos que enfraquecem a tensão dramática.

Mas talvez essa falta de diversão seja precisamente o ponto. "Feud: Capote vs. The Swans" é menos uma guerra de socialites do que um réquiem para um mundo desaparecido: a velha alta sociedade nova-iorquina, os almoços intermináveis, os segredos protegidos pelo dinheiro e o escritor gay que, ao mesmo tempo, era mascote, confidente e intruso. A série entende que Capote jamais foi totalmente aceito por aquelas mulheres, assim como elas jamais compreenderam inteiramente o homem que transformou suas vidas em matéria-prima literária. No fim, o verdadeiro escândalo não é a traição, mas a impossibilidade de separar amor, amizade e criação artística.


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