"Confesiones Chin Chin", estreia de Carolina Perelman na direção de longas, transforma uma noite no bar Cazador, em Madri, em território para pequenas implosões pessoais. Vicente (Enrique Gimeno) e Lolo (Fernando Bodega), dois atores queer tentando sobreviver às instabilidades da vida artística, cruzam histórias com Sofía (Ángela Aguilar), Roberto (Nacho Scorza) e outras figuras que bebem, fumam e falam talvez mais do que deveriam. Escrito por Perelman e Samuel Rotter, o filme nasce de confissões reais e embaralha deliberadamente experiência e encenação.
O "chin chin" do título soa como um brinde à indiscrição. Sexo, infidelidade, dinheiro, abuso, frustrações profissionais e relações pouco convencionais surgem em conversas que raramente obedecem a uma progressão dramática tradicional. Perelman parece posicionar sua câmera na mesa ao lado e permitir que escutemos fragmentos de vidas alheias.
A queerness circula pelo bar como parte da experiência cotidiana, atravessando desejo, trabalho, precariedade e afeto. Até quando aborda a discriminação e a homofobia, "Confesiones Chin Chin" preserva a complexidade de personagens que também podem ser vaidosos, cruéis, engraçados ou contraditórios.
A referência a "Portrait of Jason" ajuda a decifrar o jogo proposto por Perelman. A diretora contou ter entrevistado os intérpretes durante meses para criar seus "duplos", enquanto reunia relatos sobre sexo, casamento, saída do armário e infidelidade. O resultado ocupa uma região nebulosa entre documentário e ficção, na qual nunca temos plena certeza sobre a origem de uma confissão.
O bar funciona como uma cápsula de intimidade. Os enquadramentos fechados, a câmera móvel e a iluminação quente reforçam a proximidade física, enquanto a música de Pedro Fraguela dá ao jazz uma função quase estrutural. O ritmo musical conecta conversas que poderiam parecer vinhetas isoladas e imprime ao longa uma textura ao mesmo tempo retrô e contemporânea.
"Confesiones Chin Chin" pode frustrar quem procura uma narrativa rigorosamente amarrada. Ainda assim, existe algo sedutor nesse conjunto de vozes indiscretas. Carolina Perelman constrói um cinema queer interessado na escuta e na vulnerabilidade, permitindo que seus personagens retirem as máscaras sem transformá-los em exemplos de boa conduta. Entre jazz, fumaça, álcool e verdades possivelmente maquiadas, o filme propõe seu próprio brinde: à deliciosa confusão de sermos personagens até quando juramos estar confessando a verdade.
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