segunda-feira, 13 de julho de 2026

Confesiones Chin Chin (Espanha, 2024)

"Confesiones Chin Chin", estreia de Carolina Perelman na direção de longas, transforma uma noite no bar Cazador, em Madri, em território para pequenas implosões pessoais. Vicente (Enrique Gimeno) e Lolo (Fernando Bodega), dois atores queer tentando sobreviver às instabilidades da vida artística, cruzam histórias com Sofía (Ángela Aguilar), Roberto (Nacho Scorza) e outras figuras que bebem, fumam e falam talvez mais do que deveriam. Escrito por Perelman e Samuel Rotter, o filme nasce de confissões reais e embaralha deliberadamente experiência e encenação.

O "chin chin" do título soa como um brinde à indiscrição. Sexo, infidelidade, dinheiro, abuso, frustrações profissionais e relações pouco convencionais surgem em conversas que raramente obedecem a uma progressão dramática tradicional. Perelman parece posicionar sua câmera na mesa ao lado e permitir que escutemos fragmentos de vidas alheias. 


A queerness circula pelo bar como parte da experiência cotidiana, atravessando desejo, trabalho, precariedade e afeto. Até quando aborda a discriminação e a homofobia, "Confesiones Chin Chin" preserva a complexidade de personagens que também podem ser vaidosos, cruéis, engraçados ou contraditórios.

A referência a "Portrait of Jason" ajuda a decifrar o jogo proposto por Perelman. A diretora contou ter entrevistado os intérpretes durante meses para criar seus "duplos", enquanto reunia relatos sobre sexo, casamento, saída do armário e infidelidade. O resultado ocupa uma região nebulosa entre documentário e ficção, na qual nunca temos plena certeza sobre a origem de uma confissão. 


O bar funciona como uma cápsula de intimidade. Os enquadramentos fechados, a câmera móvel e a iluminação quente reforçam a proximidade física, enquanto a música de Pedro Fraguela dá ao jazz uma função quase estrutural. O ritmo musical conecta conversas que poderiam parecer vinhetas isoladas e imprime ao longa uma textura ao mesmo tempo retrô e contemporânea. 


"Confesiones Chin Chin" pode frustrar quem procura uma narrativa rigorosamente amarrada. Ainda assim, existe algo sedutor nesse conjunto de vozes indiscretas. Carolina Perelman constrói um cinema queer interessado na escuta e na vulnerabilidade, permitindo que seus personagens retirem as máscaras sem transformá-los em exemplos de boa conduta. Entre jazz, fumaça, álcool e verdades possivelmente maquiadas, o filme propõe seu próprio brinde: à deliciosa confusão de sermos personagens até quando juramos estar confessando a verdade.

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